A Insônia

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Há 4 semanas

Tic-tac.

O único som que ouço neste momento, já perdi a conta de quantas vezes troquei de posição, mas nunca consigo encontrar o lado correto para finalmente descansar desse dia infernal. Faz 5 dias que eu não durmo direito, existe sempre alguma coisinha para me atrapalhar. No 1° dia foi a merda de uma coruja no galho da casa na árvore, tentei diversas maneiras fazer ela sair de lá, usei a vassoura, joguei umas pedrinhas, até liguei para o IBAMA mas o atendente desligou na minha cara. Já no 2° dia choveu a porra de dilúvio, a chuva tava tão intensa que surgiram várias goteiras do teto, para piorar um cano estourou com a pressão da água, mais uma noite sem dormir. O 3° dia foi até engraçado, um bêbado qualquer ficou cantando e fazendo uns twerks estranhos na calçada, passei boa parte da madrugada vendo ele fazer suas maluquices enquanto comia uns salgadinhos escorado na janela do quarto. A partir do 4° dia minhas noites estavam longes de serem tranquilas, talvez o cansaço dos dias seguintes estivessem fazendo efeito, mas não deixou de ser bizarro. Algo me impedia de dormir, não sei se por ter passado todos esses dias sem dormir me desacostumou a ter uma noite tranquila e sem distrações. Eu fechava os olhos e esperava ele chegar, mas era sempre a mesma coisa. Depois de um tempo desisti de tentar dormir, peguei meu notebook e joguei Fortnite até o amanhecer. Eu achava que minhas noites não podiam piorar, até chegar no 5° dia.

Olho para cima e vejo a lâmpada apagada, droga, devo estar enlouquecendo, essa insônia novamente atrapalhando as minhas noites de sono. Me sentei na cama, respirei fundo e recitei mentalmente: "Você vai beber água. E depois voltar a dormir. Fácil." Foi isso o que fiz, me levantei e abri a porta do quarto. O curioso aconteceu, novamente senti os pêlos braço arrepiarem. Uma sensação de frieza correu por minha espinha, não gostei nem um pouco disso. Pensei em beber um pouco de café, mas aí lembrei que quero muito dormir. Na verdade, PRECISO dormir, não quero ter um câncer maligno ou algo do tipo por conta disso.

O corredor estava vazio e totalmente escuro. Levei minhas mãos até a parede afim de ligar o interruptor. Ao encostar na parede meu toque se encontrou com algo gelado, no momento não entendi o que era, mas após uns segundos percebi, era uma mão.

O susto foi tão grande que demorei alguns segundos para reagir, a pequena mão em cima do interruptor foi o auge da minha insanidade. Dei um grito assustado e me joguei no chão, não conseguia enxergar nada, além da massa escura grudada na parede. Parecia que o corredor tinha ficado ainda mais escuro, era quase impossível de enxergar a tintura da parede junto com o final do corredor. Tenho vontade de culpar meus remédios para dormir, mas algo me diz que o que acabei de presenciar não era um efeito alucinógeno da medicação.

Minha sede sumiu assim como a vontade de continuar ali, minhas pernas tremendo muito, me levantei e liguei a luz do corredor, dessa vez não havia nada ali. Deixei a luz ligada e observei o corredor. Por incrível que pareça sua aparência estava normal, com nenhum vestígio de presença humana ou sei lá o que seria aquilo. Voltei para o quarto, fechei a porta e novamente me deitei na cama. Eu não devia ter feito isso. Já não é a primeira vez que essas merdas sinistras aconteceram comigo, me lembro de uma vez quando meu avô saiu para pescar como de costume, era um sábado à tarde. Segundo ele "pescar à noite é bem melhor, pois é o momento certo para fisgar os peixes sonolentos" como eu não me interessava em participar, passava parte da noite/madrugada sozinho. Como nos conformes, passei boa parte da noite jogando vídeo game, tinha saído atualização e eu estava louco para passar pelo menos umas 5 horas jogando direto. No quarto o meu kit de sobrevivência completo era composto por: refrigerantes e energéticos, salgadinhos, maconha e para finalizar o elemento principal, o computador. Não vi as horas passarem, estava tão concentrado no jogo que também não percebi a porta do quarto se abrindo. O headset estava alto, tive que aumentar para ouvir o que meus amigos comentavam sobre o jogo, por isso deixei passar esse momento estranho. Ao decorrer da gameplay, comecei a ouvir um chiado irritante vindo do fone. Tentei perguntar aos meus amigos se esse chiado vinha de alguma interferência ou da internet horrível deles, mas não obtive resposta nenhuma. O som aumentava a cada segundo, era agonizante e não conseguia encontrar o problema. Foi quando o som do chiado parou, a estranheza tomou conta do lugar, eu tinha tirado o fone quando olhei novamente para a tela do computador. Na tela levemente brilhosa, vi o reflexo de alguma coisa pequena parada na porta do quarto, no início achei que era um duende ou anão, mas a possibilidade de ser uma criança era ainda mais bizarra que essas outras alternativas. Depois daquele dia passei a trancar a porta do quarto, com a esperança de que aquela coisa não voltasse a me incomodar.

