Dante saiu do carro e logo pendurou sua bolsa no ombro para evitar contato visual ao passar por um par de hippies oferecendo suas flores coloridas por um punhado de moedas, e arrastou a sua bolsa de boliche até as portas do aeroporto. Acendendo seu último Marlboro - a marca preferida - ele deu uma tragada quando o ar condicionado do prédio começou a esfriar seu rosto.

O trânsito tinha sido pior que o imaginado e ele já estava um pouco atrasado. Ele evitou um quiosque de uma empresa de seguros de vida lá dentro, mas parou brevemente para pegar outro maço para o vôo em uma vending machine. Quando chegou ao portão, os passageiros já haviam começado o embarque.

O avião decolou em vinte minutos. Viagens como essa eram típicas na linha de trabalho de Dante: um trabalho rápido, uma pernoite em algum hotel de aeroporto com uma cama que funciona com moedas e um avião de volta para casa pela manhã. Frequentemente - como hoje - ele voltava com um souvenir em sua bolsa.

Eles nunca conferiam a bolsa, e ele sempre a carregava a bordo. Depois dos últimos atentados a bomba com malas desacompanhadas, Dante suspeitou que os carregadores de bagagem verificariam qualquer mala sem permissão. Ninguém nunca lhe deu problemas no portão, e ele esperava que hoje não fosse diferente. Mesmo assim, era de um grande risco o que ele carregava em sua bolsa de boliche. Muito mais arriscado do que as drogas que as pessoas costumam levar em vôos, dinheiro ou itens roubados.

Como ele poderia explicar a cabeça decepada de um notório chefe sindical, envolta por um amontoado de toalhas e fita adesiva onde deveria estar a bola de boliche?

O agente pegou sua passagem e Dante exibiu seu melhor sorriso de sou-um-empresário-normal. Suor escorria por sua testa e sob os braços - ele estava praticamente inundado até a cueca. O ar-condicionado em seu quarto de hotel estava congelando e no momento em que saiu do chuveiro, ele acumulou uma nova camada de suor.

Em circunstâncias normais, o suor conspícuo pode atrair suspeitas. Mas o pleno verão escaldante do Rio no meio de uma onda de calor lhe tiravam um pouco a suspeita de seus ombros. Ela retribuiu o sorriso e pegou a passagem, deu a suas malas um olhar rápido e desdenhoso e o conduziu para dentro.

Enquanto ele descia a escada rolante para as pistas, um par de agentes aéreos apareceu logo atrás. O calor do asfalto soprou atrás deles como o ar de um secador de cabelo barato de hotel. Seu pulso, normalmente sincronizado com a perfeição de um riff de bateria de Buddy Rich, sofreu uma oscilação momentânea quando seus caminhos se cruzaram. Eles devolveram o aceno que ele fez.

O calor insuportável atacou seu rosto assim que desceu a escada, ele estava feliz por sair desta maldita cidade!

O piloto do vôo cumprimentou alguns retardatários subindo as escadas, a maioria eram homens em paletós de tuíde ou xadrez e calças plissadas.

Dois homens carregaram as poucas peças restantes da bagagem no compartimento de carga, rindo e conversando de maneira descontraída. Em outro lugar, os mecânicos trabalharam na parte inferior de um 727. O zumbido de uma chave de boca deu lugar ao guincho de um motor a jato, e Dante protegeu os olhos do sol para olhar para a pista.

Um grande Concorde atingiu a velocidade de decolagem e seu nariz afilado levantou do solo. Dante soltou um assobio impressionado. Ele era fascinado por viagens aéreas desde os seis ou sete anos. Pedaços gigantescos de metal se lançando no ar, desafiando as leis da natureza. Naquela época, ele gostava de Fokkers e Japanese Zeroes. Hoje em dia era o Concorde, por sua velocidade impressionante e corpo elegante. Ele não teve a oportunidade de voar em um ainda, mas um dia ele queria pegar o vôo supersônico de Nova York a Londres. Seu trabalho não lhe dava o tempo necessário para isso, então continuava sendo uma meta de aposentadoria.

