O jovem cavaleiro templário estava observando a tempestade cair pela janela próxima a entrada da cozinha da hospedagem, era o mesmo dilúvio que havia o feito parar ali três dias atrás. A menos de um quilometro ao norte se encontrava o Castelo de Houska, onde era do conhecimento de sua ordem que ocorria um ritual obscuro inominável.

O conselho dos Cavaleiros Templários permanecia reunido no Castelo de Roslin desde antes de sua viagem começar, quando decidiu agir por conta própria antes que fosse tarde demais. A burocracia estava impossibilitando a única chance de defesa da humanidade. Como podem precisar de um veredito para algo tão óbvio?   

Foi servido de carne moída com um molho de cerveja, tomates e cebola. Muita cebola. Acompanhado de um vinho tinto seco. Perto da lareira haviam dois homens conversando e tomando uma cerveja escura, pelas vestes eram mercenários, pela língua, irlandeses. O cozinheiro se chamava Gustav, era um gordo simpático, de rosto rosado e que aparentava estar sempre suado, talvez pelo calor do fogão, seu avental possivelmente nunca recebeu uma boa lavagem. Com ele descobriu interessantes acontecimentos locais como barulhos noturnos que pareciam urros de bestas selvagens inidentificáveis; o aguaceiro que teve início depois que luzes estranhas começarem a ser avistadas emergindo do temido castelo da região; e o mais curioso: as mortes inexplicáveis, e aparentemente acidentais, de todos os moradores que avistaram o fenômeno noturno. 

O cavaleiro aproxima-se, o cozinheiro logo pergunta – Vai querer mais um prato? Também temos queijo duro, se lhe agradar. 

O jovem balança a cabeça negativamente ao corpulento homem – Queria saber mais sobre o Castelo de Houska...  

O cozinheiro tapa sua boca - Não fale esse nome, afasta a freguesia. Venha comigo. – Eles seguem até a dispensa

- Seja breve rapaz, o que quer saber daquele lugar terrível? 

- Preciso de uma maneira para entrar lá sem ser notado, conhece algum caminho? – Gustav ri depois de ouvir o templário. 

– Entrar sem ser notado? Você está louco? Precisaria andar quase um quilometro floresta adentro até chegar uma passagem aberta sabe-se lá por quem na rocha bruta, que desemboca em um rio subterrâneo que passa pelo castelo, tem uma porta que dá nas masmorras, que está trancada... – O cozinheiro treme todo e faz uma cara de espanto começando a gaguejar como se fosse abatido por uma memória a muito esquecida.

– Vo-vo-você não ou-ou-ouviu iss-sso de mim. Pre-pre-preciso voltar ao tra-trabalho. – se retirando o cozinheiro vira para traz.  – Não v-vá lá! Coisas te-terríveis acontecem entre daquelas pa-paredes. Co-coisas que nenhum homem já-jamais deveria ver. Co-coisas que não dev-deveriam acontecer. 

Como saberia ele de tantos detalhes? Bem, não importa, já passou da hora de partir. Espero que não esteja tudo perdido.

Subiu ao quarto e pôs ao pescoço o amuleto de São Jorge, embainhou Joyeuse e desceu novamente ao saguão principal onde gritou aos serviçais para encilharem seu cavalo. Gustav sai da cozinha gritando

 – Com essa chuva? Enlouqueceu? 

O jovem cavaleiro continua em direção a saída enquanto responde – Justamente por esta chuva que sei que não posso mais perder tempo.

Vestiu seu casaco, cobriu a cabeça com o capuz e retirou-se antes que o diálogo se estendesse, um homem magro de cabelos loiros e olhos azuis trazia, com dificuldade, seu cavalo encilhado. O animal estava relutante, o chão escorregadio e o vento tão forte que pareciam que estavam debaixo de um ciclone. Caminhou na direção do serviçal acompanhando cada um de seus tombos, quando finalmente pôs as mãos em seu companheiro de viagem este pareceu se acalmar. Montou. Despediu-se do homem, que estava embarrado dos pés à cabeça, e seguiu seu caminho.

Sentia os pesados pingos caírem sobre as costas, menos de cem metros da estalagem e já estava encharcado. Saiu da estrada principal e penetrou na relva em direção de Houska, o cavalo seguidamente tentava alternar a rota e estava assustado, parecia pressentir algo que passava despercebido pelos instintos do templário. 

