As paredes falam comigo

comment7visibility215
Há 3 meses

Eu costumo andar de bicicleta no final da tarde com os meus amigos, mas em um dia específico fui sozinho, precisava investigar uma coisa que chamou a minha atenção uns dias atrás. O caminho é o de sempre, seguindo a avenida principal, vira a direita e segue em direção a um beco sem saída. O prédio abandonado é a coisa que me chamou a atenção, sua localização é quase perfeita para cometer um crime e ninguém ficar sabendo. O beco é um pouco estreito, um carro passaria ali com muito esforço (com certeza sairia todo arranhado), o prédio tem ao todo 5 andares, mas olhando de perto ele parece ser menor. As janelas são pequenas, alguns andares estão interditados por conta do incêndio. Há uma placa ao lado da porta, avisando sobre o risco de desabamento, mas o que mais me assusta são a quantidade de ratos que entram e saem do prédio. Nojento, só de olhar me traz uma sensação esquisita, mas prefiro deixar os ratos fazerem seu caminho, e eu faço o meu. Decidi entrar no prédio, ou pelo menos tentar chegar em algum andar, se caso eu encontrar algo vivo lá dentro só pode ser duas coisas: drogados ou ratos. Os ratos eu tenho certeza de que existem, até porquê já dei de cara com uns antes mesmo de entrar, mas hoje minha curiosidade está falando mais alto, eu preciso saber o que tem dentro do prédio.

Coloquei minha bicicleta pronta para a fuga, e olhei no meu relógio que horas eram, exatamente 18:30, eu tinha 20 minutos para poder explorar, ou quem iria cometer o crime era a minha mãe, e não estou afim de ficar 1 semana sem o meu Playstation 5. Entrei pela porta da frente, não foi difícil de abrir, a fechadura estava muito danificada, só precisei de uma pedra para finalizar e abrir. O local onde era para ser a recepção está todo danificado, há vidros para todos os lados e restos de móveis quebrados. Não tinha nada de interessante, então fui direto para a escada, havia partes do piso superior caídos na escada, tive que subir por esses escombros para chegar no 2° andar. Por um momento me senti como a Ellie em The last of us, só que aqui eu não sabia o que iria enfrentar, já Ela sabia. O 2° andar não estava tão danificado, deve ser porque o incêndio foi iniciado em algum lugar do 5° andar, não me lembro exato o motivo. Minha mãe presenciou o incêndio de perto, ela era adolescente na época e segundo ela o prédio sempre teve essa aparência macabra. Só que naquela época as pessoas não se importavam com a aparência de suas moradias, já era um privilégio ter um lar. Tentei abrir as portas e não consegui, logo me arrependi de não ter trago a pedra da salvação, mas eu que não ia voltar lá embaixo pra buscar, é melhor seguir em frente.

Novamente a escada está danificada, nesse ritmo vou ficar sarado de tanto subir concreto quebrado, já estou começando a me cansar. O 3° andar não tá com uma aparência muito boa, os destroços estão jogados por todos os lados, mas a porta parece emperrada por algo, não consigo ver.

Algo me diz que essa minha aventura não está dando certo, tudo que vi até agora foram uns ratos e muito concreto quebrado, não foi pra isso que eu vim, mas eu também não sei ao certo o porquê que vim, preciso descobrir. Subi para o 4° andar, comecei a sentir uma sensação diferente, não sei explicar o que é, só sei que não é boa. Tinha um cheiro forte, parecia produto de limpeza, ou não... Ah, enxofre! Me lembro de sentir esse cheiro no laboratório de ciências do colégio, me era familiar. Esse fedor de enxofre já estava me fazendo ficar com dor de cabeça, então me apressei para ir ao 5° e último andar.

Fiquei um pouco sem ar quando terminei de subir, esse foi de longe o andar mais difícil de escalar. O cheiro de enxofre tava ainda mais forte, por conta disso, comecei a ter dor de cabeça. Droga, como eu ia explicar isso pra mãe? Ah, que se dane, vou dar um fora daqui, pensei.

Quando eu ia pular o resto da escada quebrada, ouço um som de uma porta se abrindo. Nesse momento meu corpo se arrepiou todo, fechei bem as mãos para controlar o nervosismo. Mano, que porra é essa? pensei.

