Depois de oito anos trabalhando na exploração do Pré-Sal para a Pétrobras, e obrigando eu, minha mãe e minha irmã a se mudar para o Espírito Santo, meu pai decidiu voltar para sua cidade natal e visitar nossos avós paternos. Dois mil trezentos e setenta e oito quilômetros, mais ou menos vinte e oito horas de viagem para fazer uma visita. Ou seja, ficaremos provavelmente três dias dentro de um carro, parando apenas para dormir, comer e cagar. 

Eu não tinha uma playlist para três dias. Como vou saber o que gostarei de ouvir durante três dias? Eu não ouço a mesma coisa nem um dia inteiro. E se eu não quiser ouvir nada que eu selecionar? Imagina? Primeiras duas horas de viagem eu enjoo de todas as músicas que selecionei, o que farei no resto do trajeto? Ouvirei meu pai criticar minha escolha de ser ilustrador? Relembrar que nas minhas dez exposições vendi apenas três quadros e que minha únicas encomendas foram para a banda de metal dos meus amigos? Não, era melhor botar o máximo de músicas dos mais diversos gêneros que gostei em minha vida.

Sai do quarto com minha camiseta do twenty one pilots, snapback preto, calça jeans e vans preto. O que nas primeiras duas horas de viagem se relevaria um grande erro, pois o sol estava forte e passei um calor insuportável no carro. Mas neste momento eu não sabia disso e sai ouvindo o álbum ‘Brave New World’ meu favorito do Iron Maiden, para não precisar falar com ninguém, ainda mais ouvir minha mãe e irmã se opondo e reclamando inutilmente da viagem, eu havia entendido que estava destinado aquilo e era inútil lutar contra, era melhor seguir até meu destino fatídico.

Um fato interessante é que todos os postos que paramos para comer parecem variações do mesmo lugar. Os mesmos produtos nos mesmos locais, os banheiros próximos as mesmas coisas, as bebidas em freezers iguais, dispostas de maneira igual. Os lanches quentes como pasteis, risoles, coxinhas, torradas, bolos... Todos eram dos mesmos sabores, nos mesmos tamanhos, formatos e valores. O mesmo cheiro de sabonete líquido nos banheiros. Poderia ser um filme de terror, uma pessoa tentando sair daquele lugar e sempre entrando em outro que é basicamente o mesmo, só com outro nome.

Os hotéis seguem a mesma lógica. Chuveiros, camas, televisores, frigobares, quadros, armários... Todos basicamente iguais. Os cafés da manhã gratuitos também oferecem os mesmos pratos na mesma ordem, e todos os omeletes tem a mesma cor, cheiro e sabor. Os bolos são iguais, as mesmas coberturas nas mesmas ordens em todos aqueles lugares. É enlouquecedor. 

No terceiro dia você está implorando para encontrar qualquer coisa diferente para comer, ou a mesma coisa com um tempero diferente. Entrar num hotel e ter pelo menos uma cor diferente na parede. Se qualquer pessoa que precisa viajar initerruptamente para trabalho enlouquecer, se suicidar, se tornar assassino em série... Para mim é totalmente compreensível.

Minha mãe e irmã reclamavam a viagem inteira, eu não podia ouvi-las graças a música dos meus fones, e quando precisava eu aumentava o volume. Duas vezes meu pai parou o carro e realmente surtou com elas, o que deu um silêncio de pelo menos meia hora cada vez. 

Minha mãe tinha feito várias campanhas para marcas de roupa, era uma modelo conhecida regionalmente, ganhadora de meia dúzia de prêmios de beleza. Tentou ser estilista e abrir um ateliê de vestidos que estava falido muito antes de nos mudarmos, mas para ela era culpa do meu pai que aquilo não deu certo. Mesmo o lugar se mantendo quase que unicamente com o dinheiro dele desde a inauguração. Ela também não lidou muito bem com a idade e não ser mais cantada por todo e qualquer homem que a conhecesse, muitas vezes chorava na frente do espelho olhando para o seu corpo. Vivia em dietas, zumba, jump, vôlei... e claro odiava meus avós por serem fazendeiros, humildes e antiquados. 