Muitas das arvores cederam à tempestade, já passou do tempo que era estimado pela estrada e não tinha avançado metade do percurso que deveria alcançar antes do anoitecer. As trevas tomavam conta das vistas e seguia em velocidade reduzida, fora as paradas para desviar os troncos e pedras que atrapalham o já complicado caminho por entre a mata.

Deparou-se com rocha sólida e talvez ali fosse o ponto que descobriria a entrada secreta, procurou inutilmente alguma corrente de água e o sino do toque de recolher alertou-o que já havia se atrasado mais do que pudera. Rezou para que Deus guiasse-o e para que pudesse cumprir sua missão. 

Um raio atingiu seu cavalo que caiu levando-o junto a queda, não sentiu nada além da incapacidade de reagir. Caiu de nuca no barro e machucou as costelas nas pedras. Não conseguia se mexer, a dor era forte demais, mas continuava consciente. Não posso permanecer assim, algum animal pode me encontrar aqui no meio da floresta. Ou pior...

Apesar da indignação, nada podia fazer. O animal também não movia um musculo e o cavaleiro nem podia ver se este ao menos respirava. Enxergava de pouco a nada, a chuva continuava forte e a noite escura como nunca. Permaneceu ali.

Começaram os sons que ecoavam parecendo ser inexplicavelmente oriundos de todas as direções. Um aroma infernal tomou conto do lugar. Enxofre? Luzes brilhavam anormais no céu, uma espécie de aurora boreal brilhava acima de sua cabeça o que apesar dos apesares iluminou o lugar e pode ver que o cavalo estava morto.

Finalmente pode reagir e com dificuldade pôs-se em pé. Foi jogado para longe de onde havia marcas da incidência do raio. Tentou andar na direção do acidente e pisou numa pedra que rolou e o fez cambalear buscando equilíbrio, seus passos pesados fizeram eco sobre uma superfície de pedra que soava como oca. Deve ser aqui!

Moveu algumas pedras menores e procurou um ponto que pudesse erguer aquela prancha de pedra lisa. Achou uma pequena fresta qual não passava a sua mão e resolveu usar a própria espada, o que parecia ser burrice para ele mesmo, pois poderia estragar o fio ou entorta-la. Embocou a ponta da arma e colocando o peso do corpo no cabo forçou para baixo e com isso ergueu a pedra o suficiente para pega-la com as mãos e remove-la dali. 

Analisou a espada que não parecia ter sofrido alterações com seu uso indevido. Observou a brecha estendida e agora com as mãos capazes de trabalhar diretamente no peso, conseguiu abrir caminho. Dentro a escuridão era total, com a luminosidade de fora notou que a parte interior daquela rocha era o lado que foi pretendido ser utilizado, possuía alças esculpidas e degraus de apoio aos pés. Para evitar suspeitas acaso houvessem rondas, conclui que seria sensato fechar a abertura. Possivelmente não foi sua melhor ideia, não podia ver um palmo à frente de seu nariz depois que fez isso. O chão era úmido e coberto por um limo escorregadio, o perigo de cair dentro do rio subterrâneo era eminente e sua profundidade e correnteza eram incógnitas, só ouvia o barulho próximo da água.

Seguiu tateando as paredes e garrando o que podia, tentando buscar nas mãos a segurança que faltava aos pés. Por que não pensei numa tocha? Estou encharcado, provavelmente nem acenderia. O corredor estreito que o guiava cegamente abriu em uma larga passagem, no centro o rio corria com uma pressão absurda, várias finas pontes guiavam de um lado a outro e archotes clareavam sua vastidão. Podia ouvir as conjuras sendo recitadas de longe. Tremeu da cabeça aos pés. 

Não passava de um aprendiz da luz e andava em direção do maior mestre da escuridão de todos os tempos. Era um bom espadachim, sua intuição era aguçada, Deus o acompanhava, mas não tinha a menor ideia no que estava se metendo, nem realmente sabia o que faria ao chegar lá. De qualquer maneira era tarde para voltar. Se estou caminhando para a minha morte... Que seja! 

Atravessou uma das pequenas pontes seguiu pelo outro lado do rio e graças ao sons do ritual achou a porta. Empurrou-a e ao contrário do que tinha lhe dito Gustav, estava destrancada. Malditos ocultistas prepotentes. Instrumentos de tortura preenchiam o lugar juntamente com cadáveres, o aroma de enxofre misturou-se ao de podridão. Sem dúvidas se acaso visitasse o inferno, este seria seu cheiro. 

