A Cura

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Há 3 meses

- Hm.

Fiquei observando um pequeno ninho de pássaros que habita em uma árvore em frente a meu laboratório, era uma cena linda e digamos que um pouco sentimental, comecei a sentir pequenos resquícios de saudades de minha filha Mary. Entretanto percebi que nunca havia visto aquele ninho ali, deve ser pelo fato de que meu trabalho gasta 100% da minha atenção a cada dia que passa.

Depois do término de analisar as amostras de água do aquário da Geórgia, minhas forças estavam totalmente esgotadas, precisava tirar um pouco do meu tempo para descansar, então foi isso o que fiz. Guardei os frascos das amostras da água com as bactérias e tranquei no armário, fechei as janelas e peguei minha maleta afim de ir embora. No caminho para o carro, observei que a cidade estava mais agitada do que o normal, muitas pessoas falavam alto no celular, crianças choravam desperadas por colo. Uma cena não muito incomum, mas não deixava passar despercebido.

No caminho de volta para casa, observei nosso vizinho Harris e sua família guardarem suas malas no bagageiro do carro. A filha mais velha de Harris, Alana estava aos prantos com alguém no telefone, senti um frio na barriga vendo aquela cena, apesar de não fazer idéia o por quê da adolescente chorar tanto.

Cheguei em casa e vi minha doce filha Mary abrir a porta do quarto em que minha esposa está descansando. Corri até ela e a peguei nos braços, dei um beijo na sua testa e disse:

- Meu docinho, já ti avisei para ficar longe do quarto da mamãe. Ela está doente, não quero que você fique também. - A pequena Mary resmungou baixinho, mas acabou concordando comigo.

Ao fechar a porta do quarto, refleti sobre a cena que me destruiu por dentro, olhar para a minha esposa e saber que ainda não encontramos uma cura para essa epidemia.

16:11

Mais um dia de trabalho exaustivo, a cada minuto que se passa me sinto mais inútil e desesperado. Não posso olhar para fora da janela que a multidão de protestantes me mandam sempre o mesmo recado: precisamos da cura.

Tenho um péssimo pressentimento que meus colegas de trabalho sentem o mesmo que eu, posso ver em seus olhos, o tempo se esgotando. Não estamos fazendo progresso, e mais uma vez estarei indo embora para casa sem uma amostra da cura que seria não só para a população, mas também a minha esposa, ambos estão a beira da morte.

17:20

Minha esposa morreu.

Mary escreveu uma linda carta em sua homenagem, ela adicionou alguns adesivos de coração e uma foto nossa em que tiramos no Natal do ano passado, mal sabíamos que estávamos prestes a presenciar a mais terrível infestação de um vírus de alta potência, em todo o mundo. Agora restou só eu e Mary, ambos contra o mundo. Lutando para sobreviver.

08:45

Não fui ao trabalho hoje, passei o dia cuidando de Mary. Percebi que havia algo de estranho em seus olhos, suas pequenas veias oculares estavam aumentando, a cor vermelha também se destacava. Parecia efeito especial em filme de terror, dos mais grotescos. Oh céus, o que está acontecendo com a minha filha?

Eu não tinha ideia, de todos os sintomas do vírus nenhum mencionou "aumento das veias oculares e o excessivo brilho no sangue", comecei a me preocupar.

Peguei uma mala e guardei algumas roupas, comida e muita garrafinha de água pura. Em meio ao desespero, minha única opção foi leva-lá ao laboratório, e quem sabe encontrar alguém que poderá nos ajudar. Não sou muito de rezar, mas nessa noite, adormeci citando versos do Pai Nosso repetidamente.

