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Encerado

Uma melodia toca, a neve se transforma e uma família esquece que já teve outra filha.

Encerado
A neve era comum em Ecostnland, Canadá. Cobria jardins, telhados e estradas em uma espessa camada branca. Em maior parte do ano, o sol parecia incapaz de atravessar as nuvens acinzentadas, e as noites chegavam cedo, acompanhadas do assobio gélido do vento atravessando árvores desnudas.

A família O'delere já havia se acostumado àquilo, até gostavam do frio.

Dentro da casa, Melissa O'delere permanecia sentada diante de uma escrivaninha de madeira escura. À sua frente, repousavam diversas folhas pautadas, algumas preenchidas com anotações musicais meticulosamente organizadas. A menina segurava um lápis entre os dedos, analisando atentamente os últimos compassos de sua composição.

No alto da primeira página, em letras delicadas, estava escrito: O Trevo e as Três Rosas.

A garota acrescentou uma última nota, desenhou uma pequena barra dupla e afastou o lápis do papel.

Ela olhou para o relógio: 9:32 p.m.

No quarto ao lado, Lily O'delere também terminara suas atividades. Seus cadernos escolares estavam abertos sobre a mesa, cheios de cálculos e equações. 

Ela também olhou para o relógio: 9:32 p.m.

Naquele mesmo instante, ouviram-se passos no corredor, seguido pelo ruído de uma chave girando na fechadura.

— Chegamos, crianças  — disse Christian O'delere, o pai da família.

Melissa foi a primeira a chegar aos pais.

— Oi, irmã - disse Ester, sua irmã mais nova.

— Oi.

— O que disse?

— Ela te cumprimentou —  disse a mãe, Sabrina, falando no ouvido dela.

— Ela me cumprimentou?

A mãe assentiu com a cabeça.

— Oi, pai. Oi mãe. Oi Ester. Onde foram? — perguntou Lily, saindo do quarto.

— Fomos no médico. Para tentar saber o que está acontecendo com Ester...

Christian concordou e colocou seu chapéu no coat rack ao lado da porta.

— Então, sentem-se perto do piano, por favor. Tocarei uma melodia — desviou.

Christian e Sabrina se olharam e riram, concordando.

— Vou brincar lá fora. Não curto piano — disse Lily, saindo da casa.

Todos sentaram atrás de Melissa, que estava sentada no banquinho à frente do instrumento. 

— Está música se chama O Trevo e as Três Rosas.

Os vizinhos mais próximos eram os Walkers, que moravam a quase cinco quilômetros da residência dos O'delere. Esse caminho até a família Walker era cercado de árvores sem folhas, pedras e neve. A casa de Christian era cercada por uma floresta, que, à primeira vista, parecia morta.

— "Olá senhora pedra, sou Oswald Rock, a pedra. Gostaria de dançar?" — brincou Lily, com duas pedras gélidas que encontrara no chão.

A menina fez um boneco de neve e deixou a "senhora pedra" e o "Oswald Rock" em cima da cabeça do boneco.

— "Oh, não! Tem duas pedras dançando em minha cabeça! Ajudem-me! Ajudem-me!" 

Melissa pigarreou e tocou a primeira tecla, lentamente. 

Um floco de neve caiu sobre Oswald. Lily pegou o floco e o esmagou com o polegar e o indicador. Sentiu o dedo ficar meio quente.

— É o atrito — supôs.

Melissa olhou para trás, ainda tocando as teclas do instrumento musical.

— Esta música foi criada na era medieval! 

— Como sabe?

— Eu vi em um livro!

As notas eram delicadas e se misturavam harmoniosamente, alternando sons agudos e graves. A melodia adquiria uma qualidade hipnótica, quase celestial. Era como se um anjo pressionasse delicadamente cada tecla.

Lily se jogou naquela neve e sentiu seu corpo esquentar um pouco. Ela pegou um punhado e sentiu claramente: era morno. Como a jarra de leite quentinho no café da manhã. Ela o largou, por puro instinto. Ela tentou voltar para sua casa, mas seus pés prenderam-se ao chão, como se uma mão firme segurasse seu tornozelo. 

— O quê?!

Ela olhou pela janela: sua irmã a encarava, sorrindo maliciosamente, enquanto tocava o piano aveludadamente. 

— Irmã! Me ajude! Me ajude!

Melissa tocou mais rápido, e o que eram apenas flocos soltos planando no ar, tornou-se uma nevasca forte. 

— AJUDA!!!

Uma partícula caiu em seu olho esquerdo. Uma dor pulsante cobriu seu corpo, como um calafrio angustiante. Ela tentou abrir seu olho novamente, em vão. Parecia que a pálpebra tinha grudado na córnea. 

— POR FAVOR ME AJUDE!!! — berrou, entre soluços.

Ela viu seu cabelo endurecer e ficar branco. Lily supôs ser gelo, mas era quente demais para isso. 

— Me ajude...

Ela então soube o que era. E soube bem. Cera.

Seus pais não olhavam para ela, apenas para o piano. Ester a encarava, assustada, cutucando a mãe.

— Mamãe. A Lily. Mamãe. Ela está assustada. Mamãe.

A melodia parou, mesmo vendo Lily, eles nem se importaram.

— Mamãe.

— Oi, Ester?

— A Lily. Ela ficou lá fora. Vamos ajudar ela!

Sabrina olhou confusa para Ester.

— Que Lily?

Autor Principal Thor Thiago Segovia Pinto
Publicado em 30 de outubro de 2026
Atualizado em 2 de novembro de 2026
Categoria Contos

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