Águas Profundas

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Há 2 meses

"Em meio a imensidão, a escuridão mergulha sem parar. Uma doce e fatal voz pôde-se ouvir, se prepare pois esse será seu fim"

Século XII, Kursk noroeste da Rússia.

Em uma cidadezinha na Rússia, vive uma pequena aldeia de camponeses simples. O lugar apesar de ser pequeno há muitos mistérios e suspeitas, também é o lar de vários desaparecimentos de crianças indefesas.

Há um pequeno chalé isolado próximo à aldeia, tem uma aparência rústica e simples, o telhado triangular traz uma impressão do chalé ser maior. Próximo do chalé existe um lindo e misterioso lago. Esse lago é chamado de "Inferno nas águas", o nome foi dado por um senhor que disse ter presenciado uma garota de doze anos entrar nele, e nunca mais voltar daquele trágico mergulho. Os camponeses da aldeia procuraram por dias dentro do lago, mas não obtiveram sucesso por conta da profundidade e pouca visibilidade no fundo. E a falta de equipamentos de mergulho era só mais um motivo para a busca ser encerrada. Ninguém tinha a menor ideia de quanto era a profundidade daquele lago, ou se ele mesmo tinha um fundo. O velho senhor que presenciou o terrível acidente dizia que o lago era 'banhado pelo mal", sua intuição sempre lhe informava que o pior acontecia a todos que ali entravam ou encaravam demais o fundo.

Essas histórias eram muito faladas na pequena aldeia, e a reputação da pequena família não ia bem. A família era composta por dois adultos e duas crianças, a menina estranha e o menino deficiente. Filhos do casal, eles moravam afastados da população justamente por conta do preconceito das pessoas. A família não era bem vinda na aldeia em si, mas eles faziam uns sacrifícios para ajudar nos momentos difíceis. Tais como dar trabalho às crianças e a prática do escambo.

A filha mais velha do casal se chamava Vydia, ela possuía apenas 10 anos na época. E seu irmãozinho, o pequeno Darlan tinha apenas 3 anos na época. Apesar de ser bem pequeno, Darlan trazia muitos problemas para a família por ser autista. Sua mãe e irmã eram muito compreensivas com ele, já seu pai e o resto da aldeia não pensavam o mesmo que elas...

Certo dia Darlan vomitou na boneca de pano de Vydia, a boneca tinha um valor muito especial para a criança, pois havia sido feita por sua falecida avó. A garotinha saiu de casa às pressas e se sentou na borda da margen do lago, começou a chorar e soluçar magoada por dentro. Durante seu sofrimento, algo chamou a sua atenção, um movimento dentro da água, a imensa e escura lagoa. Vydia se arrastou um pouco mais a frente afim de tentar observar melhor o que estava fazendo aquele barulho, conseguiu apenas ver o reflexo da noite estrelada no céu que refletia na água.

Decepcionada, ela voltou para seu lugar e novamente sentir as lágrimas rolarem delicadamente por o seu pequeno rosto. Um zumbido baixo e abafado surgiu, a garotinha retirou as mãos do rosto lentamente e olhou para a frente. De repente alguma coisa surgiu de dentro do lago, logo de início ela não entendeu o que era aquilo.... Mas depois de alguns segundos ela finalmente conseguiu enxergar, eram fios de cabelo flutuando na água.

Aquela coisa tinha uma pequena luz no meio da testa, e seu rosto se parecia com o de uma mulher, uma mulher doente com a pele verde e gosmenta. Seus longos cabelos flutuavam nas águas do diabo, chegando até uma espécie de cauda.

Vydia se assustou com a cauda do ser, sua aparência era grotesca demais, uma cauda cinza esverdeada, de longe dá para confundir com uma pedra. A misteriosa criatura colocou seu dedo grudado nos lábios, mandando Vydia mandando ficar em silêncio. Seus olhos estavam vidrados nos dela, brancos como olhos de um cadáver, a garotinha se hipnotizava a cada segundo observando aquela criatura. De algum modo, era um olhar diferente, fatal.

Vydia automaticamente se aproximou da água, como se algo a puxasse para dentro das águas escuras. A garotinha fechou seus olhos fortemente por achar que aquilo tudo era um pesadelo, ou talvez era efeito da água gelada invadindo seu corpo. Por fim, a criatura agarrou seu tornozelo, ela fazia uma certa força mas não o bastante para machucar sua perna. Vydia não conseguia gritar, era como se sua boca estivesse grudada.

Um som se espalhou por toda a área, um choro de bebê surgiu no meio de toda aquela tensão, para a felicidade de Vydia. A criatura olhou para o pequeno Chalé à alguns metros ali. Com os olhos vidrados na presa, a criatura disse palavras baixas para ela, tais como:

-Shii... Fffásssça... Essscolha.

