-São Paulo, 18 de Agosto de 2019.

Era madrugada na imensa cidade, um frio de 8 graus naquele inverno e Erick, como se não sentisse absolutamente nada, observa a rua da sacada de seu apartamento no 10º andar, vestindo apenas uma samba canção e bebendo whisky puro.

Erick mora sozinho no luxuoso apartamento, com tudo extremamente organizado e limpo e costuma passar todo o tempo nele, até mesmo na hora de trabalhar, já que trabalha em casa, com desenvolvimento de apps e softwares para grandes empresas. Quando o projeto é muito grande, Erick costuma terceirizar partes do trabalho, e mesmo que isso seja menos rentável, proporciona qualidade e isenta do envolvimento fixo com outras pessoas.

O trabalho lhe rende um bom dinheiro, paga facilmente suas contas e mantém um alto padrão de vida.

Porém, algo ainda gera insatisfação, falta algo para que ele se sinta bem e, por essa razão, acaba perdendo o sono por diversas madrugadas. Procura ler livros, algumas poucas vezes de ficção, o único escape da realidade, mas o que lhe prende mesmo são livros de anatomia humana, psicologia, neurociência e análises comportamentais. Para Erick, o ser humano é uma máquina biológica fascinante... Auto sustentável, regida por emoções e pouca pré-disposição a desenvolver raciocínio lógico. Ser mais racional do que emocional, na sociedade atual, é geralmente visto com estranheza. Adquirir o hábito de aproveitar de sua própria companhia, de desenvolver os próprios pensamentos, conversar consigo, analisar a vida e as pessoas, é algo peculiar demais para ser explicado para pessoas fúteis. Por essa razão, Erick preferia estar sempre sozinho.

Ao terminar sua bebida, ele entra de volta no apartamento, vai até a cozinha e lava o copo usado. Após secar e guardar, deita no sofá da sala. Não estava muito longe de amanhecer, Erick adormeceu por ali mesmo.

Pela manhã, ao acordar, ele se senta, checa os e-mails pelo celular para ver se há algum trabalho e, ao ver que tudo corria normalmente, segue para a rotina habitual: uma vitamina rica em proteínas e algumas frutas para comer.

Erick gostava de se manter em forma e tinha regras rígidas quanto à sua alimentação e treinava religiosamente todos, os dias, na academia do prédio, sempre pela manhã, salvo em dias que o trabalho fosse urgente.

Após o café, vestiu-se e desceu.

Geralmente, não havia ninguém na academia pela manhã, isso era perfeito.

Porém, neste dia, surgiu uma moça, muito bonita inclusive, mas mesmo assim não chamou a atenção dele, provocou apenas irritabilidade em Erick, que não esperava que mais alguém fosse até lá.

Isso o fez terminar mais rapidamente e subir de volta para o seu apartamento.

Ao chegar, tomou um banho, checou novamente sua caixa de e-mail e havia uma solicitação de orçamento.

Erick se sentou em sua mesa no escritório e respondeu ao e-mail com total profissionalismo. Após isso, deixou seu computador ligado e saiu do escritório. Mais uma vez, serviu para si uma dose de whisky e foi até a varanda olhar a rua. Entre pequenos goles olhando para baixo, Erick notou que lá estava novamente a moça, neste momento ele a notou e, por um instante, sentiu vontade de sair de seu apartamento para ter algum tipo de contato interpessoal.

-São Paulo, 03 de Setembro de 2019.

Após alguns dias seguindo a mesma rotina, Erick já havia começado a flertar com a moça através de olhares. À essa altura, já havia descoberto que seu nome é Lívia e que ela mora no 9º andar com a vista oposta à sua, ou seja, para o outro lado do prédio.

Havia também uma outra mulher que morava com ela, mas ele não sabia dizer o que esta é de Lívia; provavelmente mãe ou tia.

Erick descobriu tudo ao entrar junto com Lívia no elevador, ainda sem puxar assunto, apenas trocando olhares e sorrisos sugestivos.