Infelizmente, a aposentadoria parecia cada vez menos provável. Nesses tempos, garotos famintos, dispostos a fazer um trabalho duro em troca de amendoim, devoravam todos os subempregos que mantiveram Dante à tona entre os dias de pagamento maiores como aquele. A empresa confiava nele para serviços de alta exigência agora, mas quanto tempo isso duraria em seus anos de crepúsculo?

Dante largou o cigarro no asfalto entre as várias bitucas descartadas de outros passageiros e amassou-o sob a sola de um mocassim de borla. Ou o calor ou a nicotina estavam começando a deixá-lo maluco. As palmas das mãos escorregadias de suor escorregaram no corrimão enquanto ele se impulsionava ansiosamente escada acima. O piloto deu as boas-vindas e acenou com a cabeça em direção à bolsa de boliche.

- O que você joga? Dez pinos ou cinco?

Dante gaguejou. Ele não jogava boliche, mas fingir era importante nessa situação.

- Eu não jogo cinco pinos desde meu oitavo aniversário, capitão.

- Bom homem, disse o piloto. Ele fez uma saudação a Dante. Bem vindo a bordo.

Dante deslizou para a atmosfera fresca da aeronave. As aeromoças já colocavam as bandejas de comida em um carrinho. Ele piscou para a ruiva mais velha. Ele teria preferido entrar no Mile-High Club com a morena mais jovem mas ela nem mesmo olhou em sua direção. Provavelmente é melhor assim. Misturar negócios com prazer nunca foi sábio, especialmente a 6 mil metros de altitude.

- Alguma de vocês, amáveis senhoras, poderia me trazer uma água quando tiver uma chance? Estou no B-15.

Os olhos da morena se estreitaram levemente enquanto ela olhava para seu parceiro. Mesmo que a ruiva sorrisse como se ela se lembrasse de seu pedido, Dante tinha certeza de que teria que lembrá-la quando eles aparecessem com a comida. A bebida era irrelevante. O que importava novamente era o fingimento.

Aja como um vendedor, ligeiramente agressivo, mas não de maneira que assuste. Essas mulheres esperavam que um homem como ele flertasse. O piloto esperava uma conversa fiada. Não corresponder a essas expectativas era a hipótese mais provável de levantar suspeitas.

Dante caminhou até o meio do avião, descendo o corredor à esquerda. Ele pediu para se sentar no corredor, perto da ala. Ele gostava de assistir os flapes baixando e subindo, de ver os ailerons vibrarem com a pressão atmosférica e observar o fluxo de ar e as nuvens ondularem sobre o topo da asa.

Também recebeu o controle dos compartimentos superiores, onde guardaria sua bagagem de mão. O avião estava quase cheio. Dante passou por três homens sentados nos assentos do meio, todos vestidos com paletós xadrez semelhantes, um estilo que ele gostaria que tivesse morrido nos anos 70, junto com o consumo de disco e cocaína casual. Na fileira atrás deles estava sentada uma senhora idosa com um tanque de oxigênio e uma mulher de aparência sitiada que poderia ser sua irmã gêmea muito mais jovem. O filho dela voou com um avião de brinquedo nas costas do assento, lembrando Dante de si mesmo quando era menino. Ele teve que resistir à vontade de bagunçar o cabelo do garoto.

Ele parou e esperou que um homem corpulento e careca com olhos escuros e grandes feições enfiasse uma mala no comprimento uma fileira acima da dele. O homem o fez pensar em Alfred Hitchcock na antiga série de TV. Hitch torceu e virou a mala várias vezes, tentando enfiar um pino circular em um buraco quadrado. Sem paciência, Dante agarrou a bolsa e conseguiu encaixá-la perfeitamente.

- Obrigado, disse Hitch, dando uma rápida olhada em Dante.

- Por nada.

O homem se acomodou em sua fileira e começou o processo novamente, tentando encaixar seus quadris grossos no assento estreito. Dante seguiu em frente com indiferença. Ele abriu o compartimento acima de seu assento, encontrou-o vazio, exceto por uma mochila de couro marrom e deslizou sua bolsa ao lado dela. Ele se sentou ao lado de um homem negro em um terno de três peças, com a jaqueta dobrada sobre o colo. O homem ergueu os olhos sob uma revista e sorriu enquanto Dante colocava a bolsa de boliche entre os joelhos.