Seguiu por entre os mortos e tomou à esquerda, que levou-o ao calabouço. O caminho da direita não era iluminado e provavelmente devia ser algum depósito ou região de menor uso. GUARDAS! Isto era inesperado, soldados patrulhavam as celas, eram apenas dois, pelo que pode ver espiando de seu esconderijo atrás da parede da sala anterior. Como poderei passar? Eles andavam em dupla e não sabia da extensão daquele lugar, o barulho de seus passos soou fraco e distante o templário espiou novamente. Não estavam mais lá. É minha chance! Andou na maior velocidade que lhe era possível sem fazer barulho, olhando assustado para todos os lados, não realmente sabia onde os guardas haviam parado e sua vida obviamente estava em risco de qualquer maneira. 

O que não esperava é que as celas ao invés de abrigarem prisioneiros, estavam repletas de bestas: Uma lobisomem ciclope devorava a carcaça de um javali. Macacos com quatro olhos vermelhos, quatro braços e asas brigavam entre si numa cela imensa. Algo que parecia um dragão humanoide lambia sua genitália. Porcos humanoides devoravam a carne de o que parecia ser um homem. Uma estrige bebia de um caldeirão repleto de sangue. Um fauno lia um livro na luz segurando uma tocha com o rabo. De onde saíram todos estes seres? Como pode ser possível? Continuou procurando a saída em meio aquela bizarra coleção de espécimes. Chegou a uma espécie de sacada que rodeava um poço com uma serpente imensa, que estava há uns quatro andares abaixo, todos com a mesma formação e provavelmente muitas outras aberrações. Era uma imensa coleção de horrores. Devem haver mais guardas. 

Um espécime que parecia uma sanguessuga com asas o avistou e começou a fazer um barulho ensurdecedor que parecia um choro de criança. Ouviu passos rápidos em sua direção, desembainhou a Joyeuse e esperou pelo combate. Antes do esperado sentiu uma presença em suas costas e conseguiu esquivar-se do inimigo e cravando sua lâmina no estomago do adversário deu fim a sua vida, ensopando suas mãos de sangue e vendo pedaços do intestino saírem do ferimento que havia causado. O segundo deferiu um ataque que atingiu o cadáver do companheiro de guarda ficando com a espada presa, esta era a deixa para o jovem cavaleiro degolar o inimigo com um golpe rápido e certeiro. Mais quatro adversários fecham o cerco. 

Não era a sua primeira batalha, já havia enfrentado um exército inimigo em Jerusalém. O que o aterrorizava nestes soldados de armadura negra e rosto coberto por elmos sinistros era o extremo silencio durante o combate. Enquanto o templário urrava, e gemia estes recebiam ferimentos mortais sem nem tornar a respiração ofegante, não pareciam vivos. 

Sentiu uma pancada nas costas e algumas de suas costelas quebrarem, decepou o braço agressor e atirou sua espada em outro dos soldados, ajuntou a clava encharcada pelo seu sangue e deferiu um golpe arrancando o elmo de um terceiro, recuperou sua lâmina o metal gelado da arma inimiga foi cravado em sua perna, o que fez o guerreiro cair no chão. Ouviu mais passos se aproximando. Fechou seus olhos. Então este é o meu fim... Gritos acompanhavam os passos e uma disputa começou a ocorrer. Abriu os olhos e os inimigos estavam mortos e outro templário estendia-lhe a mão. 

– O que faz aqui sozinho? Por que não esperou a ordem do conselho? 

O jovem cavaleiro aceitou a ajuda para se levantar, mas não quis responder. Juntou sua espada, colocou-a de volta a bainha e disse a todos os companheiros do exército de Deus. – Creio que ele esteja em algum andar debaixo do nosso. Este castelo parece chegar ao centro da terra. - Muitos concordaram com a cabeça e o comandante finalmente mostrou-se. 