Lembro-me de um pesadelo em questão, esse não importa o que eu faça, sempre aparece como flashs em minha mente. No pesadelo eu estava sentado em um banco de uma praça, a poucos quilômetros do centro e consequentemente o lugar em que trabalho. É uma praça bem bonita, árvores exuberantes, suas cores se juntam em uma só, trazendo uma paz e clareza para o lugar. Mas em meu pesadelo, a praça estava totalmente o oposto do que é. As árvores estavam queimadas, toda a cor que antes era tão encantadora, parece que agora foi guardada em baú e jogada no fundo do mar, e por lá esquecida por todos. Mas por um momento aquele cenário não me afetava, pois minha querida Mary estava sentada ao meu lado, suas mãos pareciam estar coladas ao rosto, foi então que percebi, Mary estava chorando... Ou tentando. Ela abaixou suas pequenas e delicadas mãos, vi que tinha algo de estranho nelas, um vermelho bem intenso tinha se aglomerado, foi então que eu olhei para o seu rosto.

Mary estava sem os olhos, meu coração agora parecia estar em ritmo tão acelerado, que eu podia contar com maior facilidade os meus batimentos cardíacos. Quando eu achava que aquela situação era terrível demais para ser verdade, seus pequenos braços começam a se abrir, como se alguém tivesse passando um bisturi tão profundo quanto o oceano, só que a água foi substituída por sangue. Logo então, eu acordei.

07:00

Permaneci dirigindo por um tempo. A cidade estava tranquila, não havia ninguém nas ruas, mas o curioso até então eu não tinha visto. Ao chegar na parte comercial da cidade, havia dezenas de cervos e outros tipos de animais na em todo o local. Fiquei abismado vendo aquela cena, e minha mente não parava de se perguntar: por quê esses animais estão aqui no centro? Afinal, devem existir mais pessoas vivas, o vírus é muito forte, mas não mata instantaneamente. Enquanto estive perdido em meus pensamentos, ouço a voz fraca e trêmula de Mary.

- Papai, estou com frio - Disse Mary com seus pequenos olhos entreabertos. Logo então a respondi:

- Fique calma amorzinho, vou fechar a janela. - Virei meu corpo e enfiei meu braço no vão no centro do carro, fiz um pouco de esforço para chegar a manivela, afinal a cadeirinha de Mary ficava do lado oposto de meu assento. Mas depois de todo o esforço, consegui fechar. Foi quando ouvi um barulho alto, e no momento não consegui distinguir o que era. Era como se o mundo tivesse perdido a luz, uma imensa escuridão.

- Filha, você está bem? Papai está aqui, nós vamos sair dessa ok? - A pequena Mary olhou em seus olhos e concordou após uns segundos, suspirei de alívio e abri a porta para ver o que diabos tinha acontecido.

O chão estava cheio de cacos de vidro e marcas de pneus, segui as marcas até encontrar onde o carro foi parar e as segui. Fui até um beco, o carro capotou e permaneceu naquela área. Com um pouco de dificuldade me abaixei, e tentei visualizar o banco dos passageiros afim de encontrar alguém, estava vazio, só me resta o do motorista. No banco havia uma mulher de cabeça para baixo, estava presa pelo cinto de segurança. Ela tossia fortemente e toda vez saia muito sangue de sua boca, ela virou a cabeça e finalmente me viu. Sua reação inicial foi de espanto, mas logo após ela começou a chorar. Reparei em seus olhos, estavam vermelhos como os de Mary, e brevemente creio que os meus também irão ficar. A mulher visivelmente com dor, já sabia seu destino final. Eu não podia tirar ela de lá, pois a porta estava emperrada, e não havia nada no lugar para que eu consiga ajudar, nem mesmo um pé de cabra. Minha expressão mudou, de assustado para uma profunda tristeza, em tão poucos segundos me senti sem chão. A mulher misteriosa disse algo que fez meu coração doer ainda mais:

- Por favor não me deixe morrer aqui sozinha! - Sua voz estava um pouco alta, talvez por conta da batida ela tenha perdido um pouco a audição. Apenas balancei a cabeça e concordei, 2 minutos depois ela ainda olhava pra mim, estive ali esperando junto à ela até o seu descanso final. E ele chegou, aos poucos a mulher misteriosa morreu, diante de meus olhos, finalmente seu sofrimento havia acabado.

