Quando você está realmente viciado em algo, é inevitável que cometa alguns furtos. Eu não queria fazer isso em casa, ou com pessoas que gosto. Enquanto fumava as pedras que comprei com o furto anterior pensava nas possíveis vitimas. Há tempos que não existia um prazer, eu queria fumar imediatamente, enquanto fumava queria que acabasse, quando acabava eu queria continuar fumando e pegar logo outra. Era uma merda. Mas o que eu podia fazer? Ficar sem e vomitar, alucinar, ter espasmos e convulsões? Isso traria sofrimento demais para minha família. Eu não queria que eles precisassem me cuidar na doença que eu causei em mim mesmo. 

Não há portas reais de entradas para drogas, há curiosidade e hábitos. Meu pai fumava, aos treze decidi roubar um cigarro dele e provar. Me senti livre. Ou não seria livre o termo?  Me senti foda. Sabe? Como aqueles heróis de filme de ação ou astros do rock. Eu não era mais uma pessoa comum que pensava na janta, o que ia estudar, o que precisava limpar na casa. Não, não eu. Eu fumava, eu estava um nível acima. Eu era muito louco.

Depois da aula não muito depois disso meus amigos iam fumar um baseado, aquilo era ainda melhor: era ilegal! Eu era um rebelde, me senti ainda mais louco. Estava ainda mais próximo das pessoas que eu admirava. Eu até me admirava. O efeito da droga era bom, mas não era sobre isso. Era algo sobre usar. Eu era um fora da lei.

Aos dezesseis fui na casa de uns amigos beber e fumar narguilé. A principio era isso que faríamos a noite toda, mas quando ficamos bêbados começamos a chamar todas as garotas que estavam online para chegar lá. Queríamos transar, éramos todos quase virgens. Que garotas iriam sair de casa as duas da manhã para se encontrar com um monte de garotos? As loucas, claro!

Larissa, Rebecca e Guta chegaram na casa do meu amigo, era quase três da manhã, Júlio e César já tinham vomitado e estavam deletados. Restava eu e o Antônio. Estávamos meio morgados, nada demais, mas elas perceberam e tinham exatamente o que precisávamos: cocaína. Cheirei e transei com Rebecca, quando voltei Antônio estava preocupado com tudo e achava que qualquer barulho era barulho demais então eu fui embora com as três. Cheiramos pelas ruas, vi o sol nascer, fumando um baseado e ouvindo  Daft Punk em um celular.

Voltei para casa eram dez horas, meus pais já tinham saído trabalhar, entrei peguei a água da geladeira e levei para o quarto, deitei na cama e não dormi até às duas da tarde. Amei a sensação, tanto da droga quanto de usar uma droga pesada proibida. Namorei com Rebecca e não preciso falar que usávamos sempre que podíamos. Não muito depois disso comecei a pegar os dinheiros que achava pela casa para isso, o que não foi suficiente, então comecei a trabalhar.

Depois de três anos de namoro fomos no nosso traficante e ele não tinha pó, só pedra. Rebecca falou que nunca fumaria pedra, ela tinha um primo viciado e isso era o fim. Coisa de viciado de rua e etc. Eu não queria ficar sóbrio e comprei uma para experimentar, brigamos e terminamos ali. Fumei a pedra sozinho na rua, em uma lata que achei perto da casa do trafica. Já haviam me falado como fumava em lata, e deu certo. O efeito da droga e a sensação de usa-la eram ainda melhores. Eu era muito louco mesmo. Nunca mais voltei com a Rebecca, mas nunca deixei a pedra.

Isso foi há seis meses atrás, agora estava precisando de dinheiro pra pedra e tinha perdido o emprego por justa causa após roubar a carteira de um colega de trabalho. Bom, pelo menos eu sabia de uma pessoa que ninguém gostava. Claudete, a velha gorda dona do açougue do bairro. Era sempre grossa com todos que iam lá. Não vendia fiado. Vendia mais caro depois das seis e sempre superfaturava quando você comprava coisas demais para lembrar o preço de todas. Um nojo de mulher. Seria ela.

Esperei pacientemente anoitecer, observando o açougue de longe. Quando ela fechou as portas e apagou as luzes me aproximei e esperei as luzes do banheiro se acender. Ela sempre falava que precisava tomar banho depois do trabalho, era meu momento. 

Peguei uma pedra solta do calçamento que era de três quadras a caminho do centro, mas que trouxe comigo. Atirei-a contra a vitrine e entrei para levar tudo que tinha no caixa. Apenas um problema não foi previsto: como abrir a caixa registradora? Ela tinha chave. Sai lá fora, peguei a pedra de calçamento novamente e ergui-a com os dois braços para destruir o caixa até conseguir pegar a porra do dinheiro de lá. Senti uma pancada na nuca e apaguei antes de atingir o chão.

Acordei com o barulho de uma faca sendo afiada. Eu estava com os braços e pernas atados e numa sala mal iluminada e fria. Podia ver a frente os cabelos crespos e ruivos de Claudete, depois vi a faca que era realmente grande, Claudete assobiava a música que tocava baixo no rádio ao seu lado. Era alguma MPB melosa, algo que minha mãe amaria. Observando nosso redor, pude ver diversos corpos de bois cortados ao meio pendurados em ganchos. 

Tinha algo na minha boca eu não conseguia nem engolir a saliva direita, ou sequer fecha-la. Estava atordoado da pancada, uma dor forte na nuca. Não realmente conseguia pensar.

- Então você acha que pode me roubar seu viciado? Você deve ser uma vergonha para sua família. Conheço sua mãe, ela é uma pessoa tão boa, é assim que você retribui tudo que seus pais fizeram para você? Bom, eu vou acabar com o problema.

Eu não podia responder, no máximo resmungava, mas sabia que eu ia morrer. Podia sentir como se sente fome, ou cansaço. Eu sentia que ia morrer. Era inevitável. Estava acontecendo e eu só podia deixar acontecer, nada a mais.

- Bem, você sabe? Eu corto carne aqui todos os dias, vou nos interiores e mato os animais eu mesma sempre que posso. Eu tenho um método especial, qual furo eles e deixo sangra-los até a morte. Poucos criadores deixam eu fazer isso pelo barulho e por sentirem pena do animal agonizando por horas, mas a carne fica muito melhor. 

Pensei que isso explicava esse negócio em minha boca, eu iria morrer lentamente agonizado, só não sabia o que ela faria com meu corpo, mas que diferença isso faria? Era meu fim.

- Mas descobri um método ainda melhor. Você descarna o animal vivo, assim a carne fica perfeita. - Depois de dizer isso ela acertou com a faca na minha perna, um palmo acima do joelho. Foi um corte perfeito. Desmaiei. Acordei já estava sem braços ou pernas. 

- Olha só quem acordou! – exclamou ela. – Guardei um pedaço para você. Tirou a mordaça e enfiou uma garfada de carne em minha boca. Não mastiguei fiquei com aquilo na boca a observando. Ela trouxe uma travessa com meu braço, muito da carne comida. Estava decorado com cebolas e batatas. Vomitei tudo que tinha em mim. 

- Bem, você que está perdendo. Ela disse tirando um pedaço do meu braço e comendo. Você está delicioso. Eu achei que não ficaria tão bom por causa do consumo de drogas, mas está perfeito. Deixei marinando por quatro horas na salmoura com vinho, alecrim, alho, cebola e sal. Tirei botei assar em forno a lenha. Está perfeito. Muito bom mesmo.

Desmaiei novamente.