“— O velho caolho contempla o mar tempestuoso, enquanto fuma seu cachimbo naquele farol” — Era sobre isso que eu refletia enquanto analisava aquela construção carcomida, onde o lodo subia a passos curtos por sua extensão.

Meu caminhar, apesar de jovem, era trôpego em meio às pedras negras, irregulares e pontiagudas. Talvez devesse prestar mais atenção no caminho ou, que seja, não me importaria em não chegar a lugar algum.

Lá de baixo, eu poderia até mesmo ouvir o marujo cantar suas canções do mar, regadas a histórias de tempestades e monstruosidades homéricas, das quais teria um pesadelo ou outro.

Será que lá de cima ele me vê?

Acho que não.

Afinal, o que teria eu de interessante para chamar atenção daqueles olhos treinados para velejar e avistar tesouros, inimigos ou novas terras?

Não...

Eu sei o que ele procura. Recostado no parapeito daquele farol, o pirata está à espera da famigerada carta na garrafa. Carta esta que contém um segredo, um mapa talvez, ou apenas doces palavras de um amor proibido, separado por incontáveis milhas náuticas.

O céu nublado é tão cinza agora, como meus pensamentos, mas não me impede de vê-lo contemplar também.

Já estou próximo da base do farol, onde as ondas raivosas rebentam e jogam suas espumas acima da minha cabeça. Gostaria de enxergar o mar com os olhos do marujo, ser capaz de ver através da água escura todos os segredos que ali estão sepultados. Quantos monstros marinhos nadam por ali? Será que estão à espreita de desavisados como eu?

Esta incerteza é tão bela quanto parece?

Alguns dias sozinho são capazes de fazer com que você sinta coisas que não poderia com outras distrações. Nem mesmo as garças voam por aqui. Os únicos barulhos que ouço são das ondas e do vento que me toca o rosto e resseca meus lábios.

À noite não ouso sair, mas ouço atento os ruídos sussurrantes. Pode ser o vento tentando me falar algo, da mesma forma que podem ser as vozes. Quem me julgaria por ter medo?

Às vezes sinto cheiro de sangue que parece vir da água. É o mal, penso, ele pode submergir? mas seguro a respiração e passo desapercebido. Quando menos espero, o mar me presenteia com pedaços de coisas que parecem humanas ou que um dia já foram. Elas atracam sempre no mesmo lugar perto do farol, como se fosse algo premeditado. No início, não aceitava as oferendas, mas a sensação de mal agouro só diminuiu depois que passei a coletar.

Penso que o velho caolho também um dia esteve aqui embaixo onde estou agora. Ele também deve ter caminhado pelas pedras e cortado os pés nas pontas lascadas. Também não seria improvável que o mar lhe presenteasse assim como faz comigo. É bem provável que tenha perdido seu olho em uma de suas caminhadas por este chão ingrato.

Será que um dia me tornarei como ele?

Poderei ver também o mar sob a perspectiva dele?

Essa incerteza é tão bela quanto parece...

Seja como for, continuarei minha caminhada rumo ao último andar do farol para ver o mar de cima e talvez me jogue em sua direção para sentir mais uma vez a água salgada encher meus pulmões.