— Shandra'lulhas ramashadaram!

— Aleluia, igreja! Pregação de Ve, glorifica!

— Vai tomar no cu, John.

— Por que porras nós viemos pra cá, John Lennon de Oliveira Machado?

— Pra beber, Mariana de Oliveira Machado.

— E precisava ser aqui?

— Esse lugar vai ser demolido daqui a três dias. É a história da nossa cidade!

Além disso, Ve tem medo daqui desde criança.

— Eu não tenho medo porra nenhuma, John! Além disso, se era pra beber, deu ruim. Já acabou a bebida, né, dona Ana?! Qual o plano agora?

— A gente pode transar, heim, Júlio?!

— Mas nem fodendo que eu vou transar com aquela merda lá fora!

— Ai, Júlio! Que estraga prazeres! É só um espantalho! Vai tocar uma, então!

— Puta! O violão! Ô, Ve, pega lá no carro pra mim?! — e jogou as chaves.

— Ah, não! Já vai começar a merda de Legião Urbana?

— Posso tocar Beatles, também, John Lennon…

— Ah, se foder! Essa piada de bosta, não. Eu vou dormir. Vem, Ana.

— Eu não quero dormir — disse Ana, sorrindo enquanto se levantava.

Mariana olhou para Júlio e revirou os olhos. Balançando a cabeça, caminhou até o armário onde Ve estava. Aberto dentro da gaveta estava um livro de páginas de couro.

A língua escrita em uma tinta amarronzada era irreconhecível: foi dali que veio a frase estranha.

Ve deu a volta no casarão, os olhos focados na rua silenciosa. Os três carros estavam estacionados atrás o antigo imóvel, no grande terreno desocupado, exceto pelo espantalho quase tão velho quanto o prédio.

Caminhou em silêncio os dez metros que separavam a casa e os automóveis.

Tentou agir o mais rápido possível, desarmando o alarme e abrindo o bagageiro. Pegou o violão, fechou o porta-malas e saiu de trás do carro.

Um arrepio subiu-lhe pela espinha. Virou-se para os lados, procurando o que estava errado. Seus passos eram hesitantes, temerosos. Sua respiração pesava, fazendo as narinas e o peito doerem. Olhou duas vezes na direção da estaca alta para entender: o espantalho havia sumido.

— Para com essa merda, John! Eu sei que tu mexeu o espantalho pra me assustar!

Nada

— Aparece! Não tem graça!

Nada.

Ve abraçou o violão e apertou o passo. Caminhava rápido, mas evitou correr para não demonstrar medo. Cada passo novo era acompanhado pelo som de galhos quebrando. Em confusão, parou, mas os barulhos não; vinham de suas costas.

Olhou sobre o ombro e o espantalho estava lá. Aproximando-se.

Aquilo avançava com estalos. Sem se mover, Ve pôde identificar o som. Não eram de gravetos, mas de ossos quebrando.

O chapéu fazia sombra, impedindo que Ve reconhecesse o rosto. Mas o luar brilhava naqueles olhos verdes como se fossem vidro. A lâmina velha e enferrujada na mão do espantalho também brilhava.

***

— Júlio! — chamou Mariana — Vem cá!

— Ah, não, te escuto bem daqui.

— Olha isso.

— Nah, me conta.

Mariana suspirou alto, revirando os olhos.

— Esse livro é bizarríssimo! Ele começa explicando técnicas de taxidermia em animais e termina explicando como fazer isso em gente!

— Quê?

— Pois é! Começa escrito num português arcaico e aos poucos vai mudando para uma língua bizarra, incompreensível.

— Aquela que Vê falou?

— É!

***

Ana e John beijavam-se sobre o colchão inflável. A mão dele desceu para o meio das pernas dela, que se afastaram.

— Espera! Preciso ir no banheiro, John — e levantou-se.

— Agora?

— Sim, é rapidinho — disse, procurando o rolo de papel higiênico na mochila.

Ana saiu do quarto rindo, atravessou o corredor escuro e subiu a escadaria. A casa era tão velha que não tinha banheiro. A mulher, então, usa algum dos aposentos do andar de cima como banheiro, na tentativa de evitar que o cheiro de urina atrapalhasse sua transa.

Atrás de uma porta, encontrou uma sacada grande quase sem parapeito, de frente para a estrada. Deixou o rolo de papel em uma das pequenas colunas enquanto um sorriso surgia em seu rosto. Aliviar-se ali era arriscado, alguém passando na rua poderia vê-la. Mas quase não havia movimento, o que diminuía os riscos. Convicta, tirou o vestido para compensar a tranquilidade e agachou, cuidando para não molhar os pés.

O barulho da água batendo no assoalho velho lembrou-lhe uma cachoeira. A brisa estava agradável. Olhava a rua, na esperança de um farol, mas nada. De qualquer forma, foi divertido pelo risco.

Quando buscou o rolo, encontrou um grande corvo pousado tranquilamente em cima.

— Olá, bichinho. — ela disse.