- Não há espaço lá em cima? o homem perguntou. Huh? O homem gesticulou em direção à bolsa de Dante.

- Oh. São os meus medicamentos.

- Ah, é? Eu sou diabético. Tenho que picar meu dedo entre intervalos de pouca horas, verificar meus níveis de glicose. - Meu nome é Voss. Henry Voss.

Dante olhou para a mão por um momento, procurando por picadas - relutante em se tornar um irmão de sangue acidental com um estranho. Ele apertou.

- Denis Dante.

- Prazer em conhecê-lo, Dante. Em que negócio você está método, que mal te pergunte?

- Seguros, respondeu Dante, sua preferência para uma conversa casual descarrilada. De vida, principalmente.

- Nao vai acreditar. Henry Voss de repente parecia muito ansioso para retornar à revista. Ele apontou para um anúncio de página inteira, um casal branco bem vestido em luxuosas e espaçosas poltronas de avião. A mulher tinha um computador portátil sobre a mesa e o homem parecia estar ditando ordens enquanto uma atraente aeromoça servia champanhe. A legenda dizia "Bem-vindo à nova classe executiva". - Ela deveria ser sua esposa ou secretária, você não acha? Perguntou Voss.

Dante deu uma risadinha.

- Isso se parece com o rosto de um cara que está transando? Deve ser a esposa dele. Voss riu. Dante acendeu um cigarro. Ele ofereceu um para Voss, que balançou a cabeça negativamente.

- Eu parei. O médico disse que era ruim para mim, por causa do diabetes. Você acredita nisso?

- As maravilhas da medicina moderna. Dante exalou uma nuvem perfumada. Deus do céu, não sei o que faria se não pudesse fumar!

- Acalma os nervos, disse Voss com um aceno de cabeça. Você sabe, Rod Serling fumava Chesterfields.

- Rod Serling? O ator?

Voss sorriu pacientemente, balançando a cabeça. - Você conhece o programa Twilight Zone. Ele cantou o tema "Neener neener, neener neener."

- Não sou muito de ficção científica. Escute, vou dormir um pouco...

- Não diga mais nada. De qualquer maneira, tenho que pôr a leitura em dia."

Ele folheou uma página sobre um tal novo ônibus espacial.

- Ei, olha só. Primeira mulher no espaço. É só uma questão de tempo até que ponham um homem negro lá em cima, hein?

- Acho que tem um pre - quero dizer, um negro - no próximo lançamento.

- Oh sim? Voss sorriu. Um irmão no espaço. Que tal isso? Voss voltou ao artigo. Satisfeito por não ser mais interrompido, Dante encostou-se no encosto de cabeça e fechou os olhos. Um momento depois, o capitão anunciou que o vôo estava para decolar. Cinco minutos depois, e eles estavam no ar.

Dante acordou confuso com uma voz sussurrando em seu ouvido. O avião entrou em turbulência e ele deu um pulo, preocupado com a bolsa de boliche. Ainda estava em seu colo, ainda fechada. Ele deu um suspiro de alívio e olhou pela janela. Já está escuro. Ele deve ter cochilado e dormido durante o jantar e serviço de bebidas. Seu pescoço estava rígido e ele se sentia grogue o suficiente para voltar a dormir. Ele estudou seu companheiro de assento, Voss, que estava deitado com a cabeça apoiada no paletó pressionado contra a parede e os olhos fechados.

- Você se safou, hein?

Dante se assustou com a voz. Os lábios de seu companheiro de assento não se moveram, embora fosse difícil ter certeza sob aquela luz fraca. Ele olhou para Voss por um longo momento antes de ter certeza que não poderia ter sido ele, mesmo que o homem fosse um ventríloquo treinado. A respiração superficial e estável indicava sono.

À sua esquerda estava um jovem casal. O cara estava ouvindo música em um walkman azul, olhando para o encosto do assento à sua frente e balançando a cabeça. Dante ouviu um som vago e metálico vindo dos fones de ouvido do garoto. A garota estava lendo um exemplar de bolso de um romance bobo com a luz do teto acesa.

- Aqui embaixo, idiota, disse a voz sombria de seu colo.

