Aviso de Misericórdia

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Há 2 meses

Não me considero uma pessoa ruim, só sinto que não me encaixo nos padrões impostos pela sociedade. Não que isso seja um problema para mim, a questão é que no padrão ou não, eu gosto da maneira em que vivo. Se eu for dar ouvidos a alguém, com toda certeza eu seria chamado de esquisito ou até mesmo doente mental. Porém eu não me importo com isso, se olhar com outra perspectiva talvez possa ser um pouco ofensivo, mas o que não é ofensivo nos dias de hoje? Quase nada, se você respirar demais pode aparecer alguém do seu lado o acusando de roubar todo o oxigênio que poderia estar sendo respirado por algum necessitado. De fato é um pouco chato com a pessoa que recebe essas broncas virtuais, mas para quem faz, é muito satisfatório. A sensação é de tamanha superioridade, como se o receptor fosse um mero plebeu, já eu um membro da côrte real. É isso o que eu mais gosto da internet, as sensações e o prazer em julgar e massacrar os que se fazem de coitadinho/inocente, ninguém é totalmente inocente quando se trata redes sociais, todos somos frutos do mesmo propósito: o mais forte ser superior ao mais fraco, em todos os sentidos. Carrego comigo essa filosofia de vida, ser superior e ponto final, minha realidade é diferente das outras pessoas e eu tô pouco me ferrando pra elas. O benefício próprio é uma obra de arte, precisa ser relembrada e sempre prestigiada, até porquê não são todos que conseguem essa proeza, eu sou a porra do rei que a internet precisa.

Eu não preciso de milhares de seguidores para ser aclamado rei, só escolher o público certo e pronto, beijariam até seus pés se não fosse a tela do celular para atrapalhar. É tudo questão de escolhas, às vezes é preciso um pouco de apelação, mas depois de um tempo praticando, a apelação se torna a forma mais fácil para se conseguir algo e com certeza a mais divertida. Tweets, fóruns, memes, mensagens, são tantas opções que meu tempo é totalmente ofuscado por isso, estar conectado é a única forma de eu me sentir vivo e útil para o meu país. O tempo é meu aliado, não importa o momento, estamos sempre juntos. A cada segundo, minuto e hora eu sou alimentado por prazer, não tenho culpa de ser assim, como dizia Thomas Hobbes "O homem é o lobo do homem", eu só sou mais um predador fazendo minha caçada em uma terrível manada de veado. É uma mistura de sensações que se sobressaem dentro do meu peito, o frio na barriga da constante emoção ao esperar a resposta, e por fim o êxtase ao ler aquela mensagem que tanto esperava, recheada de ódio e palavreado mal intencionado. Eu sou o rei da internet, e o mais legal disso tudo, é que como todo rei, eu tenho os meus aliados.

Não vejo o tempo passar, meus 3 monitores ficam ligados 24 horas, preciso fazer check-up toda semana, para verificar se tem algum problema no sistema ou se ele ficou sobrecarregado. Porém isso nunca acontece, porque meu trabalho paga por qualquer conserto quando se trata os meus computadores, até porque eles precisam das minhas belezinhas funcionando para poder continuar com os seus joguinhos sujos. Eu sou hacker, do nível que acoberta muita merda da polícia, meus clientes são pessoas iguais a mim, mesmo pensamento e ocupações. A maioria deles tem como se diz..."vidas secretas", pais normais durante o dia, mas a noite se transformam em maníacos que gostam de observar a vida alheia através da câmera de seus telefones celulares, já outros preferem manter-se em completo anonimato, eles entregam seus pedidos dentro da embalagem de papelão. É uma boa maneira de ser completamente invisível aos olhos de policiais e curiosos, ninguém vai suspeitar do cara viciado em pizza de pepperoni. Não sei quando foi a última vez em que "arrumei" meu apartamento, na verdade eu apenas joguei algumas embalagens no triturador, depois disso levei o resto dentro de um saco preto para a lixeira, são raras as vezes em que saio para ver a luz do sol, não faço questão de nada fora de casa, minha única e melhor companhia é estar conectado.

