New Haven, Connecticut. 1987. Um silêncio inebriante se instalava todas as noites ao redor da Igreja Adventista Brasileira de New Haven, a mergulhando em uma fama macabra nos jornais desde os acontecimentos do verão anterior, quando um grupo de 113 fiéis colocaram fim em suas vidas, e de seus filhos, na tragédia que ficou conhecida como “o massacre da igreja brasileira”.
Até aquele dia de inverno a igreja mantinha-se afundada em silêncio, lembrada apenas nos jornais e na televisão. Era um assunto que ainda parava a vida de todos, era recente, mórbido, o que fazia dele uma audiência garantida, tomava conta dos principais veículos de comunicação, colocando um único nome quase que de imediato na boca da América: o de Richard Reis, o pastor suicida. Sua fama aumentara consideravelmente, mais do que jamais tinha sonhado em vida: passou a ser considerado uma das mentes mais doentias dos Estados Unidos; ganhara, nos poucos meses que se passaram após a tragédia, teses e análises acadêmicas que especulavam sobre sua personalidade, revisitavam sua história e descobriam seus interesses através de entrevistas com alguns conhecidos distantes. Com a chegada do inverno, o assunto não cessou. A igreja continuava deserta, ignorada por uns e defendida por outros que, em um primeiro momento até tentaram voltar à rotina normal, mas tiveram que enfrentar os fatos: nada voltaria a ser como antes, aquela fama se disseminava cada vez mais, o massacre continuava a matar o espírito da comunidade, como se a igreja estivesse enfrentando uma depressão brutal.
O primeiro ano da tragédia quase se fechava quando Elias Marino chegou sob as expectativas quase inalcançáveis dos fiéis mais antigos, reascendendo uma pequena esperança de que aqueles pesares se tornassem mais suportáveis, talvez até reanimando a fé que muitos haviam perdido. Elias era relativamente jovem, já com seus trinta e quatro anos, tinha energia e disposição o suficiente para cumprir seus objetivos. Acreditava fortemente no poder de sua fé, ainda que tivesse se questionado muito no passado após a morte de sua mãe, única pessoa com que já pode contar; seu pai sumira no mundo pouco depois de seu nascimento — “talvez já tenha morrido”, pensava, tentando convencer-se de que aquela desculpa não o agradava. Mesmo duvidando de muitas coisas, acreditava no que fazia e em como conseguia tocar as pessoas através de seu trabalho. Tentava dar-lhes o alento que nunca recebera, usar de sua palavra para alcança-los, e muitas vezes conseguia. Acreditava tanto no que fazia que não conseguira esconder o rosto descontente ao chegar à igreja aquela tarde, depois de atravessar um frio cortante do hotel até a as enormes portas de madeira, cujos entalhes encarava com desdém... “brega demais”, analisou. Batia o queixo feito um miserável qualquer. Tirou a chave do sobretudo surrado, que por sua vez cobria outros três blusões igualmente velhos, e destrancou as obstruções antiquadas; os dois anjinhos se afastaram conforme as portas se abriam, a poeira levantou diante da luz como se o aguardasse, misturando-se a friagem que lhe estapeava o rosto violentamente, um cheiro de mofo o convidava sutilmente para entrar, guiando seus passos entre os bancos empoeirados. Por um momento, sentiu-se diante da cena. Se viu novamente pensando nas pobres pessoas que ali se desfizeram, algo que não fazia há muito tempo, mas agora, estando ali, sentia aquela noite de verão mais presente do que imaginava quando lia nos jornais. Quase ouvia a música que embalou o último momento daquelas pessoas, antes dos primeiros desmaios e dos gritos das crianças minutos antes de apagarem. Foi um envenenamento coletivo organizado por Richard, caíram como se tivessem ensaiado e ele, em pé diante de todos, admirava suas vidas esvaindo-se dos corpos; por fim, empunhou uma arma e apontou-a contra o céu da boca, livrando-se de tudo em um único disparo. Por mais que higienizassem o local, algumas marcas de sangue no chão ainda delatavam o acontecido.
Elias colocou-se diante do pequeno palco, afrontando seus pensamentos.