O pássaro crocitou em resposta. Ana sacudiu a mão para tentar espantá-lo, mas a ave abriu as asas e corvejou mais alto.

Um farfalhar alto a fez virar a cabeça para o outro lado. Vários corvos aproximavam-se rápido, garras em riste.

Ela sentiu algo leve esbarrando em sua cabeça e moveu-se a tempo para sentir apenas um arranhão das unhas afiadas em seu ombro. Levantou-se rápido, tentando afastar o pássaro, mas já haviam outros cercando-a.

Sentiu garras perfurando sua pele e as asas batendo contra seu corpo. Tentou desvencilhar-se sacudindo os braços, mas bicos puxaram seus cabelos para os lados.

Gritou, empurrando e batendo nas aves, debatendo-se, mas elas atacavam mais.

Esbarravam em suas pernas, puxando seus cabelos e ombros para lados opostos, até que ela finalmente caiu no corredor.

Os corvos afastaram-se por um momento, enquanto Ana rastejava de costas.

Antes que pudesse se levantar, o grande corvo pousou em seu peito. Movimentou a cabeça com um som de ossos quebrando e se aproximou com ares de curiosidade do rosto da mulher. Grasnou. E então enfiou o bico no olho direito dela.

Mariana folheava o livro deslumbrada, enquanto Júlio cogitava levantar-se para acompanhá-la. Eles haviam ignorado o primeiro grito, mas se entreolharam ao segundo.

A voz de Ana, dolorosa e sem traços de prazer, vinha do segundo andar.

O homem girou o corpo enquanto se levantava da cadeira de praia, disparando em direção do corredor. Mariana, sem pensar, recolheu o livro e seguiu Júlio. Correram até as escadas, subiram os degraus dois a dois e, do topo, avistaram o corpo ensanguentado.

Mariana quis correr, mas Júlio a impediu. Com um movimento, pediu silêncio, seus olhos arregalados a alertavam de um possível perigo.

Caminharam juntos, olhando para trás constantemente, até chegarem ao corpo de

Ana. Retalhada e desfigurada, a figura sem olhos que fora sua amiga parecia implorar.

Tendões foram rasgados, deixando o corpo relaxado em posições normalmente impossíveis. A boca rasgada bochechas a dentro e a mandíbula deslocada revelavam dentes quebrados e o desaparecimento da língua.

Levando as duas mãos à boca, Mariana tentou não gritar. Júlio a abraçou, tentando desviar o rosto dela, mas foi respondido com resistência.

Lágrimas grossas corriam por seu rosto quando a mulher se aproximou do corpo.

Queria abraçar a amiga, mas não sabia como. Ajoelhou-se, desesperada, e ouviu: parecia um ronco leve e espaçado. Aproximando o rosto, a mulher percebeu que o som rouco vinha do que sobrara de Ana.

— Ela tá viva!

— Quê?

— Rápido, Júlio, chama a SAMU!

— Merda! — respondeu, tateando os bolsos — O celular tá lá embaixo!

— Então busca! — Mariana deu as costas para Júlio — Aguenta, Ana!

John Lennon adormeceu logo depois que Ana saiu e não acordou com os gritos.

Roncava pesado e sem sonhos quando sentiu uma mão em seu tornozelo. A mão subiu devagar pela panturrilha, enquanto o homem abria um sorriso sonolento.

Despertando aos poucos, percebeu os pequenos estalos que ouvia. Abriu os olhos e viu um vulto embaçado. Parecia muito alto e usava um chapéu.

— Ana?

O vulto se aproximou, entrando no pouco luar das frestas da janela. Seu rosto manchado tinha um aspecto de couro e fiapos de palha saíam pela boca entreaberta.

John não teve tempo de reagir. A mão pressionou seu joelho até que se ouvisse um estalo alto. A dor veio depois.

O homem tentou afastar-se, mas a criatura cravara os dedos em sua articulação.

Quanto mais John fazia força, mais sua carne rasgava. Sentiu fluídos quentes escorrerem por suas pernas.

— Quem é tu? O que tu quer? - de sua laringe saía mais medo que voz.

Com som parecido com o de seu joelho, a criatura o largou. Ele tentou rastejar, arrastando-se com os braços, enquanto a criatura desaparecia o braço nas sombras.

Quando a mão reapareceu, encharcada de sangue, portava uma faca.

John chorou, tentando levantar-se. A criatura aproximou-se, os estalos constantes, agarrou o homem pelos cabelos e o levantou. Quando o pé tocou o chão,

John sentiu a dor intensificar-se e espalhar-se a partir do joelho destruído. Mas não teve tempo de apreciá-la: a criatura atravessou a lâmina comprida e enferrujada em seu abdômen uma, duas, três vezes.

O corpo de John debateu-se ante os impactos. O sangue subiu pela garganta, sufocando-o. A criatura ergueu a mão e, certeiro, atravessou a lâmina acima do pomode-adão até que saísse na base do crânio do jovem.