Passei grande parte da madrugada observando discussões em diferentes fóruns sobre política, deixei de usar o computador para deitar um pouco, mas me sentia cansado, apesar de estar super animado para saber o veredito final da discussão, se vai terminar com um "tudo bem, respeito sua opinião" ou um "vai se foder, nazista de merda", entretanto eu já sabia que seria a última opção. Minhas pálpebras estavam pesadas, visualizei a tela do celular, 3% de bateria. Pensei em levantar para tomar um energético, mas senti uma saudade muito grande de dormir, afinal faz tempo que não tenho uma boa "noite" de sono. Por fim, voltei a me deitar, já tinha me decidido que um cochilo não faz mal.

Ouço meu telefone vibrar, resmunguei passando a mão na cama tentando encontrar ele, quando o achei demorei um pouco para entender o que foi a vibração. Era uma mensagem nova, minha visão não estava muito boa por conta do brilho, estava no mínimo o celular já ia desligar, mas por sorte eu consegui ler o que dizia a mensagem. Apertei na mensagem e forcei as vistas, ela dizia:

"Não durma e coloque o celular para carregar."

Fui verificar o número e não tinha nada lá, é como se nada tivesse me mandado uma mensagem. Era algo incomum, mas eu não me importava com aquilo, já estava espantado com todas as esquisitices dos meus clientes, deve ser só mais um tentando me fazer um pedido, mas decido deixar isso para amanhã. Mal sabia eu a merda que ia acontecer depois.

Peguei no sono rápido, questão de segundos, meu sono é extremamente pesado, mas nesse mesmo dia alguma coisa chamou a minha atenção. Um copo caiu no chão. Acordei ainda sonolento, olhei de relance dos lados mas estava tudo bem, ou eu que não percebi nada de errado. Bufei com mau humor e me inclinei para levantar, minha visão foi dominada com a figura de um homem em cima da minha cama. Era realmente um homem, dava para ver pela silueta da pessoa. O cara usava uma roupa toda preta, o que dificultou a minha visão no início, mas fui pego de surpresa quando vi sua máscara. Ele usava uma máscara branca bizarra, completamente sem expressão, sua cabeça estava inclinada como se prestasse atenção em mim. Fiz menção de levantar mas o homem foi mais rápido e se jogou em cima de mim, colocando seu peso em meu abdômen, se eu tivesse uns quilos a menos conseguiria lutar com ele, mas essa é a parte ruim de estar acima do peso, ele não precisa lutar comigo. Meus batimentos cardíacos aumentaram, isso só acontece em duas situações: quando estou muito ansioso ou morrendo de medo. Essa é a primeira vez que eu tenho certeza que é a última opção, o medo tá tomando conta do meu corpo, se isso for uma pegadinha, é de fato a mais sem graça. Falei com um tom de desespero, a agonia de não saber quem era esse cara ia acabar me matando.

- Quem é você porra?!

O homem com sua máscara assustadora levantou um braço, me assustei achando que ele tinha uma faca na mão mas não era nada. Ele continuou observando atentamente meus olhos, minha respiração ofegante com certeza ele podia sentir de tão perto nós dois estávamos. Seu braço direito fez um movimento calmo em direção às suas costas, balancei a cabeça violentamente ao ver seus movimentos. Ouço ele falar baixinho, tão baixo que tive que me acalmar durante uns segundos para poder escutar, ele disse:

- Eu mandei você não dormir e carregar o celular.

Os próximos segundos foram os mais intensos de toda a minha vida, e infelizmente os meus momentos finais. Ele tirou das costas uma linha quase invisível, mas visivelmente mortal. Pressionou a linha em meu pescoço, senti uma terrível dor junto ao sangue que transbordava em minha boca. Em meus últimos momentos de vida, consegui ver seus olhos, frios e maléficos por trás da máscara. Esse era o meu fim.

