Cheguei ao consultório médico uma hora antes do horário agendado. Naquele dia o trânsito estava, estranhamente, fluindo bem na cidade.

Para não ficar sentado na sala de espera, lendo revistas antigas, resolvi tomar algo no bar em frente ao consultório.

— Por favor, uma dose de conhaque.

Teria que tomá-lo devagar, pois seria só uma dose, afinal não poderia ir à consulta alto.

O tempo demorava a passar e comecei a sentir aquela tontura diária, motivo da minha visita ao médico.

— O senhor não quer comer algo? — perguntou-me o balconista.

— Não, obrigado.

Suguei a última gota do copo, paguei a conta e atravessei a rua.

Entrei no prédio, peguei o elevador, 8° andar, sala 85, clínico geral.

Na recepção uma moça com não mais que 25 anos me atendeu.

— Boa tarde. Tenho uma consulta às dezoito horas.

— Por favor, carteirinha do convênio e R.G.

Entreguei tudo o que me foi pedido e fiquei aguardando na sala de espera.

Além de mim, um senhor, já com seus setenta anos, estava ali, sentado à minha frente, de pernas cruzadas, resolvendo, pelo que percebi, palavras-cruzadas.

— Boa tarde.

Não obtive resposta. Aliás, minha presença nem sequer foi percebida por ele.

Pus-me a observar o local. Como imaginei, uma mesa de canto detinha uma série de revistas antigas já gastas e amassadas pelo uso.

— País africano... sete letras. Primeira letra, A.

Olhei para o idoso e ele me fitava.

— O senhor sabe?

Lembrei-me do jogo WAR, motivo de muitas desavenças na adolescência.

— Argélia? — respondi.

— Espere um pouco... isso!

A recepcionista o chama.

— Senhor Ataíde, seu pedido de exames está pronto.

O idoso se levantou e passou do meu lado comentando e sorrindo:

— Quem diria, Argélia!

Pegou o seu pedido e foi-se embora ainda lendo as palavras-cruzadas.

Eu fiquei sozinho na sala de espera. Após cinco minutos a recepcionista me chama:

— Senhor Paulo, pode entrar. O doutor Caio vai atendê-lo.

Levantei-me e segui o trajeto até o consultório. Sentei-me em uma das duas poltronas de veludo vermelho em frente à mesa do médico. Ouvia-se música clássica em volume bem discreto.

Senti novamente aquela tontura e uma pontada no lado direito do abdômen. Nesse momento escutei uma descarga de vaso sanitário e após alguns segundos o barulho de água corrente. Uma porta se abriu e um senhor de cabelos grisalhos sorriu para mim.

— Boa tarde. Esperou muito tempo?

— Cheguei muito cedo... — disse, rindo.

— E nesse período tomou quantas doses? — disse, sentando-se na cadeira.

— Como sabe que bebi? — perguntei intrigado.

— O odor que vem de você o denuncia...

Discretamente tentei sentir esse odor em mim.

— Há quanto tempo você bebe, Paulo?

— Desde os quinze anos.

— O que anda sentindo?

— Náuseas, tontura, emagreci bastante e uma dor do lado direito, aqui...

Ele fez um comentário que eu ainda não notara em mim.

— Já percebeu que os seus olhos estão levemente amarelados? Você sabia que provavelmente está com cirrose?

— O que é isso?

— Seu fígado está doente por causa dos anos de alcoolismo. Vamos ver a extensão dos danos com um ultrassom e exames complementares.

— Isso tem cura?

— Talvez. Deite na maca e levante a camisa.

Ele ligou o aparelho de ultrassom e me examinou.

Suspirando, pediu-me para levantar.

— A imagem dele não está nada boa. Vou encaminhá-lo para um especialista de minha confiança e gostaria que você o visse o quanto antes.

— Corro risco de morte, doutor?

— Não posso afirmar isso. Este é o cartão dele. Procure-o ainda esta semana. Vou passar o seu caso e faça os exames.

Peguei o cartão sem olhar o seu conteúdo e coloquei-o no bolso da camisa.

Fui para casa pensando no que eu tinha feito, comigo mesmo, durante todos esses anos.

Entrei no meu apartamento e como de costume fui direto ao bar preparar uma bebida.

Quando ia tomá-la, parei por alguns segundos. Tirei o cartão do médico do bolso e li: Dr. Lucio Fernandez Luz — Médico.

Sentei-me no braço do sofá e pelo celular liguei para o telefone do cartão.

— Clínica Luz, boa noite.

— Eu quero marcar uma consulta com o doutor Lucio, por favor. Quem me encaminhou foi o doutor Caio.

— Ah, sim, temos hora para amanhã às 23h.