Me levantei e senti minhas mãos ficarem úmidas, olhei e havia sangue espalhado por elas. O sangue pingava do pneu do carro, olhei do outro lado do beco e havia um cervo caído no chão, visivelmente morto, presumi que o sangue na minha mão era dele. Voltei o mais rápido possível para o carro, deixei Mary sozinha por 3 minutos e ela já estava dormindo a esse ponto. Peguei um paninho que estava guardado e limpei minha mão do sangue do animal, agora é rezar para que o carro não tenha estragado, nosso tempo estava se esgotando.

Abri o capô do carro, analisei as peças no geral e vi que o problema era maior do que imaginava, saía muita fumaça na bateria, eu poderia tentar consertar mas iria demorar muito (tal que não tenho muito). Dei meia volta e sentei próximo a porta do motorista, tirei um maço de cigarro e comecei a fumar. Meus pensamentos estavam flutuando pela minha mente, não tinha ideia do que poderia acontecer, quando percebi já estava chorando.

Chorei por Mary que perdeu a mãe tão cedo, chorei pelos meus vizinhos que não importa o quão longe eles forem vão ter o mesmo final que todos nós, chorei por ter medo de morrer primeiro que minha pequena Mary, e fazer ela sofrer ainda mais. Chorei por não ser o pai perfeito para ela.

Terminei de fumar e joguei fora o cigarro, levantei novamente com dificuldade e peguei a mochila, guardei todos os nossos pertences: garrafinha de água pura, um pacote de biscoito e o paninho. Vesti a mochila e dei a volta no carro, abri a porta onde Mary estava e a tirei da cadeirinha. Ela ainda estava sonolenta, isso facilitaria muito a nossa ida para o laboratório. Ainda tínhamos que andar um pouco para chegar, carreguei Mary e fui caminhando desviando de qualquer contato com pertences humanos. As ruas estavam silenciosas, tinham muitos veículos abandonados espalhados por todos os cantos. Muitas lojas foram saqueadas, em tempos de sobrevivência não existe mais bom senso, é cada um por si.

Passei por alguns cadáveres, cenas que não se apagam da nossa mente, por mais que você possa tentar, elas sempre vão estar ali.

07:30

Cheguei ao laboratório, a entrada foi completamente arrombada por um caminhão, o cadáver do homem ainda permanecia caído no volante. Entrei rapidamente e subi as escadas, não tinha mais energia na cidade, então os elevadores estão parados. Ouvi Mary resmungando, e perguntou onde estamos, respondi baixinho:

- Estamos no trabalho do papai, vamos ficar quietinhos. - Senti ela balançar a cabeça concordando, depois de subir muitos degraus finalmente chegamos ao último andar.

O laboratório - 07:45

Passei pela recepção e fui direto às salas de testes, deitei Mary em um pequeno sofá de couro que tinha no canto da sala, e coloquei a mochila no chão. Agora eu precisava continuar onde eu havia parado, além de Mary, meu trabalho é a segunda obrigação mais importante agora. Lavei minhas mãos e vesti meu uniforme de proteção, fechei a porta e comecei as misturas. Por sorte eu havia fechado as portas antes de sair da sala há dois dias, senão poderiam ter subido nesse andar os protestantes e ter quebrado os experimentos, se isso tivesse acontecido nós estaríamos ainda mais na merda.

Fiz todas as opções que ainda faltavam, nenhuma delas dava um fim no vírus. Fiquei apreensivo com a situação, já tinha se passado horas, e ainda faltava alguma coisa na mistura. Tentei com os tecidos vegetais e humanos, nenhum deu certo. Encostei na cadeira e fechei os olhos com força, respirei fundo e ouvi um som estranho. Abri os olhos rapidamente e o som vinha fora da janela, analisei a árvore e me assustei com o que vi. O ninho de pássaros ainda estava ali, ao todo tinham 3 passarinhos, a mãe cuidava dos filhotes trazendo uma minhoca no bico para eles. Foi nesse momento que me dei conta de uma coisa, os pássaros estavam todos normais, nenhum sinal de contaminação. Acabei me lembrando da cena dos cervos na rua, nenhum deles tinha a aparência de um contaminado. A resposta estava na minha frente o tempo todo, mas só agora que fui capaz de perceber, peço a Deus que não seja tarde demais. Não tínhamos percebido a presença dos animais antes, pois estávamos tão focados em encontrar a cura, que não pensamos no óbvio.