Conseguia sentir a presença de Richard. “Talvez seja esse o seu legado”, pensou, sua presença inabalável na consciência das pessoas que com ele dividam sua fé, que acreditam nas mesmas coisas que tal criatura fora capaz de propagar em vida. Sua presença imortal, enraizada na dor.
Quando a poeira começou a baixar, um sentimento ruim o dominou.
Os trabalhos seguiram e, para um primeiro dia, conseguira até ser proveitoso. Com uma breve limpeza, um pouco de luz e algum esforço, Elias conseguira tornar aquele ambiente novamente apresentável. Empilhou alguns bancos contra as paredes e manteve os mais conservados no meio do salão, devidamente limpos. A noite já tinha começado quando resolvera agilizar o trabalho e explorar de uma vez por todas o porão; desceu a escadaria podre, deparando-se com as entranhas esquecidas daquele galpão, onde não só a poeira e o mofo atestavam seu abandono, mas um cheiro estranho de carniça se misturava aos restos podres da igreja.
Esquecido em um canto mais escuro, há muito sem vida, encontrou uma antiga vitrola à manivela que, para sua surpresa, ainda funcionava. Ele não achara nenhum outro disco em toda a igreja além daquele que ainda estava posicionado no prato, cujo rótulo trazia apenas as palavras Sacro Mortis escritas à caneta. Elias levou o aparelho para o salão, onde o colocou novamente pra rodar.
A agulha estalou sobre o vinil sem maiores alardes. Quando a música começou, várias vozes quase inaudíveis a acompanhavam, sussurravam uma prece estranha, não lhe parecia latim, mas também não lembrava nada que conhecesse, mal conseguia ouvir palavras soltas, desconexas de qualquer sentido religioso; entre um estalo e outro ouvia um “apagado”, “morada”, “serviço” entre outras coisas... a música era razoavelmente alta, mas também lhe soava estranha, sem um ritmo definido. Imaginara ser uma espécie de hino a ser tocado em certas ocasiões, chegava à essa conclusão quando um arrepio o fez repensar, a friagem piorava durante a noite e alguma corrente de ar o encontrara. Voltou às portas bregas para certificar-se, mas estavam bem fechadas. Atrás delas uma fina chuva de neve caía sobre a rua.
Os estalos continuavam ritmando a música, quando subitamente sentira aquela sensação — a mesma que sentira no colégio — de estar sendo observado, atraindo a atenção de centenas de olhares curiosos e ameaçadores. Ele agarrou-se à porta e voltou-se para o salão, confrontando o lugar vazio emoldurado pela escuridão que se estendia até o pequeno palco de onde um vulto o encarava de volta; seu olhar fixou-se na estranha silhueta, o coração estava prestes a explodir, as mãos tremiam de medo e frio, um suor gelado brotou em sua testa.
Puxando a lanterna do bolso, tentou se aproximar.
— Ei! — gritou, tentando controlar o nervosismo. — O que tá fazendo aqui?
Quando a lanterna o alcançou de relance, as portas se fecharam violentamente, causando um estrondo que ecoou pelo salão; a escuridão tomou conta do lugar, sendo enfrentada apenas pela frágil luz da lanterna de Elias, mas a música continuava, os estalos o confundiam em meio as sombras e, por um breve instante no início daquela madrugada, apenas o som do disco vibrava entre as paredes. Ao longe ouvia o som de passos, um sussurro pareceu irromper no salão quando a música aumentou expressivamente, diante de seus olhos a escuridão moldava-se em vultos ligeiros — chegou a pensar, num momento de desespero, que talvez a lanterna estivesse falhando, mas sua luz permanecia intacta, ainda que fosse incapaz de alcança-los. As vozes continuavam surgindo, inaudíveis, como os uivos do vento em uma tempestade sombria, onde reagiam ao som peculiar da vitrola.
Elias tentou mover-se, dando um primeiro passo que cessou por completo qualquer ruído inexplicável, deixando apenas o disco rodando sem qualquer interferência. Já ia arriscar um novo passo quando, da vitrola, uma voz soturna, meio rouca, pareceu emergir das trevas...
