Mãos pálidas e esqueléticas abrem pesadas cortinas de veludo verde. Através dos vidros envelhecidos de uma grande janela e da poeira no ar, a tímida luz do sol. As mesmas mãos, ao final de um braço esbelto e coberto por uma manga escura, limpam o topo de uma envelhecida lareira de mármore, que reflete a decadência de uma era opulenta, já esquecida. Acima da lareira, uma grande paisagem de óleo sobre tela: um tigre devorando um faisão, estilo século XVII. A presa e o caçador.

Uma aranha de patas finas, longas e escuras caminha por cima de livros empoeirados. As mesmas mãos pálidas abraçam a aranha e a levam para uma jarra de vidro. Olhos escuros, emoldurados por grandes cílios, observam o animal. Lábios finos sorriem. O rosto jovial de Laci observa a aranha tentando escapar, sem sucesso.

✽ • ✽

O sol passa pelas folhas de uma grande árvore. No meio do capim, Laci come um pêssego, deixando escorrer néctar pelos cantos da boca. 

Às margens de um grande lago, o vestido flutua ao redor do corpo alto e esguio de Laci, que joga pequenos pedaços de pão para alguns cisnes. O sol reflete na superfície e em seu cabelo loiro, trazendo um aspecto angelical para a jovem, fazendo seu sorriso despreocupado brilhar. 

Um majestoso pavão branco eriça as penas numa dança vaidosa em meio a pétalas brancas que caem pelo ar. Laci solta risos de júbilo enquanto alimenta os pavões com as pétalas, que tira de um grande saco de estopa. O viveiro ao seu redor é adornado por arbustos ornamentais e escuros, que contrastam com o pálido tom dos animais. O riso musical de Laci é interrompido por um brusco grito masculino.

— Laci! Tá na hora!

Protegendo o rosto agora sério do sol, Laci encara um grande casarão estilo colonial, imponente em meio a arbustos, flores e árvores idílicas.

✽ • ✽

A jovem, agora com um pano segurando os cabelos para trás, está curvada sob o peito de um velho homem - cabelo salpicado e esparso, rosto carcomido pelos 70 anos virado para o lado oposto. Laci move-se para trás e o peito do homem revela um grotesco machucado, bem no esterno. A ferida, do tamanho de um palmo, tem as bordas avermelhadas e estufadas, cheias de bolhas molhadas, que vão abrindo-se à medida que se aproximam do centro do machucado. Ali, um misto de carne com pus palpita à luz do dia, quase num ritmo cardíaco. A respiração do homem é um pouco difícil, ruidosa, e seu nariz enrugado denota a presença de um fedor orgânico no ar.

Laci joga numa bacia as toalhas brancas manchadas de sangue e pega outra bacia, contendo um emplastro verde musgo. Ela passa a pasta botânica na ferida do homem, com a mão nua. O rosto dele se contorce de dor com o toque. O rosto dela também, mas com um deleite inesperado.

✽ • ✽

Um úmido e encardido pano vai e vem, encharcando o chão de madeira. Laci agora lava o chão, secando o suor da testa. Respirando fundo, ela olha para o lado - um grande corredor, com velas derretidas em candelabros enferrujados. Ao fundo, quase no escuro, uma cômoda bloqueia o acesso a uma porta. A única porta do corredor. 

TUM TUM TUM. Sons pesados de botas ecoam pelo casarão. Laci presta atenção no som, cada vez mais perto. TUM TUM TUM TUM. Uma brisa acaricia sua bochecha - é uma pena branca. Ela olha para cima e vê, a centímetros do seu rosto, um bico escuro. Depois uma pequena cabeça branca. Depois, o corpo desfalecido de um cisne. Por fim, o velho homem, rosto escurecido pelo contraluz, que segura o cisne morto no braço como um infante sonolento. 

— Faz ele com alecrim e maçã pra hoje. 

✽ • ✽

Laci encara o cisne montado em cima de uma travessa de ferro em cima da mesa de jantar. Com o rosto duro, ela funga. O homem senta à mesa, pigarreia e entrega seu prato para ela. Laci começa a servir o homem, cortando a carne do cisne. Enquanto ela olha para o rosto do animal, percebe que um líquido escuro parece escorrer dos olhos negros do bicho. 

Ela encara o prato do velho. Continua servindo o prato dele - batata, cenoura, arroz. 

— Prova pra eu ver.

Laci obedece e come pequenas porções da comida. O velho a observa com os olhos amarelados atentos. Satisfeito, pega o prato para si e come. Antes de beber o vinho escuro no copo, entrega para Laci novamente. Ela engole suas batatas e toma um gole.

— Ó. Sem veneno.

O velho pega o copo e toma tudo de uma vez, deixando gotas escuras escorrer pela barba grisalha.

✽ • ✽

Neblina noturna cerca o casarão. Sons dos pavões ecoam pelo escuro, meio urgentes, meio ameaçadores. Laci está novamente ajeitando o grande machucado do homem, agora deitado numa cama de lençóis brancos. Ela murmura uma música enquanto cobre a ferida com o emplastro verde. O homem retorce o rosto num misto de dor, repugnância e irritação. 