— Nossa, tão tarde?

— São muitos pacientes, senhor.

— Ok. Vocês aceitam convênio?

— Dos pacientes que o doutor Caio encaminha não cobramos a consulta.

— Sério?! Ok, então amanhã às 23h.

Desliguei o telefone e empunhei a bebida. No final da terceira dose, pensei em comer algo. Fui até a geladeira e, após uma rápida olhadela, nada me atraiu. Fui dormir.

No dia seguinte, no escritório, senti enjoo e novamente pontadas no fígado.

— Paulo, está tudo bem? Faz tempo que noto que você anda abatido.

Quem perguntava era Sérgio o meu colega mais antigo de trabalho.

— Parece que tenho um probleminha no fígado. Vou ao médico hoje.

— Você bebe muito. Já te alertei sobre isso.

No final do expediente juntei minhas coisas e resolvi fazer hora pela rua até o horário da consulta. Jantei em um bar, observando o movimento da avenida perto do prédio onde eu trabalhava.

Às 22h paguei a conta e fui ao estacionamento buscar o meu carro.

Cheguei ao consultório com quinze minutos de antecedência.

A recepcionista, extremamente sorridente, me deu as boas-vindas.

— Boa noite, senhor Paulo. Fique à vontade que o doutor Lúcio já vai lhe atender. Aproveite para tomar um café ou chá.

O consultório do doutor Lúcio era muito mais sofisticado que o anterior. Poltronas de couro preto, quadros espalhados por uma vasta sala de espera, uma enorme TV de LCD sintonizada, naquele momento, em um programa religioso.

Sentei-me e peguei uma revista, pasmem, atual. Porém, não tive muito tempo para folheá-la.

— Pode entrar, senhor Paulo.

Ao entrar na sala de consulta, um jovem, esbelto, de jaleco e gravata me recebeu com um vasto sorriso.

— Olá, Paulo, muito prazer!

— O Caio me ligou e explicou o seu problema. Sente-se.

Sentei-me em uma poltrona defronte a uma escrivaninha de madeira, toda entalhada. Sobre ela, apenas um notebook.

— Tenho salvação, doutor?

— Você quer ser salvo?

— Sim.

— Ótimo escutar isso! Parece que o vício do álcool estragou bem a sua saúde. Os seus sintomas são típicos de cirrose hepática. Mas acho que podemos reverter isso.

Ele olhou o ultrassom e enquanto lia o laudo eu perguntei:

— O que tenho que fazer?

Devolveu-me o exame e respondeu:

— Existe um tratamento, desenvolvido por mim, simples, sem dor ou efeitos colaterais, porém exige dedicação e disciplina ao extremo sem questionamentos. Será pelo resto da sua vida. Vários pacientes já o usaram satisfatoriamente e os resultados positivos já aparecem na primeira semana.

— Estou disposto e pronto para isso. Acho que não tenho muitas opções.

— Ótimo! Primeiro vou lhe explicar detalhadamente o que deverá fazer a partir de amanhã e aí sim você vai me confirmar a sua aceitação mediante a assinatura de um contrato de prestação de serviços.

— Sou todo ouvidos, doutor. Ah, e esses exames complementares?

— Não serão necessários e não mudarão a minha conduta. Uma equipe minha irá até a sua casa ainda hoje e instalará em um dos cômodos um dispositivo desenvolvido por mim que liberará, diariamente, às 3h15, um comprimido que deverá ser ingerido com um copo de água. A partir do momento que você tomar o primeiro, não poderá parar mais.

Fiquei alguns segundos perplexo com esse tratamento, mas pedi para continuar.

— O tratamento não pode ser interrompido de forma nenhuma. Qualquer comprimido que não seja tomado exatamente após liberado, às 3h15, se deteriorará imediatamente e não poderá ser reposto. O tratamento se perde, mesmo que isso aconteça daqui a cinco ou dez anos. A notícia boa é que você não precisa parar de beber.

— Sério? Doutor, esse dispositivo é móvel? Posso viajar e levá-lo comigo?

— Infelizmente não. Ele será devidamente fixado na parede do cômodo e não poderá ser movido depois de acionado. Ele é extremamente delicado e suscetível a erros por movimentos. Aliás, nem mudar de residência você poderá.

— Estou meio confuso. Serei prisioneiro do dispositivo?

— Ora, Paulo! Antes um prisioneiro condenado à prisão perpétua do que à morte. Então, está de acordo com as condições?

— Só mais uma pergunta. Qual o custo disso?

— Me pagará no devido tempo, após o resultado final.

Então, ele tirou uma pasta de baixo da sua mesa e pegou o contrato já devidamente elaborado.