Alguns dias depois do assassinato, na delegacia local um telefonema intrigante chamou a atenção de 3 policiais. Ambos foram até o prédio verificar, segundo um dos moradores, o apartamento 313 estava "com um puta cheiro podre". Logo após chegarem no prédio, os policiais seguiram até o tal apartamento, o chefe dos três conseguiu a chave reserva com a proprietária do imóvel, uma mulher que usava uma roupa um tanto vulgar, os policiais se olharam ao entender o quão merda devem ser o lugar. O chefe que abriu a porta, o restante dos policiais ficaram a princípio lá fora impedindo de algum morador curioso bisbilhotar e atrapalhar o trabalho da polícia.

O policial chefe sentiu o tão forte cheiro podre, e de fato era aquilo que tanto pensou que fosse. O apartamento era bem pequeno, a sala juntou com o quarto e a cozinha ao lado, basicamente o único cômodo diferente era o banheiro que ficava ao lado da geladeira do sujeito. Nem um pouco higiênico, olhei ao redor e vi muita coisa nojenta acumulada, roupas sujas, comidas (a maioria pizzas) estragadas, garrafas de diversos energéticos espalhados por todo o local da sala/quarto. Perto da cama tinha um set-up de computadores, mas a parte a estranha é que não havia computador nenhum ali, nem mesmo o resto de um. Terminei de tirar as fotos de lá e fui para o local do crime. A cama ligeiramente grande com um cadáver de um homem obeso, a cabeça da vítima estava arrancada alguns centímetros, apesar de ter sido uma morte violenta, o assassino não fez tanto estrago na hora de cortar. Puxou a câmera e fotografou o estado do corpo, da cabeça cortada aos pés. Os outros policiais entraram no apartamento, e um silêncio mortal se instalou no ambiente. Não sei se foi a aparência do cadáver está péssima ou o fedor de carne apodrecendo que fez um dos policiais sair às pressas, acho que foi muito pesado para ele. O policial chefe fez algumas anotações e ligou para a central e pediu para que umas das atendentes ligasse para o número da vítima, poderia ter alguma pista de quem era o assassino. Poucos minutos depois o celular do policial vibrou, era mensagem da central. Dizia:

"O celular está descarregado ou sem o chip, não consegui fazer a ligação".

O policial começou a fazer a vistoria no quarto, seu outro parceiro ajudou a procurar. Depois de um tempo vasculhando, o parceiro encontrou algo suspeito e chamou a atenção do chefe, aparentemente tinha algo suspeito dentro da boca do cadáver. O chefe se aproximou para olhar a boca do cadáver e de fato tinha algo estranho, era o que estavam procurando, o celular. O chefe colocou uma luva e pegou o celular, guardou dentro de um saco plástico como prova. Eles se olharam quando terminaram o trabalho, depois de um tempo o chefe falou:

- É...acho que esse aqui não tinha uma reputação muito boa na internet.

O turno dos três policiais acabou, eles isolaram o apartamento e esperaram a perícia criminal chegar para fazer seu trabalho, depois daquele dia, aquele prédio nunca mais foi o mesmo.

Comentários

Anônimo
Arrasou, vivii
12/08/2020
Anônimo
A história em si ficou perfeita uma leitura realmente estimulante , recomendo super essa obra
12/08/2020
Anônimo
Rei de tudo.
12/08/2020
Anônimo
Arrepiei toda... gostei.
12/08/2020
Anônimo
Adoreeei,o texto tem uma história que prende o leitor,muito bem desenvolvida,e chega a ser prazerosa a leitura!!! Grande obra de uma grande artista!
12/08/2020
Anônimo
Muito boa!!
13/08/2020
Anônimo
Intenso.
13/08/2020
Anônimo
Minha nossa, eu estou impressionada
15/08/2020
Anônimo
Deu medo
27/08/2020
Anônimo
Vou pensar duas vezes antes de postar merda na internet. Eu tô chocada. Q narrativa m a r a v i l h o s a
22/09/2020
Anônimo
Vicky fez um otimo trabalho nesse conto, gostei de ver o babaca morrendo kkkkk
24/09/2020
Anônimo
Agradeço pelos comentários~ Black :3
24/09/2020
Anônimo
Idiotas como esse merecem esse tratamento, morreu por falar demais.
01/10/2020