Meus olhos estavam arregalados, segurava tremendo e com tensão o cobertor observando a luz por baixo da porta, uma sombra se mexia. Prendi a respiração quando escutei pequenos passos se movendo, a sombra se afastou. Que merda era aquela.

A luz voltou a brilhar em meu campo de visão, decidi parar de tomar essa nova medicação, não estava fazendo bem para mim. Peguei o vidrinho e joguei fora todas as pílulas azuis no lixo ao lado da cama, prefiro ficar sem dormir do que ver coisas que não existem. Meditei por alguns segundos para acalmar minha respiração, fechei os olhos para me concentrar melhor e não ser distraído. Quando a última etapa estava quase concluída um barulho soou do corredor, a luz tinha sido desligada. Abri meus olhos rapidamente e olhei para a porta fechada, momentos depois outro barulho. Dessa vez era na porta, alguém abriu ela.

Sabia que não estava sozinho, a atmosfera do quarto mudou, a porta totalmente aberta e rangendo, a sensação de congelamento se espalhou pelo meu corpo. Era como se alguém estivesse balançando ela diversas vezes em ritmos diferentes, só para fazer aquele barulho irritante. Minha visão foi totalmente ocupada pelo bréu, ao olhar pela janela percebi que as luzes da rua também estavam apagadas. Naquele instante comecei a chorar de desespero, sempre fui um cara fraco, tenho a mente mais frágil de todas. A confusão mental me fez desabar, um líquido escorreu por minhas pernas até o cobertor. O choque era tanto que a urina saiu involuntariamente, com certeza essa era a pior insônia que já tive.

Minha cabeça começou a doer, ouvi passos correndo ao redor da minha cama, aquilo era um pesadelo. Tinha medo de abrir os olhos e ver o que era, mas sempre que tentava a escuridão tomava conta e me impedia de saber o que diabos era aquela coisa me atormentando. Por fim eu vi algo que disparou o meu coração. Ao olhar para o lado, a claridade da lua iluminou um pouco ao lado de minha cama, haviam pés pequenos totalmente pretos voltados para mim. Acho que o resto da urina que minha bexiga guardava foi todo por água abaixo (belo trocadilho, mas eu me apavorei na hora).

Eu vi o meu fim quando minha coberta se mexeu, algo estava subindo em cima de mim, e eu tinha certeza que era uma criança, essa porra de criança estranha. Fechei meus olhos na tentativa de ela se cansar de mim ou simplesmente sumir, mas eu ainda conseguia sentir o cobertor se mexendo. A criança estava se arrastando sobre mim, senti minhas mãos tremerem de medo.

Depois de alguns segundos o barulho parou, precisava abrir os olhos para ver se a coisa foi embora, mas a lua só atrapalhou o meu plano. Ao mudar de posição, seu brilho iluminou metade da escuridão que tinha em meu quarto. Mas havia uma coisa que não fora iluminada. A criança sem pupilas e garras nas mãos que estava acima de mim.

Tentei gritar, mas suas garras entraram na minha boca, estavam me sufocando, a criatura espalhou uma fumaça negra em meus pulmões. Um desejo fuminante de morrer, acabar com todo aquele sofrimento agora borbulhava dentro de mim. Parte de mim que antes desejava isso, agora parecia dominar o meu corpo.

Levantei-me totalmente sem expressão, meu corpo andava em grande naturalidade. Meu sofrimento interno permanecia o mesmo, apesar da serenidade refletida em meu rosto com a luz da lua. A medida que andava eu sentia a criança se mover rapidamente entre a escuridão, cheguei a vê-la se esconder por trás do sofá de couro que ganhei de presente do vovô. Apesar da incapacidade de me mover por conta própria, consegui formular uma pergunta. Se eu pudesse me ver no espelho naquele momento, com toda certeza minha aparência seria horrível, para piorar minha camiseta estava encharcada de suor.

- Q-quem é você?

Meu corpo me levou até a garagem, peguei o rifle de caça de meu avô que permanecia intocado desde a sua morte. Apontei para a minha cabeça. Apertei o gatilho.

No chão ao lado de meu jovem corpo sem vida, um nome estranho escrito com sangue chamado "Carazi" chamou atenção dos policiais que examinavam a cena do suicídio.

Comentários

Anônimo
Ahhh nunca tinha lido um conto sobre o Carazi, gostei muito!!
30/09/2020
Anônimo
Incrível como sempre Vivi ❤️
30/09/2020
Anônimo
Curti!
01/10/2020
Anônimo
adorei a história, muito interessante os detalhes e tudo mais
01/10/2020
Anônimo
Gosto muito dos seus contos, parabéns pela criatividade!
01/10/2020
Anônimo
Carai q medoooooooo
06/10/2020
Anônimo
Ótimo conto Vicky!
17/10/2020
Anônimo
Aterrorizante e medonho, merece ganhar a caveirinha!! Palmas!
25/10/2020