— É esse o contrato?

— Sim, pode lê-lo.

— Melhor resolvermos isso logo. Tem uma caneta?

Fui até a última página do contrato e assinei-o.

— Excelente decisão, Paulo! Parabéns!

Ele olhava para o contrato assinado como uma criança olha para um doce.

— Agora vá para casa e aguarde.

Ao chegar em casa, na porta do prédio, vi duas pessoas de macacão branco, com uma caixa de papelão não maior que um forno de micro-ondas.

— Senhor Paulo?

— Pois não? — respondi receoso.

— Viemos instalar o dispositivo da clínica Luz.

— Mas agora? E o barulho? Está tarde...

— A instalação não fará barulho algum. Fique tranquilo.

Subimos para o meu apartamento e fomos para a cozinha, lugar onde eles acharam mais apropriado para a instalação.

Abriram a caixa e, de dentro de um invólucro de isopor, tiraram um cubo branco, metálico, com uns trinta centímetros de altura e largura. Na frente, um relógio digital, já funcionando. Logo abaixo do mostrador, duas luzes, uma vermelha e outra verde. Abaixo das luzes, um orifício por onde provavelmente sairia o comprimido e cairia num recipiente de plástico transparente. Em um dos lados do cubo, uma entrada para uma chave. O cubo era hermeticamente fechado. Não tinha acesso por nenhum dos lados.

Fixaram o mesmo na parede através de fitas dupla face. Um dos rapazes sacou do bolso uma chave e girou-a na lateral do cubo. A luz verde se acendeu.

— Pronto, senhor Paulo. Está tudo em ordem. Boa noite.

Fiquei observando aquele dispositivo por algum tempo e decidi tomar um trago até a primeira dose do remédio. Afinal, eu estava liberado para beber!

Assisti à TV acompanhado do meu uísque, durante mais duas horas, quando escutei um sinal sonoro vindo da cozinha.

Meio tonto por conta da bebida, fui para a cozinha e a luz verde piscava. Olhei mais de perto e vi um comprimido dentro do recipiente plástico. Peguei o comprimido que mais parecia uma aspirina e tomei-o com um gole de água.

Às 3h16 a luz verde parou de piscar e ficou fixa.

Fui dormir.

Às 7h30 levantei-me e, pela primeira vez em muitos meses, acordei faminto.

A caminho da repartição parei no bar de costume e tomei meu conhaque matinal com um belíssimo misto-quente. Pedi outro para viagem.

Na repartição, às dez horas, comi o segundo misto-quente e ao meio-dia fui almoçar em uma churrascaria.

Com o passar das semanas eu ganhei oito quilos e as tonturas e dores passaram. Eu, também, estava bebendo mais. Muito mais. As minhas saídas noturnas tinham se tornado diárias, mas sempre colocava o despertador do relógio de pulso para não esquecer do comprimido.

Certa vez, por acaso, eu não havia saído de casa devido a uma tempestade de verão. Fiquei assistindo à TV e dormi na poltrona. O meu relógio tocou às 2h45, levantei e tomei uma cerveja sentado em um banquinho na cozinha, em frente ao dispositivo, observando o dispositivo e esperando o tempo restante.

Quando o digital marcou 3h05, a luz verde apagou e se acendeu a vermelha, piscante. Eu sabia que algo estava errado, mas não sabia o que era. E se o comprimido não saísse? Dei leves batidas no dispositivo, mas não adiantou. Às 3h10 eu estava desesperado. Nisso o interfone toca. Atendi de olhos fixos na luz vermelha.

— Senhor Paulo, somos da clínica do doutor Luz. Viemos fazer a manutenção do dispositivo.

— Subam, agora!

Deixei a porta aberta. Não havia tempo a perder, já eram 3h12.

— Boa noite, senhor Paulo. Com licença.

Eram os mesmos dois que tinham vindo à primeira vez. Adentraram a cozinha e de dentro de uma mochila retiraram uma caixinha preta com uma antena. Colocaram essa caixa em cima do dispositivo e nesse momento uma luz vermelha também se acendeu na caixinha. Os dois apenas observavam, e eu olhava aflito o relógio: 3h14.

Alguns segundos antes das 3h15 a luz vermelha da caixinha preta apagou e acendeu uma verde. Logo em seguida o dispositivo fez a mesma coisa e alguns segundos depois, exatamente às 3h15, o dispositivo liberou o comprimido. Tomei-o rapidamente.

Ao virar-me para agradecer, os dois já não estavam mais ali. Fiquei pensando como eles sabiam do problema ocorrido e como chegaram tão rápido. Mas, lembrando-me das recomendações do doutor Lucio, nada de perguntas.

