O inverno de 1910 parecia querer esmagar o vilarejo esquecido na imensidão da taiga russa. Mais do que isso, queria entorpecê-lo, até que nem mesmo a dor do frio pudesse ser sentida.
Dentro de sua isbá de madeira escura, Victor Dypot mal conseguia segurar o fósforo entre os dedos trêmulos. Seus olhos permaneciam fixos na porta trancada, como se esperasse vê-la se abrir a qualquer instante. Fazia horas que tentava afastar da mente as imagens do que presenciara na floresta. Em vão. O medo continuava ali, tão vivo quanto quando tudo começara.
Mas o que houve para causar todo aquele horror em sua mente? Entre os pinheiros da província de Pyaiktyov, vira figuras dispostas em círculo, girando ao redor de um altar em chamas enquanto entoavam um cântico numa língua desconhecida — além de nenhum deles estar com os pés na gélida neve.
Victor acreditava que estava seguro atrás dos troncos, mas não sabia que essas paredes não iriam protegê-lo. À meia-noite, ouviu gemidos vindos da rua, seguidos pelo estalo de vidraças se partindo. Ergueu-se de um salto e correu até a janela, esperando encontrar caçadores — algo comum naquela região —, mas não havia ninguém lá. Victor olhou para o vizinho, que, apavorado, reunia a família longe da entrada. A porta ardia, espalhando chamas pelo interior da casa.
— Que diabos...? — murmurou, cambaleando para trás.
Uma parte do telhado desabou em meio às chamas. Mais flocos invadiram sua cabana pelo buraco, queimando os móveis e a cozinha, estilhaçando as janelas e queimando suas paredes.
— Que desgraça! — exclamou Victor, se jogando contra uma parede.
Sua respiração acelerou junto com seus batimentos.
Victor estendeu a mão, apreensivo, e apanhou um dos flocos de neve que caía lentamente. Por um instante, não sentiu nada. Então, uma dor agonizante rasgou sua palma. Ele chacoalhou a mão violentamente, tentando se livrar daquilo. O floco desapareceu em uma linha fina de fumaça. Ao olhar para sua mão, viu-a descascando. O sangue escorria da palma, atravessava o pulso e descia pelo antebraço até o cotovelo.
— Como isso é possível?
Ao fundo, escutou aquele mesmo maldito cântico. Ele ouviu o teto ranger. Ergueu os olhos a tempo de ver as vigas cederem. Então, tudo desabou.
O último telhado ardeu até se tornar carvão, e a floresta
esperou até que a última partícula de fumaça sumisse. Nenhum sobrevivente,
testemunha ou sequer corpo. Como se essa região nunca tivesse existido.
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