Ela soltou os pés da criança, os mesmos marcados com a mão da criatura, em um tom azul forte. Vydia olhou uma última vez para o lago, a criatura estava indo embora. Sua longa cauda cinza brilhava entre às águas escuras, depois de um tempo não conseguia enxergar mais nada, apenas a vasta escuridão.

Vydia se levantou rapidamente e correu para dentro de casa. Quando abriu as portas procurou por seus pais, ela não encontrava eles em lugar nenhum, eles haviam simplesmente sumido. Seu irmãozinho Darlan estava no chão chorando e pedindo colo para a irmã, tentando de algum jeito encontrar um conforto para aquela amarga e cruel sensação de abandono. A garota desabou ao chorar, sentou no chão em frente ao irmão. Recitou uma pequena canção de ninar para ele, Vydia não conseguia pensar com todo esse choro, então ela não via outra escolha. A canção terminou e Darlan se acalmou, ele agarrou as pernas da irmã e adormeceu. A garotinha respirou fundo e engoliu o choro, por mais que seja difícil, ela tinha que encontrar os pais. Portanto para que isso seja feito, ela tinha que encontrar uma pista ou algo que ajude na busca.

Determinada a encontrar algo, Vydia levanta e coloca Darlan em sua cama, ela precisava sair do chalé o mais rápido possível. Vydia procurou em todo lugar, na plantação, ao redor do lago, chegou a ir na entrada da aldeia, mas voltou quando se lembrou de um detalhe. A criatura havia dito para ela em seu encontro, Vydia se lembrava das palavras com muita facilidade, como se aquele fosse o momento certo para que ela lembrasse delas. "Faça, escolha" um arrepio surgiu quando ela disse em voz alta, ainda não entendi o que elas significavam. Vydia se aproximou do lago e gritou com força:

- ESCOLHER O QUE?!

Após gritar com todas suas forças, a menina sentou no mesmo lugar do encontro. Diversas palavras começaram a surgir em sua mente, completamente aleatórias. Ela balançou a cabeça e bateu com as mãos com força no topo da cabeça, de algum modo as palavras foram embora, menos duas. Pais/irmão. Vydia visualizava ambas as palavras repetidamente, diversas vezes, como se elas quisessem ser notadas por ela. Alguns segundos depois a ficha caiu para Vydia, e a real mensagem foi descoberta. Uma escolha tinha que ser feita e Vydia tinha que escolher entre salvar o irmão ou os próprios pais. Seu mundo desabou.

Vydia se sentia totalmente devastada naquele momento, ela só queria que seus pais estivessem ali com ela, a solidão estava corroendo-a por dentro. Então ela se decidiu, iria sacrificar a vida de seu irmãozinho pela a vida de seus pais, sua insegurança e medo falaram mais alto que seu amor por seu irmão. Ela não aguentava mais, só queria que esse inferno acabasse.

A garotinha decidida saiu com o irmãozinho nos braços, o pequeno Darlan não parava de chorar quando foi acordado, seus braços tentavam afastar a irmã, talvez lá no fundo já entendendo seu trágico destino. A garota colocou os pés na água, seus braços tremiam muito, a cada passo uma sensação de queimadura surgia nas profundezas da água, era o verdadeiro Inferno. Logo uma movimentação surgiu no meio das águas diabólica s, Vydia abaixou um pouco entregando seu irmãozinho na água quente, mais a frente estava a terrível criatura esperando a oportunidade perfeita para atacar.

Um barulho na plantação ao lado assustou Vydia, que fez a garota se virar rapidamente e ser assim puxada pelos pés. A criatura estava puxando Vydia para dentro da água junto ao seu irmão agarrado em seu pescoço. A menina entrou em desespero, sentia a queimação da água invadir seu corpo, por conta da adrenalina ela pouco sentiu dor. Em meio a aflição, Vydia conseguiu soltar seu irmão que estava agarrado em seu pescoço, ela jogou o corpo do garoto na margen do lago para salvação.

A mãe das crianças apareceu entre as plantações de milho, com uma arma nas mãos e uma expressão assustada no rosto. Vydia olhou para a mãe e sorriu pela a última vez, aliviada por Darlan não estar sozinho, e nem ela.

Sons de bolhas saíram das profundezas do lago, Vydia nunca mais foi encontrada.

Comentários

Anônimo
Surreal, achei muito peculiar a sereia, além disso, o desfecho foi bom.
15/08/2020
Anônimo
Gostei!
30/08/2020
Anônimo
Morri de medo. Credo, mto bom dkdbdkskbs
22/09/2020
Anônimo
Coitada da Vydia... Pelo menos salvou o irmãozinho :(
01/10/2020
Anônimo
Nossa amg tu só faz conto triste? Não estou bem :(
17/10/2020