“- Entre Sr. Douglas, esse é o apartamento.” Disse a Sra. Carmem enquanto abria a porta e entrava na minha frente. Talvez estivesse apressado demais e poderia ir procurar outras opções de apartamentos, mas ela era uma senhora tão simpática e gentil que acabou ganhando um inquilino. Havia conseguido um trabalho próximo daquele bairro e esse apartamento iria vir a calhar com certeza.

Ela entrou e ficou à porta olhando o local ao redor. Bastante simpática, disse: “Irei buscar alguns biscoitos que deixei no forno, fique a vontade, eu não me demoro.” Fiquei pensando, talvez estivesse escolhido certo, não iria ter problemas aqui. Meu último senhorio não era lá aquelas gentilezas todas, estava sempre resmungando e não ajudava em muita coisa. Fiquei feliz por ter conseguido esse trabalho e poder sair de onde estava, claro recebo duas vezes mais do que no meu último emprego, mas nem se recebesse abaixo do que recebia já estava com planos de sair de lá, e tenho que admitir que a senhora Carmem é um amor de pessoa.

Ela aparenta ter seus 50, 60 anos, mas não está tão velha assim, pois goza saúde de deixar qualquer novinho de 20 exausto ao descer ou subir uma escada. Fui então olhar o apartamento enquanto ela descia as escadas indo direto ao seu apartamento. Não era um hotel de cinco estrelas, mas estava ótimo para mim, não ia dividi-lo com ninguém, então não precisava de um local tão grande. Estava feliz com minha escolha e tratei logo de acertar com ela toda a papelada de contrato e tudo mais.

Após termos acertado tudo e ter pago já o primeiro mês, tirei o final de semana para fazer minha mudança, afinal, já iria começar a trabalhar no novo emprego na segunda e não poderia me atrasar. Logo cedo já estava com o caminhão de mudança para levar as coisas para o apartamento. A senhora Carmem fez questão de me ajudar, não carregando as coisas, claro, ela já era idosa e não teria forças, mas ficou ali, ajudando com almoço, água e alguns lanches. Ela estava com certeza ganhando meu coração.

Enquanto carregava as coisas, fiquei conversando com ela. Seu marido faleceu há 10 anos vítima de um infarto. Ela contou que foi algo rápido, sem dar a chance dele sofrer, e isso foi bom, assim ele partiu sem sentir nada de ruim, apenas fechando os olhos e em segundos não mais abri-los. Desde então ela cuida do hotel sozinha, não teve filhos, foi uma escolha de ambos. Fiquei pensando do porque eles optarem por não ter filhos, afinal isso tudo teria que ficar para alguém assim que ela chegasse a morrer, mas claro, não entrei em detalhes.

Terminei de levar as coisas no finalzinho da tarde, no dia seguinte iria só arrumar e já estaria pronto para segunda, e foi o que fiz. Passei o domingo inteiro arrumando tudo e tentando deixar o mais a minha cara possível. Sou um pouco perfeccionista então teria que estar tudo impecável.

A segunda chegou e passou como um foguete, quando percebi já estava anoitecendo. Arrumei minhas coisas e saí do escritório pensando em relaxar depois de um ótimo banho, estava precisando. O primeiro dia de trabalho foi muito bom, conheci várias novas pessoas e já peguei a prática de todo o trabalho, estava feliz por minha vida estar entrando nos eixos agora.

Assim que cheguei ao meu apartamento, vi a senhora Carmem fazendo uma sopa e pelo cheiro estava deliciosa. Fiquei com vontade de ir até lá lhe fazer uma visita e perguntar se não estava precisando de algo, mas preferi não ser tão inoportuno assim e passei direto. Entrei e fui direto para o banho, queria descansar bem para mais um novo dia. Ouvi batidas leves na porta assim que terminei de me vestir, imaginei ser a senhora Carmem, afinal, quem iria vir aqui se havia acabado de me mudar.

Abri a porta e era ela mesma, com um sorriso meigo perguntou se eu não gostaria de tomar uma sopa com ela enquanto lhe fazia um pouco de companhia, não pensei duas vezes e aceitei, estava afim daquela sopa realmente. Descemos as escadas e fomos para seu apartamento. Tudo ali parecia novo e limpo, fiquei impressionado de como ela procurava deixar tudo limpo e arrumado. Minha avó também era assim e ela me faz lembrar muito dela.

“- Sente-se na mesa que já trago os pratos.” Ela disse enquanto caminhava para o armário. A panela de sopa estava sobre a mesa e um aroma agradável impregnava toda a cozinha me deixando com água na boca. “- Sirva-se querido.” Ela disse me dando um dos pratos em suas mãos. Peguei a concha e comecei a colocar no meu prato. O vapor com cheiro de legumes e carne entrava em minhas narinas me fazendo salivar. Sentei-me à mesa já desejando sentir o gosto daquela maravilha gastronômica.

As primeiras colheradas foram as que o deixaram apaixonado pela sopa dela. “- Está bom, querido?" ela perguntou sorrindo. “Está sim senhora Carmem. A senhora faz uma ótima sopa.” Respondi no intervalo das colheradas. Comecei a mastigar um pedaço do que achava ser legume, mas estava duro e amargo demais para ser. Coloquei meus dedos em minha boca com a intenção de tirar aquilo de estranho que estava lá. Assim que tirei, vi que era um dedo humano. Olhei para o prato e vi boiar dentro da sopa um olho.

Levantei da mesa assustado, deixando cair a cadeira onde estava sentado. A senhora Carmem correu e antes de conseguir gritar e pedir ajuda, ela saltou em cima de mim cravando uma faca em meu peito. Empurrando-me até a parede com uma força incomum, ela se ajoelhou ao meu lado e disse: “Gostei de você Douglas, mas preciso manter minha juventude, então a próxima sopa será você.”.

Antes de apagar de vez, vi quando ela foi ao seu quarto e pegou uma placa que dizia: “Aluga-se apartamentos.”.