Era um nórdico alto e robusto, sua idade era expressa pelos cabelos grisalhos e rugas no rosto, seu corpo era tão forte e robusto que parecia gigante perto dos demais. Vestia uma armadura prateada adornada com esmeraldas. A advertência que este lhe daria era eminente e o jovem templário a ouviu calado. Estava errado e sabia muito bem disso. Nem ao menos tinha de fato se adiantado, muito menos salvado o mundo, muito pelo contrário, precisou de resgate. Estava humilhado e sentia-se um imbecil. Não tendo tempo a perder o comandante real da operação foi breve e direto sobre a necessidade de disciplina na ordem, depois ordenou a aniquilação daqueles demônios engaiolados. Metade dos cavaleiros foi designada para isso outra metade seguiu com o jovem templário e o comandante para confrontar o sumo sacerdote que dizia ser o deus egípcio Seth.

Lá estava ele, mancando em direção da batalha de sua vida ao lado dos maiores soltados do exército de Deus. O primeiro templário que seguia a frente era o mais velho, com grande conhecimento em orações e nos conhecimentos ocultos. O que ia em segundo tinha o cabelo completamente raspado, era bem mais alto que os demais, vestia uma armadura dourada decorada com rubis. Seguido do terceiro, comum longo e fino bigode, cabelos negros até a cintura, era o mais baixo e magro. O quarto de cabelo dourado e crespo até os ombros o segundo maior e mais robusto, estava numa armadura prateada sem adornos andando no mesmo passo que o quinto. Que tinha uma grande cicatriz cobria o lado direito do rosto, mancava discretamente e tinha no olhar a frieza de quem enfrentou a morte. O sexto era ruivo, tinha o cabelo curto e uma barba que descia até o final do peito, não chegava a ser baixo, mas a massa muscular dele que impressionava. A armadura deste era de ferro bruto, sem nenhum adorno e cobria menos da metade do corpo. Ele estava atrás do sétimo e falava sem parar, lutar o empolgava mais que qualquer outra coisa. O sétimo e ultimo templário que seguia em direção do ritual não vestia armadura ou armas, parecia apenas um sacerdote e o jovem cavaleiro jamais cruzou os olhos com ele em nenhuma missão das Guerras Sagradas. 

Desceram os quatro andares daquele calabouço e deram de frente com uma porta imensa, parecia ser feita de ossos humanos. Em seu relevo haviam seis saídas de ar e todas largavam uma espeça fumaça que tomava conta do lugar deixando o ar denso e fétido. Não podia se ver muita coisa e apenas dez guardas alinharam-se a porta. O Sétimo conjurou alguma magia, que ainda não era do conhecimento do jovem templário, com a mão estendida em direção dos rivais e estes caíram mortos ou desmaiados imediatamente. Os guerreiros de Deus entram no salão principal, ansiosos, nervosos e empolgados. 

- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMMMMMMMM!

Um estrondoso som ecoa no ambiente iluminado apenas por um buraco no chão que parece dar no próprio inferno. O brilho vermelho, o calor insuportável e o ar pesado seguiam a risca os piores pesadelos de qualquer ser humano. Acima do fosso de lava uma esfera de bronze estava aquecendo. As escrituras no exterior começam a se tornar visíveis. 

Seth encontra-se no altar recitando um feitiço do seu grimório, uma mascara de prata lhe cobria o rosto: uma caveira sem maxilar. Na mão esquerda tem um cajado de ouro com a cabeça de um Aardvark com olhos de rubis na ponta superior. Usava vestes pretas, capuz e uma grossa corrente com um amuleto. Uma chave no formato de um Ankh. Este continua o ritual parecendo não se importar com a presença deles. O Primeiro comunica aos guerreiros presentes – Está é a batalha de nossas vidas. Deem o melhor de si. Se ele concluir o ritual será o fim do mundo como o conhecemos e a humanidade será extinta.

O olhar do sacerdote afasta-se do grimório e recai sobre eles. O amuleto de São Jorge começa a brilhar e sai de dentro de suas vestes. O Terceiro olha para o jovem cavaleiro e indaga- Então foi você que roubou nossos artefatos mais valiosos. Dê insto para um dos Sete e teremos chance de vencer. - Era tarde. Um flash saiu do olhar do sumo sacerdote ocultista e todos os guerreiros de Deus sentiram uma dor intensa e inexplicável em seus corpos. A maioria cai, mas o jovem templário protegido pelo amuleto fica em pé. 

