Sim, eu a conheci quando tinha apenas 12 anos de idade, mas para mim não importava se ela era dois anos mais velha, seu olhar, seu jeito, sua voz, carisma, tudo isso me conquistou e fez dela meu primeiro e único amor, quem eu queria para compartilhar uma vida, ter filhos e viver ao lado até envelhecer. Sei que você deve está pensando agora que isso seria apenas uma paixão de adolescente, algo passageiro que logo iria acabar, foi o que ouvi dos meus pais por um tempo, mas aqui estamos, e depois de 30 anos de convivência, ainda a amo como na primeira vez.

Bom, desculpa não ter me apresentado, meu nome é August e ela se chama Bella. Moramos em Quebec, ao norte do Canadá e vivemos uma vida tranquila aqui, gostamos de toda essa paisagem rústica que o local nos traz, sem muitos luxos, apenas com o que conseguimos comprar, e isso já é mais que o suficiente, mas eu sei que você não veio até aqui ouvir uma história de um grande amor, sei que veio atrás de algo um pouco mais estranho, pois bem.

Quando começamos a namorar, depois de seis anos, foi tudo mil maravilhas. Eu tinha 18 e Bella havia acabado de completar seus 20 anos quando finalmente fiz o tão esperado pedido. Ainda éramos jovens demais para firmar um relacionamento, por isso esperamos esses seis anos. Estudei, me formei e consegui meu primeiro emprego já com 16 anos, esperei me estabilizar bem e, quando vi que já tinha condições de fazer e dar coisas boas para ela, fui e a pedi em namoro.

Ela aceitou e disse que também estava esperando por mim. Foi o melhor dia da minha vida. Pude finalmente beijá-la, sentir seu carinho e fazer tudo que sempre sonhei desde que a conheci. Nosso namoro durou cerca de cinco anos, então decidimos oficializar toda nossa história.

Fizemos um noivado somente com amigos mais chegados e parentes. Assim que terminou, seu pai, Albert, me chamou e disse que precisava conversar comigo sobre uma coisa antes que resolvesse casar com Bella. Fiquei apreensivo obviamente, mas curioso também. Entrei no quarto de sua casa com ele e lá estava também Vivian, mãe de Bella. Eles me pediram para sentar e assim eu fiz.

“August, Bella tem um tipo de transtorno que a deixa digamos, estranha, durante a noite.” A senhora Vivian disse olhando para mim e apertando as mãos. Isso veio como um baque para mim. Nunca havia dormido com ela antes em nenhum momento, então seria óbvio que ficaria surpreso com isso.

“Ela se comporta de um jeito completamente diferente, e precisamos que você faça uma coisa já que não podemos mais, afinal, será você o marido dela agora.” O senhor Albert disse olhando para mim. Essa conversa estava me deixando nervoso e assustado, não ao ponto de desistir do casamento e do amor da minha vida, pois faria de tudo por ela.

“Não estamos falando isso para que você desista do casamento, mas que você saiba disso antes que seja tarde.” Ele disse olhando para sua esposa. Estava disposto a tudo, não importasse o que pudesse fazer para isso. “Bella tem alguns ataques estranhos e fica muito agressiva quando chega à noite. Já a levamos para todos os médicos possíveis, já foram feitos vários exames e internações, mas nunca nada foi descoberto, nem a causa nem a cura. Quando vocês passaram um ano sem se ver, ela não estava viajando como dissemos, ela estava internada para tratar esse transtorno que ela tem, mas não adiantou. De dia ela é uma pessoa amorosa, gentil, educada como já a conhece, mas quando chega a noite, isso se transforma e ela se torna um alguém totalmente diferente. Você precisa mantê-la amarrada durante a noite, só assim para acalmá-la um pouco. Por favor, nos prometa que irá cuidar dela!”.

A essa altura eu já estava em choque não acreditando no que estava ouvindo, mas era tudo verdade. Eles me mostraram vários laudos médicos, remédios, receituários, tudo que ela havia passado e realmente, nada deu jeito. Iria casar com a mulher dos meus sonhos, mas ela guardava esse segredo, mas não importava, eu queria viver com ela, queria construir minha vida ao seu lado.

Pois bem, casamos e fomos enfim morar juntos. Nossa noite de núpcias teve que ser adiada para o outro dia pela manhã. Foi a primeira vez que dormimos juntos e pude ver o demônio que morava dentro dela. Ela se debatia amarrada na cama, gritando e dizendo coisas horríveis, como se estivesse com algo controlando seu corpo. Fiquei aterrorizado com aquela cena. Assim que amanheceu, ela estava calma e era a minha Bella novamente. Fizemos amor a manhã inteira e daquele dia em diante, eu iria fazer tudo por ela.

Após quatro anos do nosso casamento, ela engravidou, e aqui foi onde meu pesadelo realmente chegou a seu estágio crítico. Fiquei muito feliz com a notícia de que iria ser pai, e misteriosamente, ela não teve mais seus ataques a noite, ela ainda ficava estranha, mas dessa vez ficava apenas sentada em uma cadeira no canto escuro do quarto com a cabeça baixa, apenas em silêncio. Isso foi algo tão bom para mim, pois não tinha que vê-la amarrada novamente.

Tudo estava tranquilo, mas, assim que ela deu à luz à Sophia, tudo novamente começou, mas dessa vez ainda mais forte. Sua força estava fora do comum, seus olhos começaram a ficar brancos, coisa que nunca havia acontecido antes. Eu a amarrava, mas por muitas das vezes ela se soltava e corria para o canto escuro do quarto gemendo e grunhindo como um animal. Em uma dessas noites, ela se soltou e correu para o quarto de Sophia, pegou-a no colo e começou a comê-la, pedaço por pedaço. Quando cheguei no quarto, Bella estava mastigando os últimos pedaços de nossa filha, segurando apenas sua cabeça decepada em uma das mãos.

Em um ato de desespero, peguei a arma que guardava e apontei para ela, tinha que dar um fim nisso tudo, já não aguentava mais sofrer. Tremendo e chorando muito, engatilhei a arma e, quando estava pronto para atirar, Bella olhou para mim e pela primeira vez, ela falou comigo durante a noite. “Amor, o que está acontecendo? Meu Deus... O que eu fiz? Atira em mim August, me mata, eu não quero mais isso, eu matei nossa filha, me mata!”.

Eu iria matá-la, mas não consegui apertar o gatilho, não consegui tirar a vida da minha esposa, eu sei que ela não fez isso, eu sei que não foi ela que matou nossa filha. Não tivemos mais filhos desde então e preferimos não comentar sobre isso a ninguém, apenas seus pais sabem.

Ouvi a campainha tocar e fui atender, era o encanador, liguei para vir cuidar de um vazamento no porão. Assim que ele entrou, o levei até onde estava o problema, ele então desceu, mas algo o chamou atenção.

“Ei! Há algo se movendo aqui!” ele gritou.

“Eu realmente sinto muito, mas ela tem que se manter alimentada.” eu respondi, fechando a porta atrás dele.

Percebi que quando ela come carne humana, os transtornos sessam e tudo fica normal. Eu sei que é errado, mas Bella é tudo pra mim.