Onde morre a inocência de uma criança? Mais tarde descobrimos que não somos tão adultos porquê achamos ás revistas de pornografia dos nossos pais escondidas em baixo da cama ou um DVD erótico atrás do armário e descobrimos o que é sexo.

Se tudo isso começou em algum lugar foi naquela escola afastada da cidade. Entre as copas das árvores, caça de gafanhotos e libélulas... Se alguém estivesse olhando por nós naquele dia então a cruz pregada na parede da sala e as orações antes de começar a aula teriam algum sentido realmente divino.

Dias de brincadeiras como vários outros, algumas crianças iam-se ao serem buscadas nos carros de seus pais no final da tarde. O alaranjado do céu escarrava o primeiro deboche que sempre ameaça anoitecer e poucos de nós restavam no meio do matagal.

Vamos chama-la de Haru. Não lembra o verdadeiro nome dela em nada, mesmo que eu deseje que aquele dia nunca tivesse acontecido e que seu nome jamais seja esquecido, não é de meu querer tais exposições. Mas não é como se ainda não me assombrasse toda vez que o vento me traz de volta aqueles sussurros de lembranças ruins que deixa um gosto amargo na boca.

Haru olhava para o nada, para o horizonte vermelho e verde das folhas grossas e o final da tarde chamuscado. O rosto suado das brincadeiras e do clima quente. Me aproximei toda ``truqueira´´ na malandragem de criança como alguém que não quer nada e a chamei para brincar.

- Bora brincar Haru?

- Não dá

- E que tal caçar libélulas?

Ela me olha com aquele olhar elegante que só a menina mais popular da sala teria e me denota o silêncio. Torno a olhar o mesmo ponto que ela sem entender nada.

- Que foi menina?

- Ele me quer

- Ele quem, doida?

- ... – Talvez isso fosse um ato de coragem ou estupidez que só uma criança teria de se sacrificar por uma amizade. –

- ME LEVA NO LUGAR DELA!

- Idiota. – Ela me empurra –

Saio correndo pelo campinho de areia até o banheiro para lavar a ferida entreaberta que sangrava em meu joelho, deixo que arda e lavo a areia para fora de minha perna, o que ocasionalmente acaba molhando meu tênis. Vou ate o saguão branco pegar minha mochila para esperar meu pai na portaria e Haru sumiu, praguejei em palavreados que só crianças conhecem como ``boboca´´ e ``idiota´´. Até porque provavelmente ela já devia ter ido embora. Pois ela ia ver no dia seguinte, contaria tudo à diretora.

Minha mãe estacionou em frente a escola, disse tudo a ela e a mesma concordara comigo de contar a diretora.

No dia seguinte cheguei cedo, deixei minha bolsa na sala e corri até o ginásio para começar o aquecimento antes da aula. Ela não estava lá, procurei entre as varias cabeças e me esticava entre as varias caricaturas altas. Não deu sinais sequer no segundo tempo de aula.

Quando o sino badala várias crianças e adolescentes correm para o refeitório, alguns policiais são vistos do outro lado do campinho, junto a eles uma família de traços asiáticos que aparentavam preocupação e angustia. Não me aprofundei naquele cenário que chamava a atenção de algumas crianças enquanto os professores orientavam para manter distância, corri em direção ao refeitório antes que uma fila grande se formasse e não sobrasse tempo o bastante para jogar futebol.

No dia seguinte minha mãe já havia esquecido o pequeno incidente, não tocávamos mais sobre o assunto e nem sobre minha perna com curativo. A escola nos deu um dia de folga, mas explicaram a situação apenas aos pais responsáveis.

Passei o dia no meu sofá assistindo aos desenhos da cartoon, tomando toddynho, pulando com suas aberturas como ``As meninas super poderosas´´, ``Duelo Xiaolin´´, `` Coragem o cão covarde´´, entre outras coisas que crianças fazem até pegar no sono.

No dia seguinte fui acordada pela minha avó para almoçar, era o segundo dia em que eu ficava em casa. Outro dia deitada assistindo desenhos animados.

Quando meus pais chegaram em casa e ligaram a televisão no jornal do estado. Passavam algumas notícias que não interessam a uma criança até pular para uma matéria que acharam o corpo de uma criança em um igarapé com varias marcas de mutilação, agressões físicas, marcas de luta e abuso sexual.

Por um momento fiquei em choque, meus pais se olharam e apenas disseram que amanhã iriam pegar minha transferência da escola.

A maioria das crianças saíram daquela escola, nunca mais retornei os pés ali. Os dias que passaram minha mãe não relacionou o que disse para ela com o assassinato.

Às vezes sou assombrada por aquele momento varias e inúmeras vezes. Hoje é um pouco mais em dias chuvosos.

Me mudei do Amazonas, os dias mais corridos em São Paulo tornam o passado em borrões que aquela época não me remete agora. Há coisas que nunca contarei a ninguém, que nunca contei a ninguém e essa parte do meu passado que ninguém sabia, até agora.