✽ • ✽

Os olhos grandes de novilha de Laci reluzem à ínfima luz do viveiro de pavões. Sua longa camisola branca combina com a plumagem dos pássaros ao redor de si. Ela encara um pavão enquanto faz uma chuvinha de grãos em cima da cabeça dele. O animal placidamente bica alguns grãos.

— Ô Duque. Tu é lindo, sabia? 

Um som sussurrante e escorregadio leva a atenção da jovem para a grama ao lado de Duque, o pavão. Uma cobra totalmente preta passa por ali, escamas reluzentes. 

Laci sorri para Duque. Num bote certeiro, Laci pega a cobra com as próprias mãos. 

✽ • ✽

É outro dia. Novamente cortinas de veludo verde são abertas. Um balcão cheio de fotografias antigas, pássaros empalhados e livros carcomidos é espanado. 

Laci varre o grande corredor de madeira. No chão, outra aranha, encorpada e com detalhes vermelho-vivo. A jovem pega o bicho na mão e o observa carinhosamente. Enquanto desliza a aranha para dentro de um pote de vidro, observa novamente a porta no fim do corredor, atrás da cômoda. 

✽ • ✽

Uma porta de madeira escura dentro de um quarto igualmente escuro, apenas iluminado por acidentais nesgas de sol. O som seco de um móvel sendo arrastado do lado de fora. De supetão, a porta abre. Em pé no meio da luz forte que invade o cômodo, Laci.

A jovem abre as janelas - o sol banha o quarto extremamente empoeirado, mas que ainda abriga imponência e elegância de anos antes, quando era ocupado. Deixando um traço pelo pó, Laci passa a mão pela penteadeira cheia de vidros de perfumes, cosméticos antigos, porta-joias. O reflexo de um pequeno espelho de metal, com as bordas escurecidas pelo tempo, revelam o belo reflexo de Laci, que penteia o longo cabelo loiro e liso com uma escova de prata.

Em frente a um grande e antigo espelho cheio de manchas escuras, Laci rodopia em um vestido longo, de tecido bordô, claramente um tamanho maior que o dela. Prova outro vestido, depois outro. Os tecidos acumulam-se em cima da grande cama de casal empoeirada. O momento de Laci é interrompido pelo barulho de uma porta batendo ao longe. 

Laci espia pela porta em direção ao corredor - nada. Ainda vestindo um longo vestido azul marinho, com um decote modesto e babados suaves nas mangas, Laci fecha a porta "proibida" e arrasta a pesada cômoda de volta ao seu lugar.

✽ • ✽

É noite. Os gritos noturnos dos pavões são quase ameaçadores, como se alertassem para algo que se aproxima na escuridão. Laci, ainda vestindo o vestido azul marinho que claramente não é seu, passa o emplastro botânico no peito aberto do velho com muita calma, totalmente consciente das apertadas de olho cheias de agonia dele. A cada pressão feita pelo dedo dela ao longo da carne viva, uma careta cheia de agonia. O coração do homem bate logo abaixo da carne retorcida, iluminada pela luz bruxuleante de velas. E Laci sabe disso, observando o movimento rítmico com curiosidade.

Ela finalmente vira-se para ir em direção à cozinha, derrubando diversas garrafas de vidro com um ruído estridente e repentino.

— Silêncio, Laci. Silêncio!

A jovem fita o homem, que hiperventila em reação ao emplastro dolorido.

— De noite não tem silêncio aqui, tu sabe. Ó os grito dos pavão.

— Mas é tu que eu dizendo pra fazer silêncio. Os grito deles eu aguento.

Laci lança um olhar venenoso em direção ao velho e segue seu rumo até a cozinha.

✽ • ✽

O homem mastiga ruidosamente. Laci bebe um gole d'água e alisa a manga do seu vestido escuro, roubado do quarto.

— Era geniosa, a minha Rebeca.

Laci levanta o rosto, surpresa com a fagulha de conversa atípica por parte do taciturno homem. "Minha Rebeca", pensa ela. Afinal, era sua mãe. Dele, só esposa.

— Teve aquele dia que ela se indispôs com a irmã, né. Invejosa que era a Bete. Inventou que a Rebeca andava se vestindo melhor que ela e fez todo um plano de estragar os vestido dela enquanto ia na casa das comadre.

Pela primeira vez em anos, o velho denota brilho nos olhos enervados e avermelhados pela idade. Laci continua mastigando silenciosamente, encarando o prato.

— Rebeca voltou e viu de revesgueio a Bete no ato, cortando as renda, as bainha. Aí não sei como, se lábia ou o quê, mas depois ela convenceu a Bete que tinha um pretendente secreto pra ela lá no Peral dos Veadeiros. Bete se enfeitou, escolheu usar o mió vestido que tinha, né. 

Laci percebe o sorriso desdentado do velho, que fala sem olhar para ela. 