Dante olhou para baixo. De alguma forma, a voz tinha vindo de entre suas pernas - ou, mais precisamente, da cabeça dentro da bolsa de boliche. Daquele maldito chefe do sindicato comunal "Santo" Luis Machado. Da cabeça que até recentemente ainda estava presa ao corpo.

"Ainda estou dormindo", pensou Dante. Estou tendo um pesadelo.

- Você está tendo um pesadelo? Santo Machado disse, com sua voz ligeiramente abafada de dentro da bolsa de couro. Eu sou o único preso no escuro. Cheira a sapatos velhos aqui, seu idiota.

Dante cobriu a sacola com o paletó, olhando em volta para ver se alguém tinha ouvido. Claro, ninguém tinha ouvido. Ele podia não estar sonhando, mas tinha certeza de que a voz de Machado era apenas um produto de sua imaginação. O que significava que ele havia perdido a cabeça após o sono.

- Non compos mentis, concordou Machado. Você não acabou de perder sua cabeça meu amigo, você perdeu o corpo todo!

Dante se levantou abruptamente, segurando a bolsa contra o peito em um esforço para manter a cabeça tagarela quieta. O avião estremeceu novamente, jogando-o no assento à frente. O cara que se parecia com Alfred Hitchcock ergueu os olhos com uma carranca de palavras cruzadas de jornal que ele estava preenchendo com uma caneta-tinteiro em letras maiúsculas perfeitas. Dante pediu desculpas apressadamente e foi para o banheiro, torcendo para que eles estivessem desocupados. A aeromoça ruiva levantou-se da poltrona enquanto ele se aproximava dos banheiros.

- Senhor, estamos passando por turbulência, por favor, volte para o seu...

- É urgente, disse ele, abrindo a porta do banheiro. Ele se jogou na tampa do vaso sanitário, fechou a porta e trancou-a. Merda, merda, merda! Controle-se, cara.

Ele sentiu que começava a hiperventilar, suando novamente, apesar do frio do interior da aeronave. Ele ouviu as aeromoças discutindo sobre ele atrás da porta, seus sussurros sibilantes como cobras ao ataque.

- Sim, controle-se, disse Machado, fazendo Dante pular. Gostaria de poder fazer isso. Mas não posso, porque você cortou minha maldita cabeça e jogou meu cadáver na porra de um rio!

Gritando como um rato, Dante jogou a bolsa na pia e olhou para ela no espelho.

- Você não é real, disse ele.

- Oh, eu sou real. Eu sou super-hiper real, meu amigo. E aquelas pessoas lá fora, eles vão começar a me notar muito em breve. Vá em frente e abra a bolsa, você não acredita em mim.

Dante olhou para o zíper lacrado. Ele não iria entreter o pensamento. Se ele abrisse o zíper da bolsa, estaria se entregando à ilusão. Isso seria loucura. Mas se Machado estava certo, se a fita se partiu e as toalhas escorregaram... se a cabeça começar a feder... Cristo! Ele tinha que saber.

Lentamente, Dante se levantou e se inclinou sobre a pia. Seu reflexo parecia macabro sob a luz do teto: longas sombras cobrindo seus olhos fundos.

Ele então abriu o zíper da bolsa e a abriu completamente. O cheiro pungente o atingiu imediatamente e ele recuou com nojo antes de olhar para a fenda escura. A cabeça do dito santo estava em um nimbo profano de toalhas sujas, fita adesiva rasgada, orelhas de couve-flor e cabelo louro-claro desgrenhado salpicado de sangue. Seu pescoço tinha sido cortado em um ângulo limpo logo abaixo do queixo barbudo, um ferimento que Dante havia cauterizado com o ferro do hotel para evitar que sangue vazasse para dentro da bolsa durante o vôo. Os olhos do cadáver se abriram. Dante largou a bolsa horrorizado, cambaleando para trás até que suas panturrilhas atingiram o vaso sanitário. Ele se deixou cair no assento, seus dentes batiam dolorosamente.

O santo cuspiu uma tira de fita adesiva rasgada e disse:

- Eu te disse.

- Você não pode falar, disse Dante.

- Diga isso ao seu psiquiatra.

Dante balançou a cabeça.

- Eu perdi minha cabeça.

