É incrível o que se pode alcançar com o dinheiro. Todas as ambições e obsessões de uma pessoa podem ser facilmente adquiridas com ele. Lorde McFinnigan, com seus devidos contatos políticos, financia uma equipe de exploração arqueológica no Oriente Médio, agora ocupado pelo Império Britânico, logo após a queda do Império Otomano ao final da Grande Guerra.

Não é como se Lorde McFinnigan fosse um real interessado nas magias e artefatos do antigo oriente, ele funciona apenas como um generoso mecenas, que emprega seu dinheiro em um retorno financeiro garantido. As novidades do misterioso oriente eram a grande sensação dos museus e centros intelectuais das grandes metrópoles europeias. O Lorde é claro, também desejaria ter algo a mostrar durante suas intermináveis festas da alta sociedade.

No entanto, Jonathan Smith, antropólogo e explorador especializado no oriente médio, agarrou com firmeza a oportunidade de ter sua expedição financiada para vasculhar os desertos arábicos em busca de antiguidades e registros mágicos de um tempo esquecido.

Seus recursos, claro, são bem avantajados. O que permitiram um assíduo estudo por parte de Smith sobre o período e as mais diversas histórias sobre um passado antigo da alquimia arábica. Porém há um objetivo fixado na mente de Smith.

— Temos feito diversas descobertas interessantes, Senhor Smith. Os artefatos antes encontrados no começo da expedição já chegaram a Inglaterra para a apreciação de seu investidor, que agraciado com os resultados, enviou ainda mais recursos para continuarmos. Há ainda muito a ser descoberto nessas terras?

— Certamente meu caro amigo. Conforme minhas leituras puderam me relevar, procuro avidamente pela tumba secreta do grande Mago Al-Hafahr.

Veja, durante a Idade Média, enquanto a Europa estava mergulhada na pobreza e miséria, existia uma grande movimentação cultural e econômica no Oriente Médio e Asia. Talvez por isso, houve uma grande profusão de grandes magos e alquimistas que prometiam dos mais variados feitos. Transformar chumbo em ouro, uma panaceia que curaria todas as doenças, os segredos da vida eterna e, claro… como reanimar mortos.

Al-Hafahr fora um destes grandes alquimistas descritos em diversos mitos. É dito, por exemplo, que o mago havia descoberto os mistérios que separam o fio sagrado entre a vida e a morte.

Ainda que seus macabros experimentos tenham feito, segundo as lendas, corpos que antes deram seu último respiro voltarem a caminhar entre os vivos novamente. Nada pode salvar o mago árabe de seu próprio destino.

Com medo de que seu corpo fosse profanado por seus inimigos e rivais, Al-Hafahr permaneceu recluso nos seus últimos dias de vida, soterrado sozinho e sem o conhecimento de ninguém. Levando para a tumba todo seu conhecimento apócrifo.

O lugar de seu túmulo permaneceu secreto por séculos, onde nem mesmo os mais experientes saqueadores de túmulos, comuns mesmo em seu tempo de vida, puderam achar. Mas o mais importante para esta história era que, com ele, foi enterrado um tomo secreto detalhando todo seu trabalho sobre a necromancia. A depravada ciência de reanimar mortos.

Faz meses que a equipe de Smith avança vagarosamente no deserto árabe, investigando cuidadosamente diversas tumbas e abrigos abandonados pelo tempo e escondidos em meio a dunas e rochedos desconhecidos ao homem moderno. Em sua grande maioria, as descobertas não terminam em nada além de quinquilharias para serem expostas a olhares curiosos, mas dessa vez é diferente.

Em uma entrada secreta, de estreita passagem, que termina em uma grande caverna onde finalmente pode ser visto um abrigo criado a mãos humanas, encontramos uma misteriosa tumba que conseguiu se manter fechada por todos esses séculos. Os símbolos escritos nas paredes, as imagens, o tomo achado em uma vasilha perto da poeira do que antes fora um corpo. Tudo indicava que esta era a tumba do Mago Al-Hafahr.

— Engano nosso pessoal, é mais uma imitação. — disse Smith ao grupo — Vou apenas catalogar os achados, mas todos estão dispensados. Levarei esse tomo para leitura, apenas por curiosidade própria.

Jonathan sabe que essa é a tumba do Mago Al-Hafahr, mas ele não pode levantar suspeitas, pois tem sua própria agenda a cumprir. Após memorizar perfeitamente o local, ele volta mais tarde com apenas um ajudante levando seu equipamento secreto e que pouco suspeita do que poderá acontecer

— Senhor Smith, o senhor tem certeza que não seria melhor trazer mais pessoas para cá?

— Seria um exagero desnecessário. Foi irresponsabilidade não ter catalogado tudo antes de sair dessa tumba hoje mais cedo, mas certamente compensarei esse erro agora, com os equipamentos necessários que estão na caixa que você está carregando.

— Eles certamente são pesados.

Na caixa está o corpo da falecida noiva de Smith. É por ela que o jovem aventureiro busca tão cegamente um meio de poder revivê-la, rompendo as barreiras naturais do tempo e vida por um capricho próprio. E seria o tomo secreto da necromancia que o ajudaria.

Ao chegarem na tumba, Smith acerta o distraído ajudante com uma marreta em sua cabeça, que desmaia no mesmo instante. Conforme havia tinha lido previamente, o encantamento requisitaria um sacrifício humano. O explorador pega o tomo e o coloca sobre a mesa, fazendo toda a preparação para o ritual com os itens necessários, e dispõe gentilmente a carcaça de sua falecida amada no altar profano junto ao corpo ensanguentado de seu ajudante.

Logo começa o ritual em uma língua a muito tempo perdida e esquecida. As chamas das velas crescem e mudam de cor, um pequeno terremoto sente-se na célula onde está sendo mantido o ritual. É como se a própria natureza lutasse para impedir que a vida seja tirada de si para reviver algo que deveria permanecer morto.

A força das energias na sala é tão absurda que um deslize de terra sela a única saída possível do local. Porém Smith pouco atenta sobre isso, sua atenção é direcionada e reservada unicamente ao ritual macabro que está a sua frente. Logo o corpo falecido da moça começa a expressas suas primeiras reações, mas algo… algo não está certo.

Seja por uma palavra mal pronunciada, seja por algum ingrediente que não esteja em sua dosagem correta, talvez seja o próprio meio da energia natural humana impossibilitar o ressurgimento completo de algo tão definitivo como a morte. Mas o corpo que foi ressuscitado não é o de sua saudosa amada, mas sim uma aberração de carne pútrida e força satânica de fome sem igual.

Ao ressurgir a existência, esse corpo morto-vivo se atira a Smith e começa a dilacerar sua carne com uma força impossível ao seu tamanho. Não há nada que Jonathan possa fazer a não ser gritar e chorar em horror ao perceber a cena macabra que está protagonizando, gritos esses que nunca alcançarão a superfície.

Em seus momentos finais, ao perceber que está completamente aterrado no túmulo de Al-Hafahr junto com esse corpo profano que já pertenceu a sua amada, Smith tem algum conforto em saber que nenhum outro humano será vítima de sua ganância e falta de responsabilidade. Pois o que foi feito aqui permanecerá selado por muitos anos além.

Até é claro, quando outro desbravador de túmulos tiver as mesmas intenções diabólicas.