Beijo mortal

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Há 3 meses

Já faz um tempo em que parei de acreditar no amor. Minhas relações amorosas não foram as melhores, tudo começou no jardim de infância, eu gostava de um menino chamado Davi, ao meu olhar ele era perfeito. As outras crianças o idolatravam, ele tinha os melhores brinquedos e gostava de disputar trocadilhos engraçados. Teve um dia em que ele me mandou um bilhetinho escrito "venha na girafinha", eu como uma doce e inocente garotinha fui até o playground procurar a estátua da girafa. Quando cheguei no local, lá estava ele, segurando as mãos por trás das costas, parecia bem tímido. Eu também tinha uma certa timidez, mas minha paixão por ele falava mais alto do que a vergonha. Então eu cheguei perto dele e fui surpreendida com um beijo na bochecha, Davi sorriu para mim e correu para dentro da escola. Naquele instante eu me senti nas nuvens, me perguntei se esse sentimento era amor. Depois de alguns segundos eu voltei a realidade e novamente fui surpreendida, mas para o meu azar, não era uma surpresa boa. Davi e uns coleguinhas meus de classe apareceram na entrada do playground, eles me olhavam estranho, umas menininhas cochichavam e davam risadinhas estranhas, eu não estava entendendo o que tinha de errado. Para acabar com minha curiosidade, Davi gritou para os outros coleguinhas:

- GENTE A LUCY TAVA BEIJANDO A GIRAFINHA DE LÍNGUA!

Todas as crianças começaram a rir e apontar seus dedos gordos para mim, eu não sei o que me deixou com mais raiva, o Davi ter criado essa mentira ou as outras crianças por rirem de mim. Essa foi a primeira vez que o amor me fez de trouxa.

Na segunda vez eu estava no ensino médio, sempre estive com um pé atrás em relação aos outros garotos por culpa de Davi, então eu me sempre era muito cautelosa. Mas mesmo sendo a garota mais intimidante o possível, eu ainda consegui me apaixonar. Por mais que eu achasse que dessa vez daria certo, o universo fazia questão de me fazer quebrar a cara da pior maneira. A seguinte história foi bem mais trágica do que a minha no jardim de infância, isso comprova o fato de que adolescentes podem ser bem mais malvados do que as crianças. Eu tinha 17 anos quando resolvi namorar pela primeira vez, na teoria tudo parecia incrível, mas na prática eu percebi o quão ruim eu era de me socializar com garotos. Entretanto isso nunca foi um problema para mim, pois de algum modo eu encontrei um rapaz que dizia gostar de mim, pelo o que sou, "ah como fui tola". Seu nome era Jonas, fazia parte dos garotos populares do ensino médio, estava tão na cara que isso não ia prestar, mas não deu pra evitar. Se eu tivesse uma Tardis, com toda certeza a viagem para o meu passado estaria garantida.

No início nós éramos um casal normal, daqueles que tinham respeito dos demais estudantes, nenhum outro garoto tirava sarro de mim, as fofocas sem sentidos pararam de circular pelo colégio. Resumindo meu relacionamento estava bom e meu desempenho escolar melhor ainda, tudo nos conformes. A coisa começou a desandar quando o meu colégio fez uma festa de Halloween no final do ano. Estávamos todos ansiosos para festejar junto com a turma, essa festa era o início dos nossos dias gloriosos, pois a gente ia se formar. Então nossas expectativas estavam altas, apesar do colégio proibir total as bebidas alcoólicas, drogas e relações sexuais, a gente sempre dava um jeito de burlar as regras. Criamos um plano que em tese era infalível, só em tese mesmo. Algumas ruas atrás do nosso colégio tinha um casarão, que segundo os colegas de Jonas ele estava abandonado. Então quando deu 00h eu, Jonas e outros colegas da turma fomos invadir o casarão para continuar a nossa festa, só que dessa vez sem adultos chatos para atrapalhar a diversão.