Me virei e levantei, talvez o vento tenha aberto a porta, já que eu não tentei abri-la por conta do forte odor de enxofre. Fui andando devagar até a abertura da porta, mas fui surpreendido com um grito. Não era um simples grito, mas um grito agonizante, o susto foi tão grande que me desequilibrei e caí no chão.

Devo ter apagado por uns segundos, tentei abrir os olhos e senti um calor imenso ao meu redor. Quando abri os olhos o que eu vi não parecia real, mas era, o prédio estava em chamas. Comecei a tossir por conta da fumaça, me desesperei tentando fugir daquele lugar. Fui correndo procurar o buraco na escada mas não encontrei, no lugar dele, a escada estava intacta e sem destroços. Mas não consegui reagir a essa loucura, pois as chamas estavam aumentando, e eu precisava sair de lá. Desci as escadas correndo, tive a impressão de ouvir o choro de uma mulher ao longe. Meu coração estava disparado junto a adrenalina, me sentia sufocado pela fumaça, era como se ela criasse braços e me abraçasse incessantemente apertado. Não sou de rezar como a minha mãe, mas naquele momento citei o nome de diversos anjos, alguns eu provavelmente inventei, só queria sair daquele prédio infernal.

Quando cheguei à recepção, tive a infeliz surpresa de encontrar a porta trancada. Olhei aos redores procurando algo para quebrar o vidro, mas não precisei, as próprias chamas explodiram o vidro. Alguns fragmentos de vidro foram lançados no meu rosto, tive a sorte de não ficar cego. Consegui abrir a porta e montar na bicicleta, depois desse dia, nunca mais ousei olhar para aquele prédio.

Existe algo no meu apartamento, é perverso e eu consigo sentir isso. Mas não sei de onde vem o barulho, é tão estranho, e ao mesmo tempo muito perturbador. Eles começam sempre às 23:30 da noite, no horário em que preciso dormir para conseguir acordar às 05:00 da manhã, o barulho se intensifica até o nascer do sol. Estou cansado demais para pensar no momento, o meu trabalho esgota 90% do meu tempo, ou é 100% já não sei mais, perdi a noção disso.

Ontem foi insuportável, os barulhos estavam tão altos que abafou os ruídos toleráveis da cidade grande. Por mais que eu abrisse as janelas, não conseguiria ouvir os carros lá fora ou mesmo as conversas enraivecidas das pessoas no trânsito. Era como se elas não existissem, um completo vazio. Esse é um dos poucos momentos em que eu ouço o silêncio, ele é mais fácil de lidar do que o barulho, me faz sentir como uma pessoa normal, em uma vida normal. Mas então eu me lembro do barulho insuportável dentro de casa, e toda vez sinto um leve arrepio, me alertando de que ele sempre estará comigo.

Meu corpo está se movimentando contra a minha vontade, minha sala de estar parece estranha, há fotos rasgadas no chão, mas não reconheço uma pessoa presente nelas, é uma mulher. Me sentei no sofá, mas logo me levantei pois estava desconfortável de sentar nele, hoje o dia tá mais estranho do que o normal, e eu não sei o significado disso.

Decidi tomar um pouco de café, a cafeína vai me ajudar a pensar melhor, não ligo de não conseguir dormir, já que tá sendo impossível dormir esses dias. O barulho, ele está ficando mais baixo, às vezes acho que estou ouvindo uma voz, mas eu não sei de onde ela vem, eu nunca sei. O café ficou pronto, me sento no chão perto da bancada, tenho uma sensação ruim quando chego perto dos meus móveis, não quero fazer parte disso, então prefiro me sentar no chão. Dou um gole no café, mas sou interrompido por um gosto amargo, está horrível, nem parece ser café. Cuspo no chão essa mistura horrenda, minha língua agora está com um gosto ruim, acho que o café estragou. Fiquei pensando nessa possibilidade, mas não fazia sentido pra mim, um café pode estragar do dia para o outro? E mudar totalmente seu gosto? Não sei, ontem o sabor estava normal e agora ficou desse jeito, acordei com o pé esquerdo hoje, pra piorar, estou sentindo uma forte dor no ombro esquerdo.

Deixei essa história do café pra lá, não estava nem um pouco interessado em saber com o que aconteceu com ele. Fui até meu quarto procurar um remédio para essa dor, olhei de relance e vi o relógio, parado no 23:30, esse horário me persegue. Puxei a gaveta da escrivaninha ao de minha cama, não sei o que aconteceu mas ela quebrou, caiu no chão espalhando todas as tralhas que lá dentro tinha. Ignorei os objetos inúteis caídos no chão, meu quarto estava uma zona e eu não me importava com isso. Peguei o vidrinho decorado com uma cruz vermelha, abri ele e pinguei 5 gotas na língua, esperava que essa dor passasse o mais rápido possível.