Seth voa em direção dos templáricos, seu cajado lança um raio no Terceiro que envelhece até virar apenas ossos em segundos. O Quinto tenta recitar um feitiço e o sacerdote estende a mão em sua direção e o lança rumo ao teto onde seu corpo é espatifado. O Segundo, o Quarto e o Sexto conseguem concluir o feitiço e lançam uma chama azul no inimigo que não queima. O que surpreende até o Primeiro e o Sétimo. O mago das trevas ri de uma maneira grotesca e gutural, parece mais um urro monstruoso que algo humano. 

O bruxo flutua cada vez mais baixo até botar os pés no chão, diz algo numa língua desconhecida e bate o cajado no chão fazendo sua sombra se esticar em tentáculos e envolver os três cavaleiros  que haviam tentado lhe ferir. Da sombra brotam lâminas negras que perfuram seus olhos, depois corta seus tendões, deixando-os agonizando e ansiando pela morte enquanto podem apenas ouvir o que acontece ao seu redor. O Primeiro aproveita a vulnerabilidade do rival que se encontra no chão, ao seu alcance, e defere um golpe com sua espada que se parte ao meio sem nem cortar o capuz negro de Seth. Este crava sua mão no peito do guerreiro arranca-lhe o coração e destroça-o com a mão nua. 

O jovem templário tremia da cabeça aos pés. Estava paralisado com sua espada desembainhada vendo todos os seus mestres serem aniquilados com uma facilidade aterrorizadora. Esse monstro é invencível. O que eu posso fazer? 

O sumo sacerdote volta a flutuar e vai em direção do Sétimo e ultimo aliado do jovem templário, este muda diversas vezes as posições de sua mão e lança uma energia que ilumina todo o ambiente, o golpe atinge o peito de Seth que segue na direção do inimigo até que simplesmente encosta seu cajado em sua cabeça e este explode espalhando sangue, juntamente com pedaços de crânio e tecidos internos para todos os lados. Desesperado o jovem cavaleiro sai em disparada numa última para deter o Apocalipse. Ignora a dor na coxa. Ignora o medo. Ignora a escuridão e as incertezas. O bruxo vira-se e o Conde crava Joyeuse em seu peito. Nenhuma palavra sai de sua boca, mas um pensamento invade a mente do jovem guerreiro.

“Hoje me libertaste da maldição da imortalidade carnal. Assim como eu, verá todos seus entes queridos morrerem antes que envelheça. Enterrara seus filhos, netos, bisnetos até não poder mais conviver com as gerações que se sucederem. Verá seu corpo não suportar a idade e o poder contido em sua alma. Dez milhões de anos foram vistos por esses olhos que finalmente vão se fechar. Meu espírito será livre. Só que antes...”.

Em seu ultimo movimento em vida Seth tira o amuleto de Vixnu do pescoço do Conde, que ao contato de sua pele a queima. Pouco depois de tira-lo do pescoço do jovem a mão do bruxo desintegra completamente. Este cai no chão e de seu corpo uma estranha energia emana e entra no corpo do templário. 

O buraco no centro do salão, que estava em chamas até pouco tempo, fecha-se e toda a escuridão e fumaça do ar entra no cadáver de Seth. Diversos archotes aparecem brilhando e iluminando o lugar. O Conde observa o corpo mumificado e azul de Seth, vê também que de sua mão sai um sangue preto e grosso, muito diferente do humano. Entretanto não há tempo para isso, ele caminha até o altar e pega o livro que o sacerdote estava lendo, precisa proteger o mundo daquilo e sabe que este não será um trabalho fácil. Tenho muito trabalho pela frente. 

Decidiu voltar depois para buscar a esfera e aprisiona-la, pois precisava antes se livrar do livro. Os dois objetos possuíam energia demoníaca suficiente para corrompê-lo e não podia arriscar. Saiu do salão levando o manuscrito maldito e vê uma pilha de ossos onde antes havia a porta. Todo o castelo estava mais iluminado.

Os animais nas celas estavam mortos, com exceção daquela serpente marinha. Seu tanque estava vazio, era impossível que apenas o seu cadáver tinha desintegrado e a grade que bloqueava a saída para o rio subterrâneo estava aberta. O que era um mal sinal. Provavelmente sou o único sobrevivente dessa tragédia do lado do bem, e ela provavelmente o último animal infernal, não preciso ser profeta para saber que iremos nos reencontrar. 

Quando chegou ao lado de fora do castelo, desta vez pela porta principal. Viu uma linda alvorada. O céu estava limpo e azul. Talvez fosse uma vitória.