Um grupo de garotos compraram muitas bebidas, alguns salgadinhos e hambúrgueres. Um cara estranho também se juntou a nós e não esperou muito para vender cocaína. A festa acabou exatamente às 03h, no momento em que Jonas e eu estávamos em um puta clima gostoso, quase prontos para transar. Eu esperava pelo Jonas deitada semi nua em um colchão no 2° andar da casa, era um quarto grande, algumas velas no chão para trazer um ar romântico, deixou a aparência do quarto melhor. Jonas tinha ido no carro buscar a camisinha, só que ele não voltou. Ao invés disso, escutei o carro dando partida e algumas sirenes ligadas se aproximando do casarão. Quando eu me dei conta do que estava acontecendo, já era tarde demais, Jonas tinha me deixado sozinha e semi nua na porra do casarão. Resultado? A polícia chegou e me levou para a delegacia, ligou para os meus pais e tive que prestar serviços a comunidade em forma de punição. Só eu, não deram o trabalho de ir atrás dos outros garotos que fugiram de lá. Nem Jonas.

A última vez em que estive em um relacionamento foi com o meu ex marido, ele foi um canalha tantas vezes que nem vale a pena citar seu nome. Eu estava cansada de encontrar os vestígios das suas traições, diversas amantes, cada uma deixava uma marca diferente em seu coração, eu percebia isso. Durante muito tempo eu tentei ignorar seus atos de má fé, mas depois de um tempo acabou se tornando insuportável de olhar. Um pensamento aparecia de vez em quando na minha mente, ele dizia "você pode até tentar ignorar uma pequena rachadura em sua parede branca, mas com o tempo, ela fará questão de ser notada. Quando você menos esperar, a rachadura se tornará um buraco em sua parede". E se tornou, um buraco infeliz na minha vida, suportei até não aguentar mais, pedi o divórcio e me libertei dessa parede infernal.

Agora estou relembrando o passado em uma boate qualquer, com uma taça de vinho rosé na mão, e a outra olhando o feed do Instagram. Nunca me senti tão vazia, mas ao mesmo tempo, tão livre. Era uma mistura de sentimentos, não conseguia captar eles totalmente por conta da música alta sendo tocada pelo DJ. Confesso que música eletrônica não é o meu forte, mas também não odeio, só preciso suportar para encontrar uma razão nisso tudo. Enquanto estive perdida em meus pensamentos, sinto uma presença se juntar a mim na mesa. Era um rapaz, de bela aparência, usava um terno preto com uma blusa cinza brilhante por dentro. Ele tinha estilo, dava para notar. Provavelmente muito dinheiro também, em seu braço direito um relógio dourado chamava atenção. Seu rosto refletia seriedade, e ao mesmo tempo muita classe. Fiquei bastante curiosa ao ver sua presença ali, tão perto de mim, não vou mentir, me sinto atraída por ele.

Ouço ele dizer:

- Um bom vinho rosé precisa ser apreciado de 10°C a 12°C, pelo o que vejo, você no máximo vai sentir mais calor.

Ergui a sombrancelha, suas palavras me atingiram em cheio, não sei qual sua tática, mas estava funcionando. Retruquei:

- É? Por que você não me mostra o vinho rosé per-fei-to?

Dei uma risadinha, não levei minhas palavras à sério, esperava que ele também. Mas fui surpreendida com suas palavras:

- Venha comigo.

Ele levantou e ergueu sua mão, esperava que eu o seguisse. Normalmente eu não faria esse tipo de coisa, mas não passava nada em minha cabeça, só a vasta solidão. Segui o homem misterioso, ele segurava minha mão firme mas de um jeito delicado. A saída da boate estava vazia, quase não vi uma alma viva naquele lugar. Mas uma coisa era fato, o seu carro era incrível. Uma Lamborghini Veneno, com um preto cintilante, conseguia ver meu reflexo na lateral. Era linda, e ele sabia disso, pois estava se exibindo para mim, eu sentia isso.

Como um cavalheiro, ele abriu a porta da Lamborghini para mim. Me sentei com cuidado e coloquei o cinto. O interior do carro era ainda mais lindo que o exterior. Tantos botões diferentes, tecnologia avançada, nunca tinha visto algo assim, uma baita experiência. Não conversamos muito no trajeto, ele me mostrava todas as funções de seu ouro automobilístico, eu não me importava com o carro, ele era bem mais interessante.

Nesse momento eu estava nas nuvens, observando a estrada, provavelmente sua casa (ou mansão) ficava no topo da montanha. Era um local que eu nunca tinha ido, embora a vista seja muito bonita, dava pra ver a cidade daqui de cima.

Depois de um tempinho, finalmente chegamos. Como eu esperava, ele tinha uma mansão. Ela era linda, seu estilo moderno trazia mais elegância. Logo no início passei por dois pequenos lagos cheios de carpas, com diversas cores e raças, é lindo.

