Ismael era um homem rude do campo. Vivia sozinho em uma casa de barro construída por ele mesmo. Era temido pela vizinhança por desrespeitar a todos e zombar do credo das pessoas. Andava armado com um revólver calibre 38 e um facão de abrir mato.

Nunca se casara, pois seu gênio, dito ruim, não deixou nenhuma mulher se apaixonar por ele. Então, ele vivia com a sua criação de carneiros, galinhas e patos. Sobrevivia com o pouco dinheiro que a venda dos ovos das aves forneciam.

Ia quase que todos os dias para a cidade. Cidade pequena não mais de 2000 habitantes, interior de Pernambuco, na secura do nordeste, para vender seus ovos e impor respeito, como gostava de dizer. Não respeitava ninguém. Zombava do padre e da sua igreja e dizia que missa era coisa de baitola.

Fazia questão de desafiar os costumes religiosos e já chegou a cuspir em uma imagem de padre Cícero que ficava na praça, em frente à igreja.

- Um dia Deus vai te castigar! - Dizia o padre

- Ele não pode comigo! - Respondia em tom desafiador.

Quando bebia, aí o negócio piorava. Blasfemava em frente a igreja, aos gritos e chamava Deus para duelar com ele, sacando seu facão.

Certa vez entrou na igreja e foi ao confessionário.

- Padre... Estou arrependido... Queria me confessar!

- Finalmente Ismael! Encontrou o caminho de Deus!

- Sim padre.... Gostaria de contar os meus pecados e ser perdoado.

- Pode falar, meu filho...

- Fui eu que roubei o dinheiro da doação da igreja. Gastei tudo em pinga. Também fui eu que quebrei os braços da estátua padre Cícero na praça. E tem a última, padre.

- Qual, meu filho?

- Acabei de cagar aqui dentro!

Enquanto Ismael gargalhava dentro do confessionário, o padre saiu do seu lugar e ao abrir a cortina, viu que era verdade. O padre expulsou-o da igreja e o proibiu de lá, voltar.

E assim Ismael desafiava a tudo e a todos.

Certo ano, ao se aproximar a Páscoa, ele estava no bar, se embriagando quando comentou com jeremias, o dono do bar.

- Esse ano vou matar meu carneiro na sexta feira e fazer um cozido!

- Não faça isso Ismael! É sexta feira santa! Não se pode comer carne vermelha! Ainda mais sacrificar algum animal!

- E quem vai me impedir? Vou matar o danado e me encher de carne no almoço.

- Que Deus tenha piedade de ti, homem!!!

- Eu quero que Deus se dane!

Saiu do bar cambaleando e voltou para casa.

Os dias foram passando e a cidade se preparava para as procissões da semana santa. Todos ajudavam o padre nos preparativos, menos Ismael que sentado no banco da praça, enrolava seu cigarro de palha zombando de todos.

- Bando de idiotas! Olhem só essas freiras! Quer ir lá para casa, irmã? - E gargalhava.

Na quinta feira à noite, ele já estava amolando o seu facão.

- Vou deixar o bicho sangrar bastante para dar um bom molho!

Na sexta, de manhã, Ismael levantou-se e decidido, caminhou para o cercado onde o carneiro estava.

- Quero ver quem vai me impedir. Eu quero carne e tem de ser hoje!

Entrou no cercado e pegou o bicho pelo pescoço. Quando ia dar a estocada no pescoço do carneiro, ele consegue se soltar, se vira para ele com os olhos cheios de sangue e diz:

- Tu queres comer carne?

Nisso o bicho sai correndo pelo cercado sumindo pela mata.

- Aquele bicho falou comigo? Deve ser a cachaça de ontem... Pinga vagabunda...

Levantou-se e disse:

- Você vai ser meu almoço, praga!

Saiu atrás do bicho pela mata com o facão em punho.

Após uma meia hora adentrando a mata, viu o carneiro pastando calmamente, perto de uma clareira.

- Tua hora chegou!

Nisso ele escuta ao longe.

- Ismael...

Ele parou de caminhar e ficou em silêncio, quando escutou novamente, ao fundo.

- Ismael...

- Quem está aí????

- Ismael...

O carneiro continuava a pastar. Não se mexeu um centímetro.

- Ismael...

A voz vinha do fundo da mata mas já estava mais alta.

- Aparece logo, cabra safado!

Puxou o revólver da cintura.

- Se for alma, ganha reza. Se for gente, ganha chumbo!

Nisso, uma figura fantasmagórica, como um ser humano decomposto, caminhava em sua direção e arrastava um pesado machado.

- O que é você, maldito?

Foram cinco tiros que acertaram a criatura mas que não surtiu efeito algum.

A criatura se aproximou e levantou o machado em sua direção. O golpe foi certeiro na mão que estava com o revólver que caiu segurando o mesmo. O segundo golpe, acertou seu joelho esquerdo, separando - o do corpo, e o terceiro decepou a cabeça do pobre coitado.

Diz se que após uma decapitação a cabeça ainda pode sobreviver por 20 segundos.

A entidade pegou a cabeça de Ismael em uma mão e o pedaço da sua perna na outra. Levantou a cabeça e fitou-o nos olhos dizendo com uma voz gutural:

- Hoje eu vou comer carne!

E nos últimos dez segundos de vida, Ismael viu a criatura morder um pedaço da sua perna e comendo-a, sumiu na mata carregando a cabeça do infeliz.

Alguém havia comido carne naquele dia.