Pela quarta vez, Felipe errou a senha do próprio smartphone. Agora, seus polegares impacientes teriam que esperar por mais alguns minutos. Ele largou o aparelho entre as almofadas, pulou do sofá e marchou até a geladeira. Ao voltar, com uma cerveja na mão, agarrou o celular e praguejou contra Jaqueline.

Será que ela mudou a configuração da Tela de Bloqueio? A têmpora de Felipe latejava com essa ideia. Respirou fundo e tomou um gole generoso. A cocaína o deixara agitado. Ligou a TV e passeou por vários canais. Não tinha mais uma assinatura da Playboy para aliviar a tensão.

Resolveu tentar de novo, com calma, ligando ponto por ponto, do jeitinho que se lembrava: linha do primeiro ponto da esquerda para o último de baixo, do mesmo lado; a segunda linha subia na diagonal até o meio; a terceira seguia na horizontal para direita...

E depois?

Felipe arriscou mais um movimento. Esse, ele tinha quase certeza. Mas faltava outro. Logo teria acesso ao seu aplicativo e uma galeria lotada de vídeos pornográficos. Só de pensar, metade de uma ereção ganhava vida.

Não, uma punheta não daria conta de acalmá-lo. Jaqueline já havia ultrapassado todos os limites. Agora, a solução seria chutar o balde: usar os serviços do Sem Calcinha, aplicativo recheado de opções para um adúltero se matar de prazer.

Ele deslizou o polegar na tela, riscando o último traço do desenho-chave. A foto do casal apareceu como um alerta que dizia: “Contenha-se com os vídeos!” Felipe apoiou a lata de cerveja na mesinha e desafivelou o cinto. Aumentou o volume da televisão e deu de ombros para o alerta, só então, abriu o portal do pecado.

O Sem Calcinha promovia encontros entre clientes e acompanhantes. Felipe já tinha um nome para digitar na lupa, uma indicação do Pai Zeca, um amigo virtual. E assim, pesquisou por Cibele, a roqueira cinco estrelas, com ótimos comentários e uma foto de arrancar pulsações doloridas.

Na imagem do perfil: uma gótica moderninha com piercings espalhados pelo rosto; a pele tão branca quanto uma vela de sete dias; a língua bifurcada saía dos lábios perfurados por argolas de aço cirúrgico; um biquíni vermelho num corpo esculpido pelo próprio Cão.

Na descrição do perfil: @CibeleSexy07, a Rainha das Sete Encruzilhadas. Adora uma amarração na Cruz de Santo André. 1,71 de altura. 69 quilos. 0% de puritanismo. 100% de Beijo Negro. Mora em Fortaleza, Ceará.

Felipe abaixou o zíper da calça e cumprimentou o garoto. Também viu alguns vídeos de Cibele, fazendo com que agulhas de tesão costurassem seus nervos. O balãozinho do chat atraía o seu polegar ocupado. Foi quando uma ligação cortou o gozo. Era Jaqueline. Ele atendeu, entre dúvidas e hesitações, na terceira chamada.

— O que você quer?

— Surgiu uma vaga de motorista aqui na loja e...

— Jaque, eu ainda estou no seguro!

— É, mas esse é o último mês. Tá pretendendo ficar em casa de bunda pra cima? E tem mais... Que barulho foi esse?

Batidas e Tiros se propagaram pela casa.

— É só a tevê. Olha, depois a gente se fala, beleza? Tchau!

— Ei, espera um...

Felipe desligou e rejeitou mais duas ligações da esposa.

Esse casamento já estava dando no saco. Várias brigas sacudiram os pilares do santo matrimônio. Felipe não aguentava mais os ciúmes dela, que no início, eram sem fundamento, mas logo ele se cansou e arrumou os motivos para ser acusado de traição.

Qualquer comentário numa foto de uma ex-colega de trabalho era o suficiente para brotar as flores da insegurança na cabeça da Jaque. Então, a paranoia tomava forma, alimentando-se de detalhes invisíveis, como uma espiada no decote de uma garçonete, que na verdade, era só uma olhada no cardápio. Isso tudo cansava, e muito!

Saturado de tanta besteira, ele realmente adubou essas flores. Primeiro, com a Vanessa. Depois, a Larissa. A Tatiana também. E mais um punhado de nomes. Alguns eram falsos, pois nenhuma prostituta revelava o nome verdadeiro. Falando nisso, o balão do chat começou a brilhar numa tonalidade verde. A Cibele estava online. Chegou a hora de marcar um novo encontro, com novas experiências e com uma expectativa tão prazerosa, que jogaria os problemas conjugais de Felipe para o segundo plano.

Ele abriu o chat do aplicativo. Em cada mensagem trocada, uma notificação emitia uma badalada de sino. As respostas da roqueira cinco estrelas chegavam no mesmo instante. Quando ele se distraía com a cerveja, seus dedos refaziam a sequência para ligar os pontos na tela do smartphone e atender o chamado dos sinos.