Ele a viu descer no nono por mais de 3 vezes, então concluiu que fosse o andar dela. Após isso, foi até a área de correspondências do prédio e pegou as correspondências de todo o nono andar, e quando a encontrou de novo, disse que havia pego por engano cartas no nono e perguntou se era o andar dela. Quando ela confirmou, perguntou se podia levar até ela. Lívia com certeza afirmou que sim, aparentemente ela também estava interessada em Erick.

Erick então seguiu de elevador, demorou cerca de 5 minutos antes de descer e desceu de escadas, Lívia ainda estava no hall. Ele se aproximou com as correspondências como um maço de baralho aberto e a perguntou se alguma era dela, no momento em que ela instintivamente pegou uma de suas cartas, ele então descobriu seu nome e o número do apartamento. Lívia agradeceu, e sem se apresentar, Erick diz que irá levar as demais de volta para a área de correspondências, mas Lívia diz que podia entregar para seus vizinhos. Erick então assente e vai embora e novamente utiliza as escadas.

Depois de tudo isso, ele ainda checou as correspondências duas vezes e notou que no apartamento de Lívia também chegavam correspondências em nome de Luzia, bastava agora confirmação. Chegou a fuçar algumas outras correspondências alheias também, a fim de saber mais sobre outras pessoas.

Seguindo novamente sua rotina, ele vai até a academia do prédio e, pouco depois, como se fosse um encontro diário, surge Lívia. Os dois se olham e sorriem um para o outro, fazem seus treinos normalmente e, quando acabam, seguem para o elevador. Erick então puxa assunto da forma mais sutil possível, perguntando se por acaso ela não pegou correspondências dele para dar o troco pela confusão, em seguida ri tentando parecer simpático.

Ela diz que não está com nenhuma diferente e que mesmo se estivesse, não saberia dizer, já que não sabe o nome dele.

Erick ri novamente e mente dizendo que seu nome é Roger, Lívia então assente e se apresenta também. Em seguida Erick diz que já sabia, pois havia perguntado para o porteiro sobre ela.

A expressão de Lívia mostrou certa estranheza ao saber, mas, ao mesmo tempo, pareceu gostar, afinal, quem buscar informações sobre você só pode ser por interesse.

-São Paulo, 09 de Setembro de 2019.

Erick e Lívia passaram a conversar todos os dias, sempre na academia e depois no elevador, nada além disso. Havia interesse mútuo à essa altura, mas ambos não se manifestavam em nada.

Neste dia, Ao chegar no hall do elevador, Erick disse que subiria de escadas, seria a partir de agora seu último exercício diário, e convidou Lívia para subir junto. Ela obviamente fez cara de desânimo, afinal eram 9 andares, mas ele insistiu, e sem relutar demais,ela aceitou.

Ao chegar no nono, Erick a parabenizou, e Lívia, ofegante,perguntou o que ela ganharia depois de fazer a proeza de subir todos aqueles lances de escada. Erick disse que não era nada demais, já que ele ainda subiria mais 8 andares... Ela ficou surpresa, afinal não sabia onde ele morava, e nesse momento de silêncio, Erick a segurou pela cintura e finalmente a beijou. Obviamente foi correspondido com intensidade, exatamente como esperava.

Lívia decidiu tomar uma iniciativa mais longe e perguntou por que eles então não subiam juntos mais 8 andares. Erick disse que seria perfeito, mas ainda não era a hora, já que lá estavam a sua mãe doente e cadeirante e a enfermeira de sua mãe 24h com ela.

Lívia pediu desculpas e disse que não imaginava já que nunca o viu com ninguém, e ele diz que não havia como ela saber e perguntou por que então eles não poderiam ficar na casa dela, mas Lívia disse que sua mãe também estava lá e não havia como.

Então ela sugeriu que eles saíssem um pouco.

Erick disse que não bebia e estava com um longo projeto em um escritório, geralmente só estava em casa pelas manhãs, por isso só se viam naquela hora e provavelmente estaria livre em dois meses.

Lívia assentiu e disse então que sua mãe estava lá, porém não estava todos os dias a essa hora, afinal, em seu trabalho havia reuniões de negócios algumas vezes e geralmente tomavam o dia todo.

Erick levantou uma sobrancelha sugestivamente, e Lívia terminou dizendo que sua mãe teria uma reunião em três semanas. Ele então disse que poderiam ficar juntos nesse dia de manhã.