Minha irmã era sua versão 2.0, era a modelo de Instagram. Dezenas de milhares de seguidores, recebendo roupas grátis de marcas, fazendo campanhas para pequenas empresas alternativas. Ensaios sensuais gratuitos, mas que rendem milhares de likes. Ela realmente se achava melhor que as outras pessoas, por ser popular na internet, bonita e estilosa. Estuda moda, está enchendo o saco do meu pai para abrir uma loja virtual de roupas e acessórios aesthetic, e meu pai provavelmente cederia logo, pois ela era a filhinha do papai. 

Quando chegamos na frente da fazenda dos nossos avós paternos, nada era diferente de como eu lembrava, passei minha infância ali, brincando com seus gatos e cachorros. Nadando pelado nos rio que passavam pela propriedade, atirando em latas com uma arma de chumbo de mais de cem anos. 

No metade da estrada de terra que leva até a casa encontramos nosso avô, ele estava muito mais velho e abatido, entretanto ao mesmo tempo igual. O bigode em perfeito estado, as roupas impecáveis. Trazia um buque de flores nas mãos.

- Oi pai. –  disse meu pai ao meu avô.

- Olá. Vocês já chegaram? Estava esperando vocês para amanhã. Eu já não te disse para se cuidar nessas estradas? Está cheio de loucos para lá e para cá. Tem que se cuidar. Andar de vagar...

- Sim. Sim, pai. – meu pai interrompeu.

- Bem, entrem que farei um chimarrão para vocês. Eu estava colhendo umas flores para surpreender a Dalva. Ela anda meio triste ultimamente, acho que ficamos muito sozinhos. Mas que bom que vieram, isso vai anima-la em dobro.

Meu pai estacionou a caminhonete em frente à casa, eu  e ele começamos a descarregar as malas. Meu avô entrou fazer o chimarrão. Minha irmã aproveitou as cores do entardecer e as árvores para tirar umas selfies. E minha mãe reclamava sem pausas para respirar.

- Que que custa eles botarem uma calçada aqui? Olha esse barro, vou ter que jogar todos meus calçados fora quando formos embora. E olha esses mosquitos? Não estou aqui a trinta segundos e já estão me comendo viva. Onde está o repelente? E que cheiro de podre é esse? Teu pai deve ter matado algum animal e jogado os restos para apodrecer aqui perto.

O cheiro realmente era terrível, certamente algum bicho estava morto em algum lugar. O resto ela que era chata mesmo, era uma fazenda o que ela esperava? Todavia algo realmente me intrigou. Nenhum cachorro, nenhum gato. Meus avós sempre tiveram dezenas deles aqui. Cadê eles?

- Jr, estaciona o carro ali do lado do trator enquanto levo as coisas na varanda. 

Peguei o carro e levei até lá. Aproveitei para sair pela porta dos fundos e admirar a vista da propriedade. Podia ver todo o vale dali. Ouvir o rio correndo ao fundo. Que lugar para se viver. Decidi tirar uma foto, mas pisei em algo que achei que era uma pedra e quase cai. Olhei para o chão e era um crânio que parecia ser de um gato. Peguei o na mão e ao que parecia tinha recebido uma martelada na cabeça. No interior é comum sacrificarem os animais, mas eram pelo menos trinta cadáveres empilhados ao lado. Eles tinham matado todos os animais domésticos.

Fui correndo para a casa perguntar o que havia acontecido. Qual era o motivo? Eles sempre amaram animais. Ouvi um grito, era minha mãe. Depois outro da minha irmã. Acelerei ainda mais o passo. Subi os degraus da escada de madeira que dava na área e o cheiro ficou realmente forte. Tive vontade de vomitar. Os gritos continuaram e minha mãe e irmã saíram rápido sala.

- Vamos embora agora. – gritaram correndo para o carro.

Entrei na sala e meu pai estava parado segurando as malas de frente para a cadeira de balanço, podia ver que alguém estava sentado lá. Pelo vulto parecia minha avó. O cheiro estava ainda pior. Fui ao seu lado.

- O que houve pai?

Antes dele me responder me virei e encarei a cadeira. Lá estava o cadáver da minha avó. Morta a sabe se lá quanto tempo. Seu cabelo estava arrumado e suas roupas limpas e engomadas. Mas sua pele estava seca, colada aos ossos. Três buracos na face onde antes estavam os olhos e o nariz. Tinha dedos faltando nas mãos e marcas de mordida em todas as partes descobertas do corpo. Isso explicava por que mataram os animais.