Os dois marcaram o local do encontro.

***

O Contrato dizia que um pouco de sangue era permitido. Só um pouco? Isso era só uma palavrinha relativa, porque, para quem precisava, 6 litros era o mesmo que nada. O que era uma assinatura? Logo pra ela que escapou do Limbo, um reino medonho para trancafiar os espíritos inferiores; ela que já quebrou regras e enganou entidades maiores — ninguém segurava Cibele.

Ela estava sentada na cadeira erótica, balançando um copo de uísque e fumando um charuto. Trocou a posição das coxas com um belo cruzar de pernas. Apreciou os resmungos do Papai Noel. Claro que esse não era o nome do Escravo, pois alguns apelidos carinhosos surgiam no meio de uma boa foda. O saco do rapaz inflamou a tal ponto e com tamanha vermelhidão, que lhe rendeu o título do bom velhinho.

Os gritos de êxtase, mesclados com agonia, eram filtrados por uma bola vermelha presa por tiras de couro em volta da cabeça do Noel. Com um pouco de imaginação, o possível barulho era refinado em lamúrias como:

— Rrou... rrou... rrou...

Amarrado na Cruz de Santo André — duas tábuas de madeira se cruzando para formar um X —, ele via a sua dona mexendo no smartphone. Ele escutou os sinos, o mesmo som da configuração padrão do Sem Calcinha. A vagabunda estava atraindo outro mané? Tentou se aproveitar da distração para se livrar das correntes que o prendiam a cada perna do X pelos pulsos e tornozelos. As correntes tilintaram e um suor frio desceu como uma nevasca para congelar sua esperança de fuga.

Cibele subiu os olhos por um instante.

— Fica quieto! Que droga, Noel! Já, já, nós veremos o presente que tu trouxe pra mim.

— Rrouu... rouu.

Ela descruzou as pernas, inclinou-se para frente da cadeira e colocou o dedo indicador entre os lábios esfumaçados.

— Xiiiu! Aguenta firme!

A Dominatrix apontou a câmera do celular para o condenado. Um flash destacou as manchas de sangue na penumbra. Ela apagou o charuto dentro do uísque e pôs o copo ao lado da sua bolsa. Levantou-se, pegou sua navalha, e com um sorriso de orelha a orelha, foi até ele.

Noel derrubou lágrimas. Os olhos estavam esbugalhados. Todos os cortes extrapolaram os termos. A Palavra de Segurança não passou da mordaça. E o Contrato? Por que ela não respeitou o acordo? Droga! Ela se aproximava com a navalha ensanguentada na mão. As lágrimas não paravam de cair. Ele ainda tentava balbuciar a Palavra de Segurança como se isso fosse pará-la.

Mãos pálidas agarraram seu pênis. Agora, o prazer combinava-se com o horror. Ondas de endorfina afogaram a sua imaginação. Cibele girou a navalha entre os dedos.

— O que o Papai tem pra mim?

Ela rasgou o saco do Papai Noel. O testículo esquerdo caiu no tapete, para depois ser estourado por uma bota. Outro golpe completou a castração. A fonte de sangue foi tão abundante quanto o orgulho masculino mutilado.

Quem era aquela mulher? Ele não merecia tamanha barbaridade. Seu corpo se tremia com violência. Sacudiu-se, preso, fraco e arrependido.

— Vamos lá. Se você não falar, vou ter que procurar. O que o Papai tem pra mim?

Cibele extraiu os dois mamilos do Escravo. Ela os mastigou, saboreando a epiderme borrachuda e engolindo cada pedaço. O pobre desgraçado perdeu a consciência. Mas o alívio não durou muito, uma vez que Cibele retirou uma seringa de sua bolsa e aplicou uma injeção de adrenalina no dorminhoco. Que falta de consideração! Abandoná-la desse jeito, deixando-a insatisfeita. Nã-na-ni-na-não!

Ele retornou para o inferno: um quarto de motel no centro de Fortaleza, com a temática BDSM, mas com uma maníaca que desconhecia as regras da modalidade.

— Deixa eu te contar uma coisa, Papai. Nesse momento, você pode estar se perguntando: “Por quê?”

— Rrou... rrro...

— Eu sou apenas uma entidade que ajuda seres humanos com seus desejos, motivações e vontades. A culpa não é minha. E não me entenda mal, a vontade que estou satisfazendo não é a sua, Papai.

A raiva fervilhou dentro dele.

— E como vocês, mortais, estão cansados de saber: tudo tem um preço. E comigo, ele é pago com sangue. Nesse caso, o seu, meu amor.