A cura

Nos momentos finais são os que mais me dão agonia, começo a suar e meu corpo não responde totalmente. Estou passando a sentir uma dor no corpo terrível, tudo estava nos "conformes" até eu sentir minhas mãos trêmulas. Retirei as amostras sanguíneas do cervo no paninho que tinha na mochila, o tempo estava me alcançando e no mesmo instante senti que havia uma disputa entre nós dois, essa disputa vai decidir quem chegará primeiro. Segurava a seringa com muita dificuldade, tentando sugar todo o conteúdo da cápsula de vidro, o líquido azul brilhava com intensidade, por um momento me permiti sorrir, talvez haja esperança.

Quem? - 16:30

Respirei fundo e sorri, me sentia tão feliz e esperançoso, que por consequência esqueci completamente que meu corpo estava dolorido e febril. Mas nada disso importava agora, a cura estava em minhas mãos, depois de tanto tempo pesquisando e falhando miseravelmente, finalmente eu consegui. Mas esse momento de felicidade evaporou com um pensamento, eu só tinha uma amostra da cura, e o estado de Mary está piorando. Guardei a seringa em uma bolsinha preta com o logo do Laboratório da Geórgia, e saí da sala de testes. Mary ainda estava deitada no sofá, seu estado parecia pior, ela está morrendo. Sua pele agora está mais branca do que o normal, mas de alguma forma consigo enxergar o sangue correr em suas veias. Seus olhos estão com o mesmo tom vermelho só que bem mais forte, quase atingindo um tom escuro e vazio, para finalizar sua boca parece estar bem ressecada. Não pensei duas vezes e a peguei no colo, corri rapidamente pelos corredores até chegar nas escadas. Meu plano agora é pegar a van transportadora de materiais do laboratório, é o nosso único jeito de sair daqui. Terminei de descer as escadas, Mary começou a tossir, seus pulmões pareciam estar fracos e cansados. Minha mente não me deixava quieto, a todo momento flashbacks apareciam, e todos eles eram sobre Mary. O seu 5° aniversário em que comemoramos na casa do meu pai em uma cidadezinha sossegada na Califórnia, foi nessa festa em que ela ganhou a bicicleta azul de rodinhas coloridas, Mary chorou até soluçar de tanta alegria. Flashs de todas as vezes em que Mary deitava em minha cama, com medo de pesadelos e assim procurando conforto no meu quarto.

Terminei de descer, foi tudo tão rápido que minha cabeça voltou a doer, respirei fundo com dificuldade e olhei para frente. Já estávamos na garagem do laboratório, ali tinham poucos carros, mais na frente vi ao que parecia uma caminhonete virada para baixo, aconteceu um acidente na saída da garagem. Coloquei Mary no chão sentada, e beijei sua testa. Disse:

- Mary, o papai já volta, vamos sair daqui. - Me levantei e senti algo na minha mão, olhei para trás e Mary havia segurado ela, me impedindo de seguir. Então ela disse com cansaço: - Papai... Não me deixa aqui sozinha, não deixa por favor... Papai - E assim ela começou a chorar, depois de ficar um bom tempo sem chorar. Senti uma dor no coração ao ver aquela cena, não era dor física, mas essa dor conseguia ser mais forte. Me ajoelhei na sua frente e peguei em sua mãozinha, beijei ela durante uns segundos e disse:

- Eu nunca irei abandonar você, nunca. Não importa o que aconteça, vou ficar do seu lado a todo momento. Lembra da sua bicicleta azul de rodas coloridas? - Perguntei olhando diretamente em seus olhos cansados. Mary concordou acenando com a cabeça, continuei falando:

- Lembra quando nós fomos para a casa do vovô, e lá você aprendeu a andar na sua bicicleta azul? Foi um dia especial, não foi? - Mais uma vez Mary concordou com a cabeça. Continuei:

- Mesmo depois que nos mudamos, a bicicleta azul não deixou de ser a SUA bicicleta azul. Então não importa onde você vá, ou onde eu vá, não vou deixar de ser seu pai. Eu vou sempre estar com você Mary. - A pequena sorriu, retribui o sorriso e me levantei, lembrei da bicicleta azul, Mary nunca mais vai ver sua tão amada bicicleta.