Estou ouvindo uma voz. Parei no corredor para tentar entender o que diz mas não consigo, é só um tanto de murmuro alto, não consigo entender o que diz, vou tentar dormir e esquecer isso.

Não consigo dormir. A voz recarregada de lamúria me assombra, se espalhando com o vento, eu sinto a maldição. Uma foto polaroide caiu sobre minhas mãos, suas bordas estavam queimadas e sujas de sangue, a fotografia me assustou. Uma mulher de cabelos ruivos estava caída sobre o chão, suas roupas estavam ensanguentadas e sua boca cheia de espuma. Em suas mãos, um vidrinho pequeno decorado com uma cruz vermelha, e dentro uma substância transparente.

Joguei a polaroide no chão, comecei a juntar todas as peças desse quebra cabeça infernal, essa mulher ruiva era minha esposa, e eu envenenei ela.

Me levantei da cama com muito esforço, minha cabeça parecia que estava prestes a explodir. Segurei com muita força a cabeceira da cama, minha visão estava ficando turva e meus pulmões se retorciam dentro de mim. Olhei ao redor procurando a porta do quarto, mas o que vi foi mais perturbador, o quarto estava em chamas.

A janela do quarto explodiu, estilhaços de vidro foram lançados em mim, gritei de dor, e tirei os pedaços de vidro do meu rosto. Agora estava insuportável de continuar, meu estômago ardia, era como ter um dragão furioso lá dentro.

Quando andava, senti um imenso ódio por ela, era algo inacreditável, a raiva estava me consumindo, era tudo culpa dela.

É TUDO CULPA SUA, VACA IMUNDA! EU MANDEI VOCÊ NÃO FALAR COM ELE!! -Eu gritava para os corredores do apartamento, as chamas ficaram azuis e pude ouvir um barulho alto nas paredes. Elas estavam abrindo buracos.

Me assustei com a cena, uma cabeça cadavérica ficou amostra nas rachaduras da parede, seus olhos eram brancos como a neve, sua língua bifurcada pingava uma gosma verde no chão, ela se tornou uma criatura horrenda.

Mais barulhos de buracos surgiram, dessa vez vindo da sala de estar.

Eu precisava fugir dali, estava morrendo de ódio por ela, mas não tinha chance nenhuma de conseguir vencê-la. Fui me segurando nos móveis para tentar chegar à porta, conseguia ver ela entreaberta, eu estava quase lá...quando ouvi barulhos de unhas arranhando o chão. Olhei para trás e vi os braços aos pedaços de minha ex amada, vindo em minha direção, tentei ir mais rápido mas não conseguia, a dor estava insuportável de aguentar. Não suportava o meu próprio corpo. Ela com certeza sabia disso, e estava se aproveitando do meu sofrimento, eu fazia parte do showzinho dessa vadia. Quando eu estava quase chegando na porta, ouvi a voz dela. Me tremi com suas palavras carregadas de fúria:

"Em uma noite fria você me assassinou, começou por minha língua e depois me desmembrou, seu ciúme obsessivo me traumatizou. Nos ossos da casa meu corpo ficou, agora às trevas contigo se alojou, e a ira e sofrimento para sempre se asilou"

Eu estava tão perto da porta, tive um leve sentimento de esperança, mas... não existe esperança para mim, nunca existiu. Desisti de tentar, esperei sua jogada final. Em poucos segundos fui arrastado de volta para o buraco na parede, gritei por muito tempo achando que alguém poderia me salvar, mas não existe salvação para mim, e nem pra ela.

Comentários

Anônimo
Gostei do final!
13/08/2020
Anônimo
Muito interessante como retratou o espírito da mulher vingativa!
27/08/2020
Anônimo
O plot-
30/08/2020
Anônimo
Q final foi esse??? Tô em choquee, mto bom
22/09/2020
Anônimo
Muito boa!
25/09/2020
Anônimo
Uh gostei das duas histórias sendo contadas, deu um contexto a mais!
01/10/2020
Anônimo
Imaginei os restos da mulher presos na parede, creepy
17/10/2020