— Elas foram, Rebeca foi emaranhando minha irmã nuns galhos, nuns arbustos, passando por córrego, por tudo. Chegou da ponta do penhasco e a Bete já tava toda destruída. E não é que Rebeca tinha trazido mesmo um pretendente? Aquele…. O filho do fazendeiro Ernani. Mas não foi na boa intenção, não. Era tudo combinado entre eles.

Laci já não mastiga mais. Ela achava que tinha reconhecido a anedota, mas não conhecia. Provavelmente a única que não conhecia, já que no passado havia pedido incessantemente para o velho contar tudo que sabia sobre sua segunda e última esposa. 

— Chegou a Bete toda estrupiada lá. O guri riu e fez tanta troça dela, mas tanta, que ela se jogou do penhasco. Lembro até hoje da Rebeca contando tudo isso, dando risada.

O rosto do homem fica sombrio. Ele passa o guardanapo de pano na boca. Laci percebe essa ação totalmente incaracterística do velho.

— Sorte que a Bete era casco duro, né. Só machucou a perna, o braço, conseguiu se segurar. Mas nunca mais se meteu com minha Rebeca, não. Ô saudade dela...

Gordas lágrimas caem dos olhos escuros do homem. Laci franze o cenho com o choro dele - "Quem tem direito de ter saudade sou eu." 

Ela faz carinho no braço do vestido de veludo - um veludo intoxicante, pretensioso. Esnobe. O favorito de Rebeca. 

✽ • ✽

Na madrugada escura e fria, Laci ouve os gritos dos pavões lá fora, bem como a tosse violenta do homem no quarto ao lado. Ela gruda a delicada orelha na parede, para ouvir melhor. As paredes do casarão também são penetradas pelas suas lamúrias de dor. 

Sorrindo, Laci faz carinho na parede desbotada.

✽ • ✽

Sol lança uma luz dourada nos caninos de Laci, que sorri para a janela. Vestida com outro vestido de sua mãe - bordô com botões pretos no peito -, ela dá de comer para as galinhas. Alimenta Duque e os outros majestosos pavões do viveiro com pétalas brancas e grãos variados. 

Na cozinha de azulejos adornados, chão preto e branco e iluminado pela branca luz do dia, Laci cantarola enquanto prepara o emplastro botânico. Sua cantoria é intercalada pela tosse molhada do velho homem, que ecoa lá da sala de jantar.

Laci coloca gotas de algum líquido transparente no meio do emplastro verde. Ao redor, plantas, pétalas e aranhas mortas em meio a líquidos amarelados em vidrinhos. Uma escama de cobre jaz ali.

Laci torce o nariz com o cheiro da mistura enquanto anda em direção à espaçosa sala de jantar, onde o som da forte tosse do homem vai ficando mais alto.

Ela sorri enquanto analisa a cena terrível: na poltrona perto da janela, o sol ilumina o grande ferimento necrosado no peito do velho. O ferimento borbulhante ocupa quase todo seu peito, corroendo a pele e chegando até quase o osso. O olhar de horror do velho é avermelhado - lágrimas de sangue escorrem pelo rosto distorcido de pânico.

Enquanto ele arfa por ar, Laci se aproxima, ainda cantarolando. Ela senta em frente ao homem, que se contorce na poltrona desbotada. Ela joga o emplastro no peito sangrento do velho com descaso. Um vapor ácido levanta do machucado em carne viva, arrancando gritos do velho ensanguentado. Laci sorri mais largo enquanto assiste o emplastro corroer o músculo fraco, a gordura bege e o osso do peito do velho, que revira os olhos ensanguentados de dor. Laci saliva - o veneno ácido chega no coração do velho, que agora bate ao ar livre enquanto é corroído. Os gritos de pavor do velho chegam a decibéis alucinantes e nauseantes. 

Mas Laci só ri.

✽ • ✽

O eco do berro desesperado do padrasto ainda ocupa a cabeça loira de Laci, que cava um buraco às margens do lago plácido. A luz do sol passa pelas folhas das árvores e a brisa balança a bainha de seu vestido elegante demais para a ação. 

Joga, com esforço, o corpo corroído do velho homem dentro da cova rasa. As rugas do velho estão traçadas por sangue seco, terra e pânico. Laci joga o resto do emplastro no cadáver, que solta um sopro ácido quando entra em contato com a carne.

Laci seca o suor da testa e olha ao redor.

✽ • ✽

O vestido esvoaça atrás da jovem, que desliza pela grama atrás da casa até o imponente portão do viveiro dos pavões. Laci abre o portão, triunfante. Finalmente, o casarão era totalmente seu, como devia ser. Os vestidos, os cômodos, as árvores. Livres de parasitas, de velhice, de uma ameaça de violência que a assombrava diariamente.

Laci sabe que, agora, a porta do quarto da mãe está escancarada, deixando entrar ar no passado que ela se orgulhava. De sua mãe geniosa, maldosa, saudosa. 

Laci respira fundo e sorri.