Observo a pequena sala através do vidro, tentei abrir a porta e ela está trancada. Não tem outra solução a não ser quebrar o vidro da janela, olhei ao redor tentando encontrar algo para quebrar o vidro, foi quando achei o extintor de incêndio na parede do outro lado da garagem. Fui até lá com passos largos, e retirei o extintor da base. Corri em direção a janela e o barulho do vidro se quebrando foi alto, tenho impressão de que isso assustou Mary. Falei para ela:

- Consegui quebrar a janela, estou quase lá- Enfiei o braço no buraco quebrado, até chegar na maçaneta do outro lado da porta, e destranquei a porta. Entrei na pequena sala e olhei ao redor, tinham copos de plástico caídos na mesa, com restos de comida estragada ao lado. Os monitores estavam desligados, 3 no total, todos para vigiar qualquer sinal de vida na garagem. Do outro lado da sala um pequeno armário ligeiramente escondido por entulhos, abri a gaveta e encontrei a chave da van. Suspirei aliviado e peguei as chaves, quando estava prestes a sair da sala, vi no canto do olho um ursinho de pelúcia rosa na cadeira. Apesar de sua aparência estar um pouco suja, a pelúcia estava bem normal. Peguei a pelúcia e saí da sala, fui até Mary, esse pouco tempo que a deixei sozinha, contribuiu para o vírus deixar mais vestígios na sua aparência. Mary agora estava com as olheiras escurecendo, respirei fundo e a peguei no colo. Fomos até a van, abri a porta do passageiro e sentei Mary ali. Coloquei o cinto de segurança em sua volta e fechei a porta, dei meia volta e sentei no banco do motorista. Coloquei o cinto e a chave na ignição, liguei a van, pisei no acelerador até a saída da garagem.

Mary voltou a tossir, dessa vez saiu uma secreção estranha na sua tosse. Um líquido preto escorreu da sua boca, tentei não ficar apavorado para não deixar Mary com mais medo. Como eu havia deixado a mochila no laboratório, rasguei um pedaço da minha blusa social e passei na boca de Mary, tirando toda a sujeira dela. Voltei a prestar atenção na estrada, minhas mãos não paravam de tremer, nunca estive tão apavorado em toda a minha vida. Passamos no local em que nos acidentamos, meu carro ainda estava no mesmo lugar em que deixei, consequentemente a moça morta também estaria ali perto. Olhei para o retrovisor, e me assustei com meu próprio reflexo. Eu estava pálido, e com as olheiras escurecendo igual as de Mary. Quebrei o retrovisor com raiva e joguei pra fora da janela da van, posso estar com raiva, mas o medo já tomou conta de mim. O dia está escurecendo, não tenho relógio aqui mas devem ser 5 horas da tarde, ou mais, não tenho muitas informações, só sei que o sol vai se pôr logo.

O carro permanecia silencioso, o único som que eu escutava era da forte respiração de Mary. Procurei pelo carro até achar o ursinho de pelúcia e o peguei, parei a van por um minuto e falei com Mary:

- Olha o que o papai achou lá na garagem, achei que você fosse gostar dele. Vai ser seu grande amigo, e assim como eu, ele nunca vai abandonar você! - Tentei falar com animação sobre o ursinho de pelúcia mas não consegui tanta, afinal, eu também estava cansado fisicamente e mentalmente. Mary olhou para o ursinho de pelúcia, sua aparência era de uma criança que estava perdendo a batalha contra o câncer, tão terrível e exaustiva, segurei o choro e entreguei o bichinho. Voltei a dirigir, olhei de canto e vi que ela tentava brincar com o ursinho, mas não conseguia por conta do cansaço. Continuei a dirigir, segurando o choro e rezando, creio que o tempo conseguiu nos alcançar.