Lívia concordou, e eles se despediram, mas assim que ele se virou, ela perguntou se ele não iria passar o número dele. Erick disse que bem que gostaria, mas havia sido roubado há uma semana e não havia encontrado tempo para comprar outro celular, tinha apenas um corporativo, mas achava uma conduta antiprofissional passar este. Lívia disse que ele devia cuidar logo disso e em seguida saiu expressando satisfação pelo que havia acontecido.

Assim que ela saiu, Erick rapidamente desceu de novo todas as escadas e, no térreo, pegou o elevador para subir.

-São Paulo, 30 de Setembro de 2019.

Erick e Lívia seguiram todos os dias a mesma rotina e se beijavam nas escadas, como se fossem dois adolescentes, mas até então, tudo parecia totalmente consensual.

Erick todos os dias fezia a mesma coisa: subia até o nono de escadas com Lívia, viviam seu romance, e quando ela saía, ele descia novamente as escadas e subia de volta pelo elevador.

Chegou então o dia, e Erick subiu de escadas com Lívia, chegaram ao nono e eles entraram.

Estavam totalmente sozinhos...

Erick disse que não tinha muito tempo, então Lívia não ficou de cerimônias, começou a beijar Erick o levando para o quarto e logo foi tirando as roupas, afinal ela estava esperando muito por isso. Erick também, sem cerimônias, a virou de costas, passou a mão levemente por sua silhueta, tirou sua camisa, enrolou no punho direito e a socou na nuca com muita força, o que fez Lívia desmaiar instantaneamente sobre a cama, de bruços.

Enquanto Lívia estava desmaiada, Erick a amarrou na cama, ainda despida, amordaçou sua boca e a esperou acordar.

Lívia acordou desnorteada, Erick subiu por cima dela e ficou olhando-a fixamente sem dizer nada. Lívia, quando tomou consciência, começou a chorar e gritar, mas os gritos eram abafados pelas mordaças.

Erick, sem hesitar, colocou sua camisa sobre o pescoço de Lívia e começou a apertar, com muita força para dentro. Lívia, com os olhos arregalados, ficando roxa, e Erick pressionando cada vez mais, até que acontece o tranco para baixo... A traqueia de Lívia afundou.

Erick saiu de cima, retirou a camisa começou a limpar os móveis do quarto removendo quaisquer resquícios de digitais dele, enquanto Lívia agonizava em asfixia, sufocando lentamente até a morte.

Erick saiu do quarto, vestiu sua camisa, saiu do apartamento de Lívia e desceu novamente as escadas. Chegando no térreo, entrou no elevador e subiu de volta para o seu apartamento. Tomou um banho, respondeu alguns clientes, encheu seu costumeiro copo de whisky e se sentou no sofá. Passou o dia ali e, ao entardecer, ouviu gritos incessantes. Minutos depois, viu as luzes do giroflex da polícia entrando no prédio, encheu novamente seu copo e foi até a varanda para olhar.

Viu o corpo de Lívia ser levado, respirou fundo, aquele ar ainda frio, apesar de já ser primavera, tomou de uma vez um gole grande e entrou.

A polícia passou a investigar o crime, descobriram que Lívia trocou mensagens com uma amiga e que falou sobre um homem chamado Roger que morava no 17º andar, disse sobre o romance que estavam tendo, disse sobre a mãe dele ser doente e também falou sobre se encontrar com ele justamente no dia do assassinato.

Dias depois, Roger, que de fato morava no 17º andar, foi preso, levado aos prantos em desespero. Roger ocupava alto cargo na empresa em que trabalhava, portanto, saía para o trabalho na hora que fosse mais conveniente e chegava por volta do horário do almoço todos os dias. Seu único álibi era a palavra da enfermeira, o que obviamente não foi o suficiente, e a enfermeira foi colocada sob suspeita de envolvimento no crime.

As câmeras de segurança foram vistas e notaram um curto envolvimento com Erick, mas havia dias que Lívia não era vista nas câmeras do elevador e Erick todos os dias subia pelo elevador, mesmo estando sozinho. Então Erick foi retirado das suspeitas.