- Ainda não, você não.

- Shhhh! Dante pressionou as palmas das mãos contra os olhos até ver estrelas. Você precisa calar a boca.

- Você não pode se esconder de sua consciência, Dante. E também não pode me esconder aqui por muito mais tempo. Odeio admitir, mas estou perfumado. Eles vão sentir o cheiro de mim em breve, como um pedaço de gorgonzola velho, e quando isso acontecer, você vai cair por um longo tempo, acredite em mim.

- Cabeça na bolsa? Você está olhando para a prisão perpétua, se tiver sorte...

Dante se levantou. Ele pegou a lata de spray desinfetante com cheiro de limão da pia.

- Ei, espere um minuto, amigo- Ele apertou o gatilho e esvaziou o conteúdo da lata na bolsa, a camada de ozônio que se dane. - Você acha que isso vai me calar?

Mas aconteceu. Machado começou a tossir e cuspir e depois de alguns segundos ficou em silêncio. Dante olhou para a cabeça, agora brilhando com uma espessa camada de desodorizante pegajoso e fedendo a limão. Os olhos estavam fechados e a boca idem, do jeito que estavam antes de ele cobrir a cabeça com trapos. Ele tinha delirado tudo isso?

Uma batida forte na porta o assustou. Ele gritou:

- O quê? tentando soar o mais calmo possível e falhando miseravelmente.

- Senhor, o piloto pediu que você retorne ao seu assento imediatamente. A outra aeromoça desta vez, não a ruiva. Ela parecia além de qualquer irritação.

- Por mais que eu adorasse voltar, este vai precisar de uma descarga dupla, eu acho.

Ele praticamente podia ouvir a mulher se encolher atrás da porta. Ele riu pensando nisso antes de Machado de repente começar a gritar:

- Socorro! Socorro! Este psicopata cortou minha cabeça e me enfiou em um saco de boliche!

Dante fechou o zíper da bolsa com um grito assustado e Machado gargalhou. Desesperado, Dante jogou a sacola sobre o vaso sanitário, ergueu a tampa e espiou lá dentro.

- Você não ousaria, disse Machado, aparentemente capaz de ler sua mente.

- Eu ousaria! Dante respondeu.

Mas o cano tinha apenas alguns centímetros de diâmetro e, mesmo que pudesse enfiar a cabeça gorda pelo buraco, voltaria para casa sem sua carga. A Companhia iria matá-lo por muito menos. Fracassando em um trabalho de destaque como este, o Sr. Botelho pode até mesmo fazê-lo sozinho, com as próprias mãos.

Havia apenas uma opção. Ele olhou para a dobra articulada da porta, relutante em voltar lá com a cabeça decepada do tagarela em sua bolsa. Quanto tempo ele aguentaria ouvir aquela maldita coisa?

A julgar pelo tempo em seu relógio, faltavam pouco mais de três horas para chegarem ao destino. Três horas. Cristo.

- Talvez você consiga 40 anos, sugeriu Machado. Eu acho que depende de qual juíz for prender você, hein? Ei, isso me lembra uma velha piada: se um avião cair na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, onde eles enterram os sobreviventes?

Ignorando-o, Dante tirou o mocassim direito e arrancou ferozmente a meia. Antes que Machado pudesse protestar, ele abarrotou a meia na boca do homem. Rapidamente, ele dobrou as toalhas sobre os olhos e a boca dele e fez o possível para recuperar a fita da embalagem, lacrando-a com restos. Quando ficou satisfeito com o trabalho, fechou o zíper da bolsa e puxou a trava de vermelho Ocupado para verde Vago, e abriu a porta. A aeromoça morena levantou-se da poltrona com as sobrancelhas unidas.

- Eu não entraria ali agora, disse Dante, fechando a porta atrás A aeromoça fez uma careta e Dante se virou para a cabine. Ele parecia estar livre e limpo, no momento. Aonde será que ele conseguiria chegar sem se incriminar ainda mais?

- Em lugar nenhum!, veio o fim da piada abafada de Machado. Eles não enterram sobreviventes! Você entendeu?

O avião entrou em turbulência e Dante se apoiou na parede. A aeromoça voltou para seu assento ao lado de sua colega. Dante se agarrou com força a bolsa perto de seu peito. As mulheres olharam para ela com desconfiança.

