Fui caminhando encontrar Rafael em seu apartamento que fica apenas uma quadra longe da minha casa, era uma noite fria e eu tive a infeliz ideia de ir de saia e meia calça, ventava forte e eu tremia de frio enquanto esperava ele descer me abrir a porta. De lá iríamos de carona com Thiago até o show do CPM 22, onde encontramos toda a galera.  

Analisando o prédio do ângulo no qual me encontrava, ele era meio sinistro. Nada extremo, mas sutilmente tinha uma aura macabra. Era o primeiro prédio da cidade, construído em 1920, tinha apenas quatro apartamentos de dois andares. Sua construção não era tão diferente, mas não se parecia com nenhum outro prédio que eu já tinha visto. Suas longas sacadas ovais com protetores de sol de metal. Escadas laterais para entrada nos apartamentos. Na frente uma loja fechada desde que me mudei para essa cidade quando comecei o curso de medicina a três anos atrás. Por que nunca alugaram novamente? Eram apenas duas quadras da avenida principal da cidade, mesmo essa rua em questão ser meio mal iluminada, era um bom ponto.

Rafael na verdade é um sortudo, apartamento de dois andares, mobiliado, novecentos reais de aluguel e nem tem condomínio. Eram dois quartos, duas salas de estar e uma de jantar, dois banheiros (um com banheira), cozinha, aquecedor a gás, área de serviço e uma sacada maior que minha quitinete. Alias, pago mil e duzentos, mais quatrocentos reais de condomínio para um quarto, um banheiro/área de serviço e uma sala/cozinha... pelo menos meu prédio tem elevador.

Toquei o interfone mais uma vez, pois não aguentava mais bater queixo esperando aquele desgraçado descer. 

- Thaisa? – perguntou Rafael.

- Claro né cara, abre essa porra tá um frio do caralho aqui fora. 

Ele desceu e subiu a escada correndo alegando que se enrolou jogando videogame e estava atrasado. Eu subi devagar olhando para os degraus, morro de medo de cair de escadas.

- Tatá? - chamou uma menininha loira de olhos azuis em um vestido rosa.

- Olá meu amorzinho. – respondi.

Ela chupava o dedo e ria me olhando nos olhos, cheguei em frente a ela e estendi os braços para pegá-la no colo. Ela saiu correndo para dentro do apartamento e ao segui-la quase esbarrei em uma senhora de uns setenta anos. A julgar pelas rugas, cabelos brancos e vestimentas antigas. 

- Crianças. – ela disse – são uns amores, mas não param um minuto.

Depois do susto inicial parei para reparar em um fato peculiar do apartamento do Rafael: a mobília clássica que vinha junto com ele, tudo aquilo devia ser tão antigo quanto o prédio. Voltando minha atenção para aquelas duas, pergunto-me: quem são elas? Acho que seria indelicado pedir, sendo que não sou nada além de amiga dele. Esperarei ele nos apresentar.

- Ó... Desenho. – disse a menininha me alcançando uma folha com uma casinha daquelas que todas as crianças desenham, com um gramado florido no topo de um morro com um sol sorridente no céu.

- Nossa, que linda! – disse para ela.  – Você vai ser uma artista quando crescer?

Ela balançou a cabeça positivamente e a velha cruzou os braços e sorrio.

- Ela sempre só quer pintar e pintar, se você der um lápis e uma folha para ela, nem nota que ela está aí. As vezes reclamo por que sou velha, ela nem me incomoda. É um amor.

- Já estou indo! – gritou Rafael. Devolvi o papel para a menininha.

- Moça bonita. – disse a menininha.

- Agora dá um beijo de tchau para a moça que ela precisa ir embora. – disse a velha.

Abaixei-me e ela me deu um beijo na bochecha e disse ‘tchau’ caminhando de costas abanando, depois se deitou no chão junto aos papéis e lápis e voltou a desenhar.

- Que fofa! – eu disse para a senhora. 

- Quem? – perguntou Rafael que vinha botando a camiseta.

- Sua irmã.

- Que irmã?

- A menininha que está... 

Fui apontar para onde ela estava e não havia ninguém. Olhei para a onde a senhora estava e também não havia nada. Sai porta a fora e nenhum sinal delas. 

- Você está ficando louca? – falou Rafael.

Comecei a correr entre os cômodos ligando as luzes e procurando por elas, não havia mais ninguém lá. Será que estou ficando louca? Voltei para a sala e Rafael me encarava com uma expressão mista de confusão e medo.

- Com quem você estava falando?

- Com uma menininha loira de olhos azuis e uma senhora velha de cabelos brancos.

- Tá me zoando né? – ele disse abrindo um sorriso. - Admito que você me deixou assustado. Falou isso só por que viu o retrato delas ali né? 

Ele apontou para um quadro que estava na parede da sala que ficava atrás de mim, me virei e eram elas junto com um velho gordo de bigode farto que vestia um terno azul escuro com gravata vermelha e camisa amarela. Era uma fotografia muito antiga, aquelas primeiras fotografias coloridas que meio que pareciam uma pintura. E ERAM ELAS.

- Segundo o cara que me mostrou o apartamento, eles foram os primeiros a morarem aqui. Os pais da menina morreram em algum acidente... ele me disse, mas não lembro. Enfim, daí ela foi criada pelos avós aqui. Alguma coisa acabou acontecendo com eles também, mas não lembro o que. Eu até tentei tirar esse quadro porque acho ele meio sinistro, mas nunca consegui. Não sei com o que colaram essa merda na parede.