— Nós, aqui presentes — começou —, irmanados nessa missão inglória, mas necessária, estamos à um passo da divina resposta pela qual todos buscamos sem hesitar: o que esconde a morte. Será que nós, seres de luz, que batalham e correm atrás de nossos sonhos, será que nós teríamos algo a temer? — indagou, seguido de uma negativa uníssona — Eu, assim como vocês, não creio... hoje, oferecemos nossa vida em troca da ascensão, em troca do que merecemos e realmente acreditamos.
A voz calou-se. O que se seguiu foi o som de uma multidão entusiasmada cortada pelos ruídos irritantes da agulha sobre o vinil, até que os ruídos cessaram e a multidão continuou: os murmúrios, a agitação, uma energia coletiva que entorpecia seus sentidos através da escuridão que o cercava; a lanterna abria caminho sobre o palco, ainda mostrando-lhe o vazio agoniante do lugar. Agitava-a sobre os cantos, buscando encontrar alguém — “deve ser uma brincadeira, alguma piada”. Os sussurros aumentavam, misturavam-se como se estivesse perdido em uma festa. Sentia novamente os olhos caindo sobre ele, observando seus movimentos ainda que não encontrasse nada; lançava luz a todos os cantos, até que passara sobre o palco e encontrara um pedestal que tinha a certeza de não ter visto ali minutos antes; a voz continuava em sua cabeça, ainda que já não ouvisse a música nem os estalos.
Os murmúrios continuavam, aguardavam sua reação, mas Elias continuava a admirar o misterioso pedestal. Tentou uns passos, ameaçando os sussurros que o acompanhavam. Ouviu o girar enferrujado da manivela, a agulha novamente caindo e reiniciando o hino... a trilha sonora perfeita, a melodia macabra composta exatamente para aquele momento. Ele continuava perplexo diante do palco, aproximando-se à passos miúdos, equilibrando-se sobre as pernas trêmulas. Havia algo que o chamava, não sabia se na música ou nas vozes ou mesmo no pedestal, talvez fosse o par de olhos que o observava silenciosamente no proscênio sem seu conhecimento, mas havia algo que roubava sua atenção, a voz rouca ecoava em sua cabeça, Elias revisitava suas palavras, entregava-se ao hino e a ascensão.
Ele chegou ao palco, alcançando o pedestal. Sob a luz da lanterna, via ao fundo a vitrola tocando suas últimas notas, testemunhando seu espanto ao encontrar sobre o objeto um revólver, o empunhara, vistoriando sua munição devidamente colocada. As vozes espantaram-se. Olhava para a arma sentindo um peso ao seu redor, como se o ambiente se enchesse de expectativa. Uma nova olhada com a lanterna o surpreendera, mostrando todos os bancos novamente dispostos em seus lugares.
A música parou ao travar da manivela. Elias voltou-se com a lanterna... o vulto ganhara forma, observando-o com olhos fixos que pareciam atingir-lhe a alma. Lembrava-se daquele rosto, agora dominado pelas sombras, já havia visto Richard no jornal, ainda que não com aquele olhar.
Em um som quase ensaiado, ouviu Richard através do disco...
“Ascensão”, disse sob os riscos da agulha. O coração de Elias acelerou. Sentia o revólver em sua mão, a voz guiando seus pensamentos; ergueu-a, pressionando contra o queixo. Com seus olhos fixados naquele estranho ser que se fazia tão presente, de repente pegou-se repensando toda a sua vida, relembrando seus momentos intercalados à imagem dos que ali morreram; não conteve a tristeza que encharcava seu rosto. Pensara nos sussurros, nos jornais, na música infinita que nunca reconhecera e em nada mais. O disparo rasgou a noite, silenciado pelas camadas de neve e frio que cobriam a igreja; Elias caiu pra trás, despencando do palco e batendo a cabeça no primeiro banco à frente do proscênio.
A igreja emudeceu-se novamente, sem qualquer ruído ao seu redor.
A madrugada avançou, enterrando-a novamente sob o silêncio mórbido de suas tragédias, e quanto a vitrola, cujas músicas desconhecidas embalaram tantas mortes, não se tivera notícias dela por anos, até que um estranho casal de investigadores americanos a silenciou para sempre em meio as suas estantes.