Ele me levou para dentro, e como sempre, o interior da mansão é muito elegante, há vidros para todo o lado. Os móveis todos combinam, cores básicas mas bonitas, acho que essa é a ideia do arquiteto que construiu esse lugar, atrair toda sua atenção para o externo da mansão.

Eu me sentei no sofá de veludo branco, e esperei o homem. Uns minutos depois, ele apareceu com duas taças e ao lado, um vinho rosé. Sorri e falei:

- Dessa vez está na temperatura certa?

Ele se sentou ao meu lado e abriu o lacre do vinho, despejou o líquido vermelho claro na taça e sorriu de canto.

- Como de sua preferência, está perfeito.

Dei uma risadinha, e tomei um gole do vinho. Como ele disse, realmente era bem melhor assim, preciso parar de frequentar boates baratas. Me aproximei um pouco dele e disse:

- Por quê você me trouxe para a sua casa? Gosta de chamar desconhecidas para a sua fortaleza?

Ele olhou para mim de um jeito misterioso, como se tivesse outra resposta, mas preferiu não dizer. Por fim, ele disse:

- Digamos que eu tenha um fetiche por mulheres desconhecidas na minha fortaleza.

Nesse momento eu sentia o aroma de seu perfume, forte e cheiroso, não consegui enrolar mais e puxei seu corpo próximo ao meu. Minhas mãos agarraram em sua nuca, nossos lábios se tocaram, minha língua explorava cada canto de sua boca em um ritmo indecente. Quando me animei, senti sua mão segurar meu braço de um jeito firme. Descolei nossas bocas e olhei para ele curiosa, então ouço ele dizer:

- Pode se retirar.

Olho incrédula para ele, sem entender o porquê do nada ele separou o beijo e nem me disse seu nome. Acabei deixando isso pra lá, o sol já estava nascendo e eu precisava dormir para curar a ressaca. Suspirei e saí de cima do seu colo, falei bem tranquila:

- Você não vai querer saber meu nome? Nem mesmo o meu telefone?

O homem misterioso olhou para mim e sorriu. Um sorriso diferente, um tanto vulgar, não sou muito boa em decifrar sorrisos. Ele finalizou dizendo:

- Não preciso, aliás, tem um carro esperando você na entrada.

Por mais absurdo que seja, eu não dei muita bola pra isso. Talvez ele tenha impotência sexual, não sei, também não estou a fim de saber mais. Segui meu caminho para fora, agora eu não achava mais esse lugar bonito, se parar para olhar em uma outra perspectiva, é bem sombrio. As escolhas de cores, os lagos decorativos sem sentido na entrada, e os vidros das janelas enganosos, nos dando a impressão de que estamos vendo o interior da mansão. Mas é totalmente diferente lá dentro. Eu só quero sair daqui, e nunca mais voltar.

Dito e feito, havia um carro me esperando na porta. Não sabia qual era o modelo, mas com certeza devia ser bem caro. Ao mesmo tempo ele era discreto, preto. Nem consegui ver o rosto do motorista, ele fechou a janelinha eletrônica afim de nós separar e não ter nenhum contato. Aquilo tudo era muito estranho, tive a impressão de ver o interior do carro plastificado, não sei se era a bebida fazendo efeito ou a pura realidade.

Durante o caminho, passei a sentir dor no maxilar, uma queimadura interna. Tentei olhar através do vidro mas ele não refletia, que carro esquisito. Procurei meu celular dentro da bolsa, mas não o achei, respirei fundo e comecei a pensar no pior.

Não fazia sentido isso, logo hoje perdi meu celular, sendo eu a pessoa mais cuidadosa com as minhas coisas? Pensamentos de sequestro me rodeavam, por conta desse maldito carro que me impedia de ver o rosto do motorista. A dor no meu maxilar estava mais forte, minha ansiedade não parava de me atormentar. Minhas pernas muito agitadas, junto com a forte palpitação e dor no peito. Tentei buscar ar e falhei miseravelmente, decidi chamar a atenção do motorista. Bati diversas vezes na janela de vidro, dizendo:

- Onde nós estamos?? Eu não estou bem, pode parar o carro e me deixar sair???

Não obtive resposta. Tudo tão inquieto, só escutava meu coração acelerado, se eu não morresse de medo, provavelmente um ataque cardíaco daria um jeito de resolver. Eu sempre fui muito medrosa, apesar de às vezes não pensar muito na hora de agir, eu costumo sofrer muito com as consequências de meus atos. Mas deve ser esse o significado da minha vida, fazer merda e depois sofrer até enlouquecer.

