25 de abril de 1892.

À quem possa interessar,

O hábito de escrever e refletir sobre assuntos variados me fez criar certa sensibilidade – e criatividade, por que não?

Mas é inegável o quão assombroso isso pode ser às vezes, ainda mais quando se tem predisposição para temas como horror/terror, como acontece no meu caso, por um motivo que desconheço totalmente, ou não. Talvez seja culpa de Poe, cujas histórias me causam arrepios horrendos na espinha.

O ponto é que me deparei com algo impressionante. Um sonho específico.

Todos nós sonhamos, ou melhor, temos pesadelos com os mais variados temas, mas com um ponto em comum: é impossível sentir algo do qual não temos referência.

Quero dizer, é possível sonhar com uma situação que nos cause for física – e até podemos sentir a dor – mas para isso, precisamos ter sentido uma dor semelhante para termos um referência, certo?

Pois era exatamente isso que eu pensei até essa noite...

Para melhor contextualizar aquele que dedicou alguns instantes do seu tempo para ler este relato, dou-me ao luxo de explicar com maior riqueza de detalhes, na esperança de que você, leitor desconhecido, possa me ajudar a entender.

O dia começou melancólico como os dias que o antecederam e, até então, não havia do que reclamar, pois sou um adepto da vida boêmia, noturna, regada a vinho e fumo. E, como de costume, aconcheguei-me em minha poltrona e pus-me a pensar. Algo que está sendo recorrente em meus pensamentos é a morte.

Dói morrer?

Já se perguntou isso?

Vivo só em minha enorme residência. Papai e mamãe já se foram prematuramente e nunca retornaram, nem em sonho, para responder a esta pergunta sinistra.

A indagação me acompanhou por todo o dia e causava até mesmo certa ansiedade, a qual apenas seria atenuada após mais uma reunião que mantinha todas as noites com meus companheiros de boemia. Eles costumam ter resposta para tudo, que transitava entre as mais realistas e absurdas possíveis.

Confesso que me senti desapontado com as divagações rasas de meus colegas sobre o tema. Esperava algo a mais, que me pudesse tocar a alma.

Falamos sobre outros assuntos entre uma e outra taça de vinho, mas estes não vêm ao caso. Meus interesses estavam totalmente voltados para o grande mistério da morte.

Mesmo minha criação católica não me permitiu adentrar ao assunto da forma que pretendia e não ousei consultar um padre para sanar tal dúvida cruel, sob o receio de um julgamento precipitado ou heresia qualquer.

A busca incessante me levou a um caminho esperado ao final da noite.

Quando me recolhi em meus aposentos para dormir não demorei a sonhar. Vi-me prostrado diante de um juiz que batia o martelo repetidamente, ordenando a execução de minha pena, evidentemente a pena de morte por decapitação. Lembro-me de ser tomado pelo desespero ao ser carregado por meus algozes.

Tudo ali me parecia real.

Até mesmo pude sentir a urina quente escorrendo pelas minhas pernas, para completar a humilhação.

Meu rápido julgamento não me permitiu saber por qual motivo havia sido sentenciado à morte, o que não tornava a situação menos horrível.

E quando menos esperei, estava em um palanque de madeira. Ao meu lado, havia um pequeno altar de pedra e um cesto de junto sujo, sobre o qual grandes moscas sobrevoavam, indicando que não era a primeira vez que fora utilizado para um fim tão cruel.

Quando me colocaram ajoelhado em frente ao altar, cobriram meu rosto com um capuz negro, tapando toda a minha visão. Então senti uma mão úmida empurrar meu pescoço contra a pedra quente.

Por alguns segundos tive plena consciência de que não se passava de um mero pesadelo. Logo acordaria com um raio de sol invadindo meu quarto por uma fresta qualquer...

Mas algo cortou o vento próximo ao meu ouvido, o que julguei rapidamente tratar-se da lâmina que me ceifaria a vida.

Senti o peso em minha nuca e meu rosto bater contra o fundo do cesto quando a lâmina fez seu trajeto vertical.

Eu senti a dor.

Senti morrer.

Dizem que o decapitado consegue sentir por algum tempo antes de morrer de fato. E foi isso que pude comprovar,

Mas como eu tinha essa referência de dor?

Esse foi o último pensamento que me intrigou enquanto minha cabeça caía.

Ainda sinto a dor lacerante atrás da cabeça e não consigo dormir desde então.

Tudo me pareceu tão real que sou incapaz de afirmar veemente que estou vivo, afinal vivo só, afastado da cidade e não há ninguém que possa atestar minha existência. E tal dúvida me acompanhará por longas horas a fio, até o dia raiar e eu possa dirigir-me desesperadamente até a cidade para pedir que jurem diante de Deus que ainda estou vivo.

Por fim, rezo para que não enlouqueça até lá.