As vozes em minha cabeça eram algo que não me deixava dormir à noite, e por mais que já tivesse meus 12 anos e meio de idade isso ainda me perturbava quase todos os dias. Elas não me dizem coisas ruins, como palavrões ou querendo que eu me mate, são apenas palavras confusas, “por quê?”, “para onde vão?”, “jamais perdoar”, coisas desse tipo.

Tudo começou quando tinha sete anos, com apenas sussurros leves, mas que me deixavam apavorado, afinal, eu era uma criança ainda e tinha vários medos: escuro, altura, monstros, fantasmas, e acredite isso não ajudava nem um pouco.

Quando eu as ouvia, sussurros leves e sem nexo, corria para minha mãe aonde ela estivesse, sempre chorando e tremendo de medo. Ela me consolava e dizia ser apenas coisa da minha cabeça, mas eu sabia o quão real isso era. Os sussurros foram ficando cada vez mais intensos e frequentes, então, meus pais decidiram me levar em um psicólogo para tentar amenizar a situação, mas isso foi tão ruim para mim quanto para meus pais.

O psicólogo começou a interrogá-los sobre eu ter passado por algum trauma, acidente, maus tratos ou problemas mentais. Com razão, eles ficaram tremendamente ofendidos, pagaram a consulta e voltamos para casa com mais perguntas do que respostas.

O tempo foi passando, fui crescendo e, junto comigo, as vozes foram ficando mais nítidas e ganhando formas. Meus nove anos de idade não são algo tão interessante e que goste de lembrar, pelo contrário, foi o ano que mais as vozes me perturbaram a ponto de eu quase enlouquecer. Os anos seguintes foram melhores, mas os pesadelos dos meus nove anos ficaram gravados em minha mente.

As vozes haviam ganhado uma proporção ainda maior e ficado constante durante o dia inteiro, só que não eram apenas vozes, mas também gritos que causavam fortes dores de cabeça. Elas gritavam pedindo por ajuda, dizendo que estava queimando, que não sabiam nadar, que iria doer. Eu não conseguia entender nada do que estava acontecendo comigo.

Fui a vários médicos, fiz várias tomografias e exames para ver o que diabos estava acontecendo de errado comigo, mas nada saía nos exames, e para eles tudo estava normal e em seu devido lugar. Tomava remédios para dormir e para as incessantes dores de cabeça. Eu já estava beirando a loucura quando, simplesmente do nada, elas pararam.

Acordei em uma manhã escutando apenas o cantar dos pássaros sobrevoando próximo à minha janela, o som dos carros na rua, a torradeira indicando que as torradas já estavam prontas. Era um misto de sons que não ouvia desde meus seis anos de idade e isso me deixou muito feliz. Mas antes que eu pudesse falar para meus pais, as vozes voltaram; porém estavam calmas, não havia gritos e nem lamentações. Agora eram somente interrogações, perguntas que não fazia ideia do por quê delas estarem sendo feitas.

Quando completei meus 11 anos, as coisas ficaram como estão agora, calmas e sem muito alarde. Confesso que já estou acostumado com elas e meio que me confortam quando estou triste ou decepcionado com algo. Mas algo aconteceu hoje que me deixou apavorado e com medo do que pudesse acontecer.

Simplesmente do nada uma das vozes chamou meu nome. Isso nunca tinha acontecido antes, nunca havia escutado nenhuma vez sequer elas chamarem pelo meu nome e isso me deixou apavorado. Procurei por todos os lados para ver se não era alguém, mas não havia ninguém.

Foi quando voltei a ouvir, uma voz suave e delicada chamou pelo meu nome, "Lucas... Lucas..." Então, fiz algo que nunca havia feito antes – a respondi. “Si... Sim. Quem é você?”, perguntei gaguejando e tentando manter meu alto controle. “Me ajude, Lucas. Me ajude!”, disse a voz com um ar de cansado.

Naquele momento, já não me importava mais com o que pudesse ouvir, teria que desvendar esse mistério que me perseguia há cinco anos. A voz novamente chamou pelo meu nome, então perguntei como poderia ajudar; “porão”, ela disse. Uma única palavra que fez meu coração palpitar mais forte do que o normal.

Peguei uma lanterna e desci as escadas do porão de casa, algo que nunca gostei de fazer. Não gostava daquele lugar, era escuro e sombrio, tentava manter a maior distância possível. Talvez seja por isso meu nervosismo.

Quando cheguei embaixo, a voz novamente falou uma só palavra: “cômoda”. Olhei e vi uma cômoda antiga ao longe encostada na parede. Fui até lá e vi que havia uma pequena porta atrás dela, empurrei com dificuldade mas consegui tirá-la de seu lugar revelando a porta pequena que ali estava escondida. Abri e logo senti um forte odor lá dentro, havia ali um cheiro de morte.

Criei coragem e entrei. Havia vários corpos espalhados no chão sendo cobertos por panos, todos enfileirados em uma sincronia única. A ânsia de vômito veio e me consumiu fazendo-me vomitar todo o almoço. Havia um total de oito corpos ali, todos com uma pequena placa em seus peitos com nomes e datas.

“João, 19/02/1917”; “Ana, 08/06/1930”; “Guilherme, 10/10/1943”; “Beatriz, 12/01/1956”; “Sophia, 09/12/1969”; “Arthur, 27/07/1982”; “Yasmin, 18/09/1995”; "Victor, 30/05/2008”.

Todos com diferença de 13 anos. A voz novamente falou, “gaveta, cômoda”. Saí e abri a gaveta e peguei um documento, um tipo de contrato que deveria ser assinado todas as vezes que completasse um ciclo de 13 anos, tudo em troca de prosperidade e saúde.

Li tudo que havia ali e entendi o porquê das vozes todos esses anos. Eram meus irmãos que estavam atrás daquela pequena porta, todos mortos ao completar 13 anos de idade. Deixei a lanterna cair assim que ouvi a porta da frente abrir e meus pais entrarem procurando por mim. Meus olhos se encheram de lágrimas e o desespero tomou conta de mim, eu sabia que eles sabiam onde eu estava. Me armei com uma barra de ferro esperando apenas a porta do porão se abrir, e foi isso que aconteceu; ela foi abrindo lentamente e, à medida em que eles desciam, o porão ia se iluminando com a chama da vela que estava no meu bolo de aniversário.

Com uma enorme foice na mão e vestidos com um manto negro, meus pais olharam para mim e disseram: “Feliz Aniversário, Dean."