A noite sorrateiramente rouba os resquícios de luz que iluminavam o céu, estava quente acima do asfalto, pessoas apressadas se esbarravam umas nas outras. Porém, logo abaixo do asfalto fervente, havia um lugar, onde a luz era impenetrável, um lugar, onde a escuridão é quase tangível, onde não havia esperança, um ambiente tão asqueroso que exalava podridão pelas frestas da tampa de ferro maciço, forçando as pessoas desviarem, e seguirem pelo outro lado da rua. Neste lugar, seres rastejavam pela superfície úmida e fétida, em busca de alimento, porém neste noite, tiveram uma surpresa, a comida estava bem em sua frente, ainda estava fresca, devoraram lentamente como aquele banquete, como se fosse a última refeição, comeram boa parte daquela carcaça.

Horas antes, Manoel, se preparava para ir ao encontro da sua namorada, que morava a poucas quadras de sua casa, escolheu a melhor roupa, porém, o destino estava prestes a lhe pregar uma peça, bastante cruel. Na noite anterior ouviu reportagens do jornal local, que relatavam ataques de um maníaco que já tinha feito uma vítima e estava em busca da próxima, o repórter disse ainda que ele agia durante a noite, por se tratar de matéria sensacionalista, ele meneou a cabeça negativamente, deve ser fake news, pensou, ele estava sentado na cadeira de madeira, trajando uma camisa de botão preta, calça caramelo e vans preto, morava em uma quitinete, com uma sala grande que também era seu quarto, cozinha e sala, a cozinha ficava do lado esquerdo, tinha um fogão pequeno, geladeira, havia também duas prateleiras de madeira acima do fogão, onde ficavam poucos pratos rasos brancos, e algumas canecas pretas. Na sala, Manoel estava pensativo, seus olhos voltados para o café, inspirou a doce fumaça que exalava da caneca que repousava sob a mesinha azul degastada de madeira com pés de ferro, na mesinha tinha também uma garrafa de café e um cesta de pães, ainda na sala, havia um pequeno rack de madeira, com alguns portas retratos, e uma televisão de trinta polegadas, enquanto estava sentado na cadeira, apoiando os braços na mesa, ele sente seu celular vibrar, se assusta, estava distraído em seus pensamentos, rapidamente pega o celular, pois poderia ser sua amada, porém era sua mãe, do outro lado da linha, ela estava apreensiva, e questionou se ele viu as notícias, Manoel disse que sim, e falou pra não se preocupar que ele iria tomar os devidos cuidados, se despediu dizendo que a amava. Ignorando todos os avisos, saiu mesmo assim. Lembrou de trancar as janelas e a porta, seguiu com cautela pela calçada de cimento degastada pela chuva. Ele estava transbordando de felicidade, pois a amava muito, mas tinha feito algo de que se arrependerá, estava disposto a consertar tudo, carregava uma rosa vermelha na mão direta, com os olhos culpados olhou para a rosa e refletiu como tinha sido um idiota com ela, e disse pra si mesmo: tomara que ela me perdoe, estava tão perdido em seus pensamentos que não percebeu que havia passos atrás dele. Verificou as horas, no relógio, os passos se aproximavam cada vez mais, mais perto, até a figura caminhar ao seu lado. Manoel observou pelo canto do olho que se tratava de um homem alto, branco, com barba por fazer, e cabelo estilo militar, olhos pretos e maxilar bem desenhado. Ele era desatento, mais assim que viu a figura desse homem, ele sabia que havia algo de estranho. Aquele olhar trazia uma frieza, e seu sorriso uma maldade, apesar dos dias serem quentes, aquela noite trazia um vento frio, a corrente de ar o abraçou, arrepiou-se, os passos da sua companhia estavam estranhos, em determinado momento os passos foram desacelerando, olhou para o lado e não viu mais o homem que estava praticamente andando ao seu lado, por um momento respirou aliviado, ao colocar as mãos nos bolsos da calça, acidentalmente deixou a rosa cair, percebendo p erro grave, seus olhos ficaram marejados, seu plano estava arruinado, a frustração escapou de seus lábios, em forma de xingamento, não podia parar e simplesmente pegar a rosa, pois os passos que o acompanhavam, iria suspeitar disso, então achou melhor seguir seu caminho, percebendo que agora os passos estavam atrás dele, um desconforto emergia do seu estômago, forçando a respirar mais intensamente. — Será que estou paranoico? Pensou ele, ao enxugar o suor da testa, uma respiração mais intensa na sua nuca, então sente um objeto pontiagudo encostando lentamente nas suas costas, seguido de um sussurro, quase inaudível.