O pôr do sol- 17:50

Não tenho certeza de onde estamos, depois de um tempo dirigindo eu apenas segui onde meu coração queria me levar, passei a ignorar todo o meu lado racional e o meu cientista interior. Deve ser esse o efeito de estar morrendo, nós paramos de se importar com situações que não vão acontecer, o melhor é esperar o pior. Desliguei o carro, senti uma doce brisa no ar, então percebi que estava na praça do meu sonho/pesadelo. Olhei para Mary, ela segurava o ursinho de pelúcia com carinho, passando os dedos delicadamente no tecido macio do ursinho. Olhei o resto da van, e vi que tinha um walkie talkie na base onde seria o lugar do rádio. Peguei o walkie talkie e consegui contato com uma pessoa desconhecida, ao que parecia essa pessoa estava trabalhando na área de segurança de um hospital da Geórgia, percebi por conta do barulho no fundo dos pacientes. Falei com dificuldade e rapidez:

- Eu descobri a cura... P-por favor, está na praça principal, há alguns quilômetros de distância do laboratório.. - Mandei as informações importantes e coloquei o walkie talkie de volta na base, tirei meu cinto de segurança e o de Mary. Peguei ela no colo, senti seu coração bater fraco, peguei a bolsa com a cura junto ao ursinho de pelúcia. Saímos da van, fui andando pelo caminho de pedra, sentindo o coração fraco de Mary ter poucos batimentos, seu fluxo sanguíneo continuava fraco, está quase morta. Segurei em sua mão e sussurrei:

- Estamos quase chegando meu bem, aguente mais um pouco... Por favor. - Um clarão iluminou meu rosto de repente, o banco estava a poucos metros a nossa frente. As árvores não estavam queimadas, pelo contrário, as cores dançavam a nossa volta. Os ventos jogavam folhas do outono em cada canto, era uma visão tão bonita, o sol estava começando a se pôr no horizonte. Chegamos no banco, sentei Mary e coloquei o ursinho de pelúcia na sua mão, me posicionei do seu lado e coloquei a bolsinha com a cura do outro lado do banco. Envolvi meu braço em torno de Mary, e falei:

- Filha, olha que lindo o sol, abra um pouco mais... Abra um pouco mais os olhos, você vai ver, como é lindo, você vai gostar tanto. O papai ta aqui e o senhor ursinho também, você está bem, vamos ficar bem. - Disse aos prantos, Mary conseguiu abrir os olhos depois de uns segundos lutando contra o seu tempo e morte, ela enxergou um lugar bonito depois de tanta tragédia, esse pôr do sol foi fundamental para seus últimos momentos finais, junto ao seu pai que não largou sua mão em hipótese alguma. Mesmo após ambos fecharem os olhos, juntos.

Inspirado no game "One Chance".

Comentários

Anônimo
Confesso que desceu lágrimas <:(
12/08/2020
Anônimo
Muito triste o final...
13/08/2020
Anônimo
Por fim, eles ficaram juntos
13/08/2020
Anônimo
Emocionante. Será q dá p escrever um final diferente só p mim, nunca te pedi nada. Tô mto triste aaaaaaaa
22/09/2020
Anônimo
Achei muito trágico esse final..
24/09/2020
Anônimo
Obrigada gente ~ Black :p
24/09/2020
Anônimo
Muito bom o drama, confesso que se eu fosse ele teria feito a mesma coisa.
25/09/2020
Anônimo
É bom e triste, fascinante...
01/10/2020
Anônimo
Imaginei a cena dos dois juntos no final, muito triste...
01/10/2020
Anônimo
Bom!!!
01/10/2020
Anônimo
O jogo é muito bom, e o conto deixou tudo mais simbólico e triste, gostei!
17/10/2020