- Eu ainda quero minha água, Dante retrucou. Ele podia senti-los observando enquanto ele andava rapidamente de volta a sua poltrona pelo corredor. O sósia de Hitchcock havia parado de preencher as palavras cruzadas apenas para olhar para ele.

Dante mostrou ao homem algo parecido com um sorriso e olhou para o caça-palavras. Ele se assustou. O homem havia preenchido a palavra CABEÇA na horizontal e na vertical. Hitch tinha visto dentro da bolsa de alguma forma? Ele poderia sentir o cheiro? Dante não não tenha certeza, mas ele pensou assim. Ele passou apressado e abriu o teto. O avião pareceu cair uma distância assustadora antes de se equilibrar novamente, se atrapalhou e quase deixou cair a bolsa. Seu quadril bateu no assento à sua frente e Hitch olhou para cima com uma carranca de beicinho.

- Não me coloque aí no escuro, vamos lá, seja um amigo! a cabeça implorou.

Mas Dante fechou a tampa do compartimento com força e sentou em seu assento com um suspiro.

- Se sentindo bem? Dante virou a cabeça. Voss estava olhando para ele com cautela.

- Eu estou bem, obrigado.

- Tomou seus remédios, não é?

Quem diabos esse cara pensa que é?

- Isso é certo, Dante retrucou.

- Qual é a sua doença, você não se importa que eu pergunte?

Dante lançou ao homem um olhar ofendido. - Senhor, você não quer saber.

Voss assentiu.

- Tudo bem. Isso é compreensível. Ele se recostou no encosto de cabeça. - Sabe, eu sou um psicólogo. Ele se virou para Dante com um sorriso. - Eu sei o que você está pensando. Você está pensando que o homem branco comum teria que ser muito confuso para receber ajuda de um psicólogo negro. Mas as pessoas que atendo não têm muita escolha. Sou psicólogo forense. A maioria dos meus pacientes, se é que você pode chamá-los assim, estão mortos ou na prisão.

- É verdade?, Disse Dante. A voz do homem era calmante. Pelo menos ele não precisava mais ouvir aquela maldita cabeça.

- Uh-huh, disse Voss. Então eu conheço a aparência de um.

Dante se virou de modo que ficasse totalmente de frente para o homem, intrigado.

- Que aparência é essa?

- A aparência de um homem caminhando na corda bamba entre a sanidade e o abismo.

Acima de suas cabeças, Machado começou a rir. Dante enxugou o suor da testa, lutando contra a vontade de olhar para cima.

- Ele sabe - hee-he-hee... ele sabe, ele sabe que sabe...

- O que você está tomando? Antidepressivos? Barbitúricos? Haloperidol?

Dante não tinha ouvido a pergunta. Ele acenou com a cabeça, engolindo em seco.

- Bem, qual?

- Uh, o último. Haldol.

Voss assentiu pensativo.

- São vozes? Eles estão dizendo para você fazer coisas?

- Você não disse a ele seu nome, Machado sussurrou conspiratoriamente. Não disse?

Sim. O psicólogo havia dito que seu nome era Voss - algo Voss - e Denis havia dito Denis Dante, como se não significasse nada dizer a um estranho seu nome verdadeiro. Dante se forçou a balançar a cabeça.

- Eles estão dizendo para você machucar as pessoas, Dennis?

- Sim! Gritou a cabeça. Machucar as pessoas! Estuprar a aeromoça! Pegue a caneta e enfie nas palavras cruzadas bem na virilha de Hitchcock! Dante balançou a cabeça.

- Eles estão dizendo para você se machucar?

- Corte seus pulsos! Abra sua garganta e derrame suas tripas fedorentas no colo do psiquiatra! Dê um pulo, porra, para fora da janela, seu idiota!

Dante mal conseguiu sacudir a cabeça de novo.

- Mate-se! Culpado! Mate-se, mate-se, mate-se!