— Júlio! — gritou Mariana — Cadê tu, caralho?!

Nada.

— John! Vê! A Ana tá morrendo! Alguém! Por favor!

Nada.

O chiado rouco que saía do corpo deformado estava cada vez mais baixo e espaçado. A respiração se esvaia junto ao sangue dos múltiplos ferimentos. Mariana tentava estancar a hemorragia, mas não tinha mãos o suficiente.

Ela falava com Ana, mas esta era incapaz de responder. Seu corpo rasgado não efetivaria nenhum movimento, nem mesmo um aceno leve de cabeça. Além disso, sangue escorria de seus ouvidos. Se era capaz de sentir o toque da amiga, ao menos,

Mariana nunca saberia.

Incapaz de aceitar a verdade, a mulher levantou-se, prometendo voltar com o SAMU. Desceu as escadas correndo, os olhos fixos no corredor, só notando o volume ao pé da escada quando quase tropeçou sobre ele.

Sentiu uma veia pulsar na têmpora, a cabeça cogitando o que aquilo poderia ser.

Anestesiada, Mariana girou o volume com a mão esquerda, a direita ainda segurando o livro contra o corpo.

O volume girou devagar. Um braço se pronunciou ao antecipar o movimento. As roupas de Júlio estavam presentes, mas não seu rosto. No lugar, havia uma massa disforme e afundada.

Mariana gritou. Levantou e se afastou, o olhar subindo até a parede oposta do corredor onde havia uma mancha de sangue na altura de Júlio.

A mulher correu, gritando por Vê e John. Entrou no quarto em que estavam as mochilas. Escorado na parede abaixo da janela, havia um vulto.

— John?! - aproximou-se hesitante - Pelo amor de Deus, John Lennon, acorda!

Por favor!

Mariana tocou no corpo, que pendeu sem resistência para o lado. O luar não o iluminou, mas definiu mais detalhes. Ela não teve dúvidas de que era seu irmão.

Avançou sobre as mochilas, buscando as chaves de algum carro. Tateou os bolsos de fora, abriu os zíperes com violência, jogou roupas para fora. Ouviu uma ou duas vezes o som de tecido rasgando, mas não se importou.

— Cadê, cadê...— repetia, até que sentiu um objeto gelado, metálico.

Sentiu na ponta dos dedos a irregularidade e puxou para fora. Não sabia de quem era o chaveiro e não se importava: tinha um controle de alarme e uma chave de carro, e era tudo que ela precisava saber.

Voltou ao corredor, ouvindo uma crepitação. Seu rosto se voltou na direção do som, para o topo da escada, onde uma criatura alta, com roupas surradas e um chapéu de aba larga a observava.

Mariana correu ouvindo os rangidos das tábuas velhas da escada acompanhados de estalos como ossos quebrando. Ao fim do corredor, ela cogitou procurar algum dos celulares.

Como a sensação de proximidade da criatura era cada vez maior, ela ignorou qualquer coisa que haveria na sala. Apenas correu para fora da casa, atravessando o umbral para uma noite que parecia cada vez mais escura. O som constante de ossos quebrando em seu encalço.

Ela atravessou o pátio, encontrando o corpo de Vê. Sua cabeça fixa no cadáver estirado não acompanhava o avançar de seu corpo. Ela apertava o controle do alarme para descobrir de qual dos três carros eram as chaves que tilintavam em sua mão. A buzina rápida e a leve piscada dos faróis apontou a direção.

Faltavam dois metros para alcançar o veículo, quando um grasnar alto ecoou.

Mariana se virou e viu o espantalho no meio do caminho entre ela e a casa. A criatura abriu os braços, o som de ossos gravando fundo na alma da mulher.

Um coro de grasnidos iniciou-se, junto com o farfalhar de asas. Logo, uma revoada de corvos descia dos céus em direção à Mariana. Ela teve tempo apenas de abaixar-se contra o carro.

O impacto dos pássaros contra os veículos era como tiros de canhão. Rápidos, repetitivos, dolorosos, amassando a lataria e contundindo Mariana.

Com dificuldade, a mulher conseguiu esgueirar-se para baixo do carro. Ferida, o

sangue escorria para os olhos, a impedindo de ver qualquer coisa. Mas ela ainda ouvia os pássaros concutindo em tudo que encontravam.

Com dor e desespero, Mariana aguardou. Pelo que pareceram horas, ela esperou.

A eternidade do porvir de sua morte colidia contra sua sanidade. Não havia para onde correr, não havia esperança de fuga. Restava apenas esperar.

Pouco a pouco, o réquiem dos corvos foi sumindo. Mariana acreditou estar perdendo a consciência e quase sorriu de alívio. Estava pronta para abraçar o fim, quando percebeu que o barulho dos impactos estava sendo substituído pela sirene dos

alarmes dos outros dois carros.

Com esforço, Mariana abriu os olhos. A visão embaçada por sangue e lágrimas

revelou o impossível: amanhecia.

Ela ainda segurava o livro.