As sacolas de compras pesavam ao ponto de deixar marcas fundas nas mãos delicadas da menina, que atravessava o estacionamento quase vazio do supermercado a murmurar uma canção qualquer.

A garoa umedecia o casaco vermelho, sendo também a responsável por manter os moradores dos arredores no conforto dos seus lares; o ambiente onde a adolescente gostaria de estar, munida de uma xícara de chocolate quente enquanto assistia a uma série ou um filme, quem sabe. Porém precisara comprar os ingredientes faltantes na despensa, para produzir os biscoitos tão apreciados pela avó.

Acabou por parar um instante, colocando as sacolas no chão, e ajustou as alças de plástico acima do tecido das mangas, o que solucionou boa parte do incômodo nas mãos dormentes. E sem querer, dera-se conta, pisara no rosto jovial de uma colega de turma; a folha de jornal, suja e úmida, exibia uma foto da garota desaparecida há duas semanas sem deixar rastros. Alunos, professores e moradores ajudaram a polícia na procura e, ainda assim, não a encontraram em canto algum. Uma fuga inconsequente com um namorado misterioso era uma opção bastante comentada.

A menina do casaco vermelho não acreditava nisso.

Ao erguer o rosto, incomodada com a imagem infeliz, notou um carro parado a alguns metros de distância; o ruído do motor invadiu os ouvidos sem dificuldade, dado o silêncio prevalecente no local. O vidro fumê a impedia de enxergar quem, seguindo a intuição, observava-a do banco do motorista. A sensação incômoda aumentou ao lembrar de que o veículo estava ali desde a sua chegada para fazer as compras.

Ela desviou o olhar, puxando o capuz para cima e o colocando com cuidado sobre os cabelos longos e eriçados, graças ao clima daquela tarde cinzenta. Os passos se tornaram apressados, porém não o suficiente para criar uma boa margem de segurança do carro a segui-la. Olhou rápido por cima do ombro, vendo o veículo preto se aproximar, liberando uma fumaça escura através do cano de descarga. O coração acelerou e a mente gritou, implorando para que fugisse o mais rápido possível.

Quando deu por si, corria para longe do supermercado, sabendo que, se voltasse, não conseguiria adentrá-lo a tempo.

As sacolas escaparam das mãos, e o retinir melódico das garrafas de vidro se chocando com o chão logo ficou para trás, junto com a poça de leite, que se espalhou quando os pneus da caminhonete passaram por cima. A menina era uma boa corredora, porém não podia competir com o carro. No momento de desespero, ignorou as próprias limitações e fez o melhor que pôde.

À medida que se afastava do estabelecimento, viu-se ainda mais sozinha. Não havia ninguém a quem pudesse recorrer em busca de ajuda; janelas e portas fechadas, pessoas trancadas em casa em um dia frio de inverno. “Era onde eu deveria estar”, pensou por um instante, agindo por instinto ao desviar do caminho usual para seguir em direção às árvores que orlavam a calçada contrária.

A mãe, em vida, pedira com frequência que a filha não cortasse caminho por ali, mas a jovem nunca a ouvira e isso não mudaria na atual conjuntura. Aquela floresta tornara-se uma segunda casa desde a infância, por isso conhecia cada canto com a palma da mão. As chances de sobrevivência aumentavam conforme se afastava da estrada, disso tinha certeza.

De repente, escutou o carro frear de forma brusca, embora a atenção permanecesse voltada em desviar dos galhos e troncos de árvores ao redor. O som seguinte foi o da porta do carro sendo fechada com igual violência. A menina não sabia como a pessoa se parecia, ou se era um corredor ágil ou não. Talvez empunhasse uma arma e quisesse “brincar” antes de concretizar as intenções ferais.

O coração trovejava no peito, com o suor escorrendo ao longo do rosto afogueado. Alcançaria o centro da floresta em breve, contudo não se permitiu esperanças. Só se veria segura ao cruzar a soleira da porta de casa.

Ela arriscou um olhar para trás — o capuz do casaco caindo nas costas —, cometendo um erro, pois não viu o tronco coberto de musgo à frente em tempo de pulá-lo.

A queda se deu em câmera lenta e a testa atingiu o chão com força, deixando-a tonta por tempo suficiente para que as passadas estranhas se acercassem. A essa altura, desnorteada, creditou a respiração pesada que ouvia à própria boca e ao nariz, porém não tardou a ser engolfada pelo hálito morno contra os seus cabelos.

Apesar de a terra cobrir boa parte do rosto da garota, entrando nas narinas dilatadas, o odor de suor que o homem exalava era notório. Os dedos que tocaram a bochecha arranhada eram grandes e grossos, com as unhas roídas. Quando os viu se aproximar dos seus lábios, abocanhou-os até o gosto de sangue se espalhar na boca ressecada. Um ruído guinchado precedeu o soco violento nas costelas, obrigando-a soltá-lo e cambalear até os joelhos cederem.

O oxigênio era inexistente, e ela mal percebeu a mão simiesca se embrenhar em seus cabelos, puxando-a com estupidez até ficar em pé. A visão turvada fazia do homem uma figura disforme a eclipsar tudo em volta.

— Não há som mais bonito que o do arquejar de uma vadiazinha feito você. — Os ouvidos captaram as palavras como se submersa em água gelada.

Ela engoliu o sangue, deixando um rastro metálico na boca, responsável por despertar a mente do entorpecimento. Então gritou por ajuda, utilizando o ar restante nos pulmões, porém a única resposta foi a risada do agressor, que passou a língua áspera do pescoço da garota até a orelha, roubando-lhe as palavras. O corpo se agigantou sobre o seu, imprensando-a contra uma árvore.

— Te peguei. ‘Tá com você — sussurrou antes de jogá-la no chão.

O som da fivela do cinto batendo no chão antecedeu o que homem assumiu como o choro convulsivo da menina. Isso o excitava tanto quanto a escolha da vítima e a perseguição; tudo parte de um ritual cometido há uma década, indo de cidade em cidade e elegendo sempre os melhores cenários, as melhores meninas.

A que estava à sua frente não oferecera muito empecilho — solitária e desatenta. Quase desistira por conta da falta de desafio. “Ela implorou por isso”, pensou ele, levando a mão ao cós da calça e dando-se conta de que a faca de estimação não se encontrava ali; um objeto imprescindível, pois gostava de colocar a lâmina afiada em cima da pele fina do pescoço das garotas ao cometer suas atrocidades.

Virando-se, localizou-a a menos de um metro e, ao se abaixar para pegá-la, notou que o choro da vítima virara uma risada alta. Franzindo o cenho, olhou por cima do ombro para se deparar com a garota em pé, a poucos centímetros de distância. Surpreso por não a ter escutado se mover, levantou-se com a mão firme ao redor do cabo da faca, entretanto algo no semblante dela fê-lo estacar tal qual as árvores a rodeá-los.

O riso cessou de súbito, dando lugar a um sorriso que mostrava a língua deslizando sobre os dentes pontiagudos. Ela o olhou dos pés à cabeça, vendo com contentamento quando faca escorregou das mãos do agressor e cravou a ponta na terra úmida. O homem a encarava incapaz de esboçar uma reação sequer, arfando ao avistar as íris da menina ganharem um tom vivo de vermelho.

— Tudo bem — disse ela, tirando o casaco e o jogando de lado enquanto a musculatura se expandia e as unhas ficavam tão grandes quanto garras —, ‘tá comigo.