Uma vez por mês a manutenção ia à minha casa e colocava aquela caixinha preta em cima do dispositivo. Todo dia seis às três da manhã. Nessa data eu os deixava na cozinha e ia para a sala. Quando voltava, já não havia mais ninguém e o dispositivo funcionava corretamente. Não tive mais problemas com ele.

E se passaram os meses e eu já havia virado um boêmio. Só evitava beber no trabalho, mas após o serviço as noitadas eram inevitáveis. Várias vezes quase perdi a hora do remédio, mesmo com o meu relógio avisando.

No final do ano, os meus colegas estavam combinando uma comemoração em uma boate. Só para os homens. Todos inventariam uma desculpa em casa. Isso aconteceria no dia 22 de dezembro.

Nesse dia fui trabalhar de carro. Após o expediente nos reunimos no bar embaixo do escritório. Às 22h fomos para a boate. No meu carro poderiam ir mais três pessoas. Quando sentei no volante, Sérgio segurou meu braço.

— Eu vou guiando.

Não discuti.

Na boate bebi mais do que nunca e acabei praticamente desmaiado em um canto.

Quando despertei, alguns colegas estavam dormindo e outros já não estavam mais no local.

Olhei no relógio, eram 02h55. Eu tinha que chegar em casa o mais rápido possível. O relógio tocou e eu não escutei.

Saí cambaleando, paguei a minha conta e fui até o meu carro, correndo, tropeçando e esbarrando em todos e tudo à minha frente.

Passei por uma mendiga, que estava sentada na calçada revirando um saco de lixo. Ela fitou-me ao passar por ela e disse:

— Tu tá condenado!

Cheguei ao carro às três horas. Saí em alta velocidade.

Tem que dar tempo.

O relógio marcava 3h05.

Na rua em que eu trafegava havia uma blitz da polícia, mas eu não podia parar. Acelerei mais. Cruzei o bloqueio em alta velocidade e pelo retrovisor vi que dois policiais, de moto, já estavam atrás de mim.

A embriaguez havia reduzido os meus reflexos e estava difícil controlar o carro. Em um cruzamento, passei o sinal fechado e outro veículo cruzou à minha frente. Joguei o carro para o lado e nesta manobra perdi o controle e bati de frente em um poste. Perdi os sentidos.

Acordei em uma maca no consultório do doutor Lúcio, que calmamente jogava paciência em seu laptop. Ao ver que eu acordei, veio até mim vagarosamente, sorridente.

— Olá, Paulo. Dormiu bastante...

— Como vim parar aqui?

— O meu pessoal da manutenção te trouxe.

— Eu estou bem, doutor? Tive muitos ferimentos? Lembro-me até a batida.

— Você está ótimo. Levante e veja por si mesmo!

— Acho que a batida não foi tão forte.

— Foi sim, Paulo. Muito forte. Você não iria querer ver como seu corpo ficou, ainda mais que você estava sem cinto de segurança...

— Mas eu estou vendo! Tudo inteiro!

— Estou falando do seu corpo, Paulo, a sua carcaça!

Nisso ele apertou uma tecla no laptop que abriu uma tela onde passava uma reportagem de TV que mostrava um acidente de carro com uma vítima fatal na madrugada do dia 23 de dezembro.

— Mas é o meu carro...

Ainda não entendia o que estava acontecendo, mas o doutor Lúcio, aos poucos, de modo sádico, ia me revelando.

— Você leu o contrato que assinou comigo?

— Não... O que tinha nele?

— A salvação da sua vida, desde que você seguisse rigorosamente o tratamento.

— Eu segui!

— Você tomou o remédio às 3h15 do dia 23 de dezembro?

— Mas eu sofri o acidente!

— Você tomou? — ele repetiu.

— Não.

— Muito bem, Paulo, cláusula terceira do contrato: Caso o contratante não siga à risca o tratamento, em horários e dias acordados, acarretará o que segue abaixo: parágrafo único — Retirada incondicional do seu bem mais precioso, que passará a ser de propriedade do doutor Lúcio Fernandes Luz. Você concordou e assinou, Paulo!

— Meu bem mais precioso? Não tenho nada que te interesse.

Ele sorriu maleficamente e apontou o seu dedo indicador da mão esquerda em minha direção.

— Tem sim, Paulo. A sua alma! Você a entregou para mim, de livre e espontânea vontade!

— Lúcio Fernandes... como não percebi?! Lúcifer...

Uma lágrima correu dos meus olhos.

— Não chore, Paulo. Vamos tomar um trago para comemorar. Afinal, o tratamento acabou dando certo. Você já pode beber à vontade! — e riu.