Dante gritou e saltou da cadeira. Os olhos de Voss se arregalaram comicamente quando Dante se atrapalhou com a trava, abriu o compartimento superior e agarrou a bolsa. Atrás dele, o cara com o Walkman ergueu os fones de ouvido com um olhar de curiosidade indiferente exclusivo dos jovens. A senhora idosa espiou pelo encosto do banco e o garoto parou seu avião de brinquedo no meio do vôo, boquiaberto. Dante não viu nada disso. Seus olhos estavam focados na bolsa em suas mãos.

- Cale-se. - gritou ele. - Cale a boca, cale a boca!

Voss ergueu as mãos, com as palmas a mostra.

- Está tudo bem, Dennis. As vozes - elas não são reais. Eles estão apenas na sua cabeça.

- Cabeça! Dante gritou.

Era isso, a gota d'água. Todos eles sabiam. Eles estavam todos nisso, conspirando contra ele com a cabeça de Santo Machado. Ele tinha que se livrar, droga, mas onde? Dante avistou a placa de SAÍDA. Ele se virou e correu, segurando a bolsa como um zagueiro indo para a zona final.

Machado riu quando Dante passou pelos banheiros e parou em frente à porta. Dante abriu o zíper da bolsa e empurrou a aeromoça morena de volta em seu assento. Ele riu quando Dante agarrou a alça de emergência e a girou completamente.

- Pronto! - gritou Dante. - Quem está rindo agora, idiota?, por favor! Você não tem que fazer isso!

- Oh, não? Dante puxou a cabeça pelos cabelos e a ergueu.

A mandíbula havia caído e se retorceu em um ricto horrível. Olhos verdes injetados de sangue fitaram com horror vago os passageiros . Voss encolheu-se. As pessoas mais próximas de Dante, acordadas pela perturbação, engasgaram de terror. A velha senhora murchou no corredor ao lado de sua cadeira e seu tanque de oxigênio rolou para longe de seu corpo inerte.

- Sim, disse Dante. Agora você vê.

Sem mais nenhuma palavra, ele abriu a porta com um chute e empurrou a cabeça de volta na bolsa. A porta foi sugada para fora com um baque e uma enorme lufada de ar e a bolsa de boliche se soltou de suas mãos, atirando-se para a noite sem nuvens.

Dante ria loucamente enquanto páginas soltas de jornal e bandejas de comida vazias eram arremessadas por ele e saíam pela porta aberta.

Por um momento, ele pensou que estava livre - finalmente livre - e então a pressão atmosférica o agarrou em um punho frio e o arrastou para fora, para o espaço. Motores a jato rugindo sobre sua cabeça, Dante arremessado de volta em um ângulo íngreme, preso por um momento no turbilhão... e então ele estava em queda livre, observando o gigante avião diminuir à distância enquanto o solo se erguia sob ele, seu paletó ondulando, cabelos chicoteando em seu rosto.

Havia maneiras piores de morrer. Ele poderia ter sido enterrado vivo. Ele poderia ter morrido queimado. Ele poderia ter sido devorado pelo câncer ou levado um tiro no estômago e se afogado em seus próprios fluidos. Isso não foi tão ruim.

Na verdade, agora que não conseguia mais ouvir os motores, era quase sereno. Ele se lembrou de sua juventude, quando ele se sentou na grama olhando para o céu enquanto jatos desabrochavam no alto e se perguntou como seria estar tão longe no ar sem se importar com o mundo, bebendo coquetéis depois do jantar como os anúncios que via nas revistas.

Na vasta escuridão aberta, ele ouviu risadas.

- Não, ele engasgou. Não - Deus, não! Ele viu a bolsa de boliche, uma mancha bege ficando maior na distância abaixo de seus pés. Ele pegou-a no vento, abrindo-se como um para-quedas, e a cabeça do "Santo" Machado caiu para fora. O homem estava rindo.

- A cabeça! A maldita cabeça! Dante gritou. O vento gelado roubou as palavras de seus lábios e ele começou a rir até chorar. A risada de Machado seguiu Dante até que seu corpo caísse no chão.

Todos os ossos do corpo de Dante foram esmagados em um único momento de agonia, carne, osso e órgãos jorrando em um campo aberto. Quando seus restos mortais foram encontrados na manhã seguinte, foi difícil determinar qual cabeça pertencia ao corpo. O legista colocou as duas cabeças na mesma bolsa.