Senti algo cair na minha boca, olhei para cima e não tinha nada, logo me dei conta de que era interno. Com cuidado enfiei dois dedo na boca, procurando o que tinha caído. Peguei um pedaço de algo, não sabia o que era, tinha uma textura macia e era muito escorregadia. Quando olhei, meu coração estava completamente disparado, um pedaço da minha boca tinha caído. Tentei gritar mas não parava de sangrar. O sangue se juntou a saliva, não me aguentei ao ver e vomitei no banco ao lado. Foi tudo tão rápido que nem senti vontade de chorar, mas o desespero de ver pedaços da minha boca caindo era maior. Depois de uns minutos, a dor não estava mais tão forte, acho que acabei me acostumando à extrema agonia. Desisti de bater na janela, o cara não ia abrir nem me ajudar, armaram para mim. Só me restava aceitar. Quando parei de insistir, o carro parou. Um homem com uma máscara completamente preta abriu a porta e amarrou uma fita preta na minha boca, ou no que sobrou dela, já que a cada movimento um pedaço se desfazia. Ele me algemou e me arrastou por todo o trajeto, como eu suspeitava, aquela não era a minha casa, e sim a mansão bizarra. Tentei gritar e me debater, mas o cara era mais forte rápido que eu. Nesse momento, as lágrimas surgiram para aliviar um pouco a minha dor, no início deu certo, mas depois, chorar também doía. Aos poucos fui me transformando em um cadáver ambulante, não sei o que me fez ficar assim, mas fazia efeito rápido demais.

O homem misterioso estava na cozinha, fui arrastada para lá. Me algemaram em uma cadeira presa ao chão, não prestei muita atenção na cozinha, pois não tinha quase nada nela. Só uma geladeira gigante, parecia mais um freezer de frigorífico. O homem misterioso estava no outro lado da mesa, com uma faca na mão picando uma carne estranha. Tinha uma cor vermelho escuro, ele cortava com a maior tranquilidade, como se nem importasse com a minha presença ali. Eu o observei mais um pouco, e ele largou a faca ao lado da carne. Andou devagar até o freezer gigante e o abriu.

Eu gritei, gritei de desespero quando vi os pedaços de corpos lá dentro. Enfiados em ganchos, semelhantes a um frigorífico de animal, só que era carne humana. O homem mistériso pegou uma perna, parecia ser de mulher. Jogou em cima da mesa e falou:

- Você ainda quer saber qual é o meu nome?

Com muito pavor, tentei retirar meus braços das algemas, não estava prestando atenção em suas palavras, nada do que ele dissesse iria me ajudar naquele momento. Gritei para ele:

- ME SOLTA!

Sangue e saliva se esguicharam na mesa quando falei, o homem misterioso deu uma risadinha e falou enquanto andava calmamente até um armário ao lado do fogão.

- Você não quer saber o que está fazendo você perder sua boca? Ah não tem problema, eu lhe digo. É uma bactéria, felizmente eu tenho imunidade a ela, mas algumas pessoas não tem essa sorte...

Ele abriu o armário, lá dentro tinham várias facas de diferentes tipos, seus dedos passaram por cada lâmina, mas ele parou em uma diferente. Não era uma faca, e sim uma foice. Ele retirou a foice do lugar, ela tinha uns desenhos estranhos, e uma cor vermelha na ponta. Por mais que eu tentasse gritar, ninguém iria me ouvir, apenas ele.

Então, eu disse minhas últimas palavras:

-V-vai ss-e fuder.

Com seu sorriso doentio, o homem misterioso chegou mais perto de mim e disse:

- Na próxima vez, com certeza não vai ter uma mas...certifique-se de que o seu vinho está na temperatura certa.

Um barulho de algo afiado soou. Fora da mansão, o dia clareava e as pessoas acordavam para começar mais um dia.

Comentários

Anônimo
Gostei desse psicopata, ele é uma versão do Christian Grey com o Jeffrey Dahmer kkk
30/08/2020
Anônimo
Um cara gostosão e q sabia sobre vinhos... tava mto bom p ser vdd. Babaca.
22/09/2020
Anônimo
Enganou direitinho kkkk
25/09/2020
Anônimo
O cara era canibal meu deus kkk
01/10/2020
Anônimo
Coitada da moça
02/10/2020