Cibele fez uma sequência de talhos e lambeu cada fonte de energia vital. A carne era uma delícia. A língua bifurcada passeava sobre o peitoral da oferenda. E a navalha arrancava tiras de pele. O sangue era um tributo para a condição daquela entidade. A vitalidade humana era sugada porque Cibele tinha que permanecer no Reino Natural, do contrário, a sua própria carne definharia, mandando-a de volta ao Limbo.

— Nossa pernoite está acabando.

De repente, ele sentiu as correntes se apertarem sobre seus pulsos e tornozelos, como uma cobra viva, o abraço de ferro triturou seus ossos. Os olhos de Cibele ficaram vermelhos naquela face repleta de piercings. Mais uma vez, ela girou a navalha nos dedos.

— E então... O que o Papai tem pra mim?

Ela abriu uma fenda na garganta do Felipe, ainda assim, era pouco sangue para uma Pomba Gira a serviço de uma esposa magoada.

***

Por um instante de reflexão, enquanto trabalhava na floricultura, Jaque procurou por um motivo para poupá-lo. E encontrou. Nem tudo era merda despejada sobre o jardim do casal. Viu lembranças boas, palavras de afeto e até mesmo algumas injustiças onde ela reconheceu sua própria culpa. Foi quando ela ligou para o marido. Deu de cara com a costumeira grosseria dele.

Jaqueline mentiu. Não havia vaga de emprego. Felipe foi reprovado no teste e ainda por cima tivera a audácia de desligar na cara dela. Tentou mais duas vezes, buscando um mísero sinal para cancelar o pacto. Ignorada, ela retomou suas mágoas e deixou a praga se alastrar. Cibele daria conta dele.

E deu.

Durante o banho, enquanto se livrava do cheiro da vingança, um sino badalou no quarto. Jaque desligou o chuveiro e saiu molhada para pegar seu smartphone. Outro badalo aumentou sua ansiedade. O coração disparou. Fez a sequência dos pontos na tela. Os dedos encharcados a fizeram falhar. Enxugou as mãos na toalha e refez a senha. Usando o seu perfil falso, @PaiZecaKiumbada, ela entrou no Sem Calcinha. O sino chamou de novo, sete notificações da Cibele informando que o Felipe estava prestes a ser despachado.

Entre as mensagens, uma foto lhe arrancou um sorriso sinistro.

***

O céu tinha a cor de vômito, nenhum astro boiava pelo firmamento, só haviam relâmpagos. Nenhum barulho, o silêncio era uma atmosfera viva. Felipe vagava sem ouvir seus passos. O chão era rachado e arenoso. Os galhos ressecados das plantas se partiam e pegavam carona com a ventania muda. O odor insuportável de carniça atiçava as memórias mais sujas do andarilho. Ele passou por carcaças de porcos, cabras, galinhas e humanos.

Depois de mil passos — a única medida de tempo que poderia usar —, sentiu gotas grudarem na sua carne sem pele. Ergueu a cabeça. Os relâmpagos abriram inúmeras fendas no céu, buracos colossais com as bordas cercadas de dentes pontiagudos. Um líquido esbranquiçado saía de dentro dessas bocas. Começou a chover. A sensação era quente e o cheiro familiar. Não era água. Felipe continuou contando seus passos, sendo encharcado por um dilúvio de nojo.

A terra se transformou num lamaçal grudento. Felipe perdeu a força nos músculos das pernas submergidas. Desistiu da caminhada e deitou-se naquele oceano branco que subia de nível. Notou que as bordas — ou lábios — se expandiram, assumindo uma coloração vermelha. O silêncio perturbador morreu. Todas as bocas falaram com ele. O som era como uma explosão nuclear dentro do cérebro. Foi como ir do zero a um milhão.

— VOCÊ VAI MORRER AFOGADO NO PRAZER. — Voz de mulher.

— FELIPINHO QUER LEITINHO? — Voz de criança.

— NÃO FALTAM PALAVRAS PARA VOCÊ OUVIR! — Voz de velho.

— MOSTRE-ME O SEU DESEJO, ZIUMBA MALDITO! — Setecentas vozes sincronizadas.

Felipe urrou como um louco usando um megafone. A dor separou cada átomo da sua existência astral e os reorganizaram numa miséria absoluta. Enquanto rezava para que o fim lhe salvasse do caos, as bocas se calaram de repente.

Com um alívio profano, a resposta de Felipe veio cuspida, com gozo, na ponta da língua.

— Vou sair desse inferno... tpuh... e matar aquela puta da Cibele.

Risadas do céu. E o barulho foi como o apocalipse, não de um mundo, mas numa só alma.

Uma das bocas vomitou uma corrente com uma âncora na ponta, que logo afundou no mar da repulsa. A linha de ferro se esticou até a garganta de outro plano astral.

— ENTÃO, COMECE A SUBIR! VAI! VAI! VAI! VAI...

Todas as vozes incentivaram o Felipe, sem parar.