— Haja naturalmente, ou você morre. Seu algoz disse, e cada sílaba ouvida por Manoel o fizeram estremecer, um medo percorreu seu dedo do pé até a nuca, sentiu o frio da morte rondando seu corpo, as batidas do coração aceleraram como se tivesse participado de uma maratona, era quase perceptível seu coração pulsando sob a camisa, preta, a cada passo o pânico crescia, sua mente estava em completo frenesi, um turbilhão de pensamento preencheram sua cabeça, tornando-o paranoico, seus olhos gritavam por ajuda, a angústia escorria em forma de lágrimas. Não ouviu o que o assassino disse. Refém do medo, não queria morrer justamente nesta noite, Manoel com as pernas bambas, a todo tempo repetia pra si mesmo, isso não está acontecendo, enquanto o maníaco seguia com arma em punhos escondida, voltando a andar lado a lado

Ao seu lado, o ceifador também está com pensamentos frenéticos, seus dedos estão suados, ele sentia o suor segurando nas pontas dos dedos, lutando para não cair, várias vezes caia e deslizava livremente pelo pedaço de aço gélido que carregava em mãos, não demonstrou, porém seu corpo falava, ele estava nervoso, apesar de ter matado antes, cada morte, era como se fosse a primeira vez, isso deixava excitado, adorava a sensação de ter o controle sobre outra vida, se sentia como Deus! Cada morte era única. Mas nada se compara a primeira morte que cometeu, essa lembrança habita as camadas mais profundas da sua mente distorcida, ele guarda a faca dentro da calça, quando percebe que Manoel, apressa os passos, ele vai atrás dele como um predador, ficando novamente ao seu lado, e em tom monstruoso diz de forma baixa em seu ouvido: — Mais uma dessas, rasgo seu estômago, acha que estou brincando seu merda? Para demostra que estava falando sério, puxou a faca, e discretamente encostou a lâmina fria contra sua costela, chegando a perfurar o tecido adiposo, uma gota escarlate surgi e toca a ponta da faca, sentindo o ardor e o aço gélido, perfurando sua pele, seu desespero escorreu pelo seu rosto, rapidamente enxugou e continuou caminhando com seu algoz, não tentou nada, pois saberia que ele poderia matar em segundos. Caminharam por minutos, até chegarem ao um beco sombrio e longo, onde ninguém passava lá pois era conhecido por ser um ponto de vendas de drogas, porém nesta noite não havia ninguém.

— O que estamos fazendo aqui? Perguntei quase sussurrando com corpo tremendo, eu sabia que iria morrer, porém não quis pensar nessas possibilidade, ele me ignorou completamente, aquele beco me causa calafrios, ele é iluminado apenas pela penumbra emitida dos poucos postes enferrujados, havia resquícios de drogas, alguns cachimbos espalhados ao longo do caminho, havia também garrafas de bebidas quebradas espalhadas, o odor daquele local era insuportável, além do esgoto que expelia aquele odor peculiar pelos buracos da tampa, havia um cheiro extremamente forte de fezes e urina, devido há alguns usuários de drogas, que faziam suas necessidades ali mesmo, acumulando excrementos, tornando o ar claustrofóbico, ainda havia um forte cheiro de álcool.

Até que ele mandou parar, o desespero jorrava dos meus olhos, quero gritar, porém o medo apertava minha garganta, causando falta de ar, aterrorizado, fecho meus olhos, então ele pede para eu ficar de frente para ele, obedeço, com a voz calma ele me pede para tirar a camisa, abro botão por botão, com camisa aberta, ele desliza a lâmina gélida pelo meu corpo, estremeço, ele perceber que estou amedrontado, então fala no meu ouvido: — Assim que eu gosto! E começa a se masturbar, não tenho nenhuma reação, novamente ele me tortura deslizando a lâmina no meu tórax, ele exige que eu permaneça de olhos abertos, ele quer saborear cada lágrima de pânico, como numa autópsia, ele eleva a lâmina a altura do pescoço e desce rasgando minha pele verticalmente, um grito emergiu das profundezas das minhas entranhas, ao mesmo tempo ele se deliciava com meu sangue quente em suas mãos, enquanto ele me rasgava lembrei também das palavras da minha mãe, filho não saia, enquanto perdia a consciência e caia de joelhos, a última imagem antes de morrer foi, que ele estava tirando a cueca.