Dizem que as lendas se resumem em combinar fatos reais e históricos com o caráter fantasioso e meramente fictício. Mas seria mesmo as lendas um produto da nossa gigantesca imaginação? Ou existe algo mais... perverso nessas histórias contadas?
A história a seguir não foi comprovada cientificamente, e duvido muito que alguém se arriscaria a procurar por fatos inimagináveis. Assim como a morte não há uma explicação e muito menos uma origem, a montanha por si só já explica para os curiosos sua verdadeira identidade basta olhar. Uma dica: Quando se vai a uma montanha desconhecida, coisas ruins acontecem.
Japão 1995, Niseko-chō (ニセコ町)
- Querido! O Monte Yōtei é para o outro lado, ali!
Emi (conhecida popularmente como Emily) apontava para a alta montanha do outro lado da extensa área florestal, com árvores robustas à frente mas ainda assim era visível o Monte nevado. Seu marido Arturo um homem simpático mas de origem desconhecida, observava o Monte ao retirar a mochila da esposa no bagageiro do carro. Seu rosto descontraído com traços indianos evidentes e ao sorrir, Emi sentiu-se confusa com sua expressão. Art por fim retirou o resto do equipamento para a caminhada e respondeu:
- Nosso caminho é para lá, amor! – Ele se virou e apontou para a entrada de uma floresta um tanto misteriosa, e até então desconhecida por Emi.- Você trouxe os laços que pedi?
Sem tirar os olhos da esposa Arturo abriu o feixe de sua mochila e encontrou a sacola, com diversos laços de pano dentro. Emi não entendeu a intenção do marido e o questionou ao acompanhar seus passos até a entrada.
- O que vamos fazer aqui? Não vejo placas, então não é nenhum ponto turístico da vila.- Ela pensou por alguns instantes e voltou a retrucar.- Na verdade eu nem sabia que existia esse lugar.
A entrada da floresta era ainda mais assustadora quanto a floresta em si, a presença de árvores com troncos grossos e cogumelos parasitas brotando de todos os lugares tornava o ambiente mais ameaçador. O forte odor dos fungos dificultava o casal a prosseguir, Arturo puxou um laço da mochila e o amarrou em um galho da árvore mais chamativa. Disse:
- Vamos fazer uma caminhada até a Montanha Shin’en, preciso fotografar uma planta rara que só nasce por lá.- Ele retirou duas máscaras descartáveis da mochila e entregou uma para a esposa.- O Sr. Yamazaki que me indicou, se eu encontrar essa planta com certeza terei um aumento!
Ele sorria sem dificuldades em continuar a contar suas mentiras, no fundo Emi apenas guardava todas aquelas informações e fingia não saber de nada. Mas o telefonema do Sr. Yamazaki (chefe de Art) martelava seus pensamentos, ele mandou um recado para seu empregado nem um pouco amigável que dizia:
- “Boa noite Arturo, tenho um assunto pessoal para resolver, ficarei fora por 5 dias. Não deixe as matérias acumularem, caso o contrário não irei mais acobertar suas merdas com os outros funcionários.”
No início a esposa se estressava com tais ameaças, mas com o tempo a verdade face de seu marido se rebelou contra a máscara que o escondia. Ele já não era mais o mesmo tanto no trabalho quanto em seu relacionamento, por fim Arturo teve a brilhante ideia de sair para caminhar com a esposa. Mesmo chateada com a situação Emi decidiu o acompanhar e usar dessa caminhada uma forma de escape de sua dura realidade em Tóquio, seu trabalho como diretora de um colégio ocupava grande parte de sua rotina, a ponto de toda sua vida ser apenas voltada para ele.
Adentrar na floresta não parecia ser uma boa idéia, apesar de usarem as máscaras o casal ainda conseguia sentir seus pulmões ficarem rígidos com a toxicidade do local. Ambos apressaram o passo e tentaram ao máximo evitar pisar em poças de água para não encontrar cobras ou insetos desagradáveis. Emi é conhecida por se aventurar sozinha em trilhas desconhecidas no Japão, herdou esse hobby de sua mãe que durante anos antes de se casar fundou uma organização para “Shizen o tankyū suru geijutsu no aikō-ka” (Amantes da arte de explorar a natureza). O projeto foi tão bem reconhecido que grandes nomes da política, artistas e famílias da alta sociedade participavam de suas trilhas. Ao passar seus talentos para a filha, Emi finalmente se casou e dividiu seu sonho com Arturo. Mas infelizmente o sonho não durou muito quando Emi descobriu estar doente, câncer de mama especificamente, o projeto das caminhadas se tornou um caderninho guardado no fundo de um armário velho.
Não há conversas paralelas enquanto caminham, o silêncio é tão importante quanto o ar que respiram. É necessário apenas um passo em falso para acontecer um desastre, as florestas no Japão são tão perigosas quanto a picada de uma Vespa Mandarina, é preciso ter o foco de um jogador profissional de Shogi para não cometer um único erro. Assim como sua mãe, Emi reproduziu todas suas habilidades e experiências nessa caminhada e inesperadamente seu marido fez o mesmo, mas seu foco nunca foi esse.
A caminhada teve 8 horas de duração, no decorrer do trajeto foram feitas 3 pausas para repôr água e 10 minutos de descanso. Por mais que a saúde de Emi estar em boas condições, ela sentiu um peso maior que desejava tornando a resmungar de dores nas costas e falta de oxigênio nos brônquios. Arturo parecia distante e indiferente a cada pausa, agia como se importasse mais em amarrar os panos marcadores do que na saúde da esposa. Por fim o ambiente mudou, a superfície que antes era plana coberta de galhos e folhas secas agora é uma área montanhosa com grandes elevações. Por ser uma montanha tão pouco explorada, a presença de insetos é maior e mais insuportável. Emi agiu rapidamente ao esmagar um mosquito que pousou em seu rosto, no lugar um rastro de sangue preto desceu por sua bochecha.
- O quê? Que sangue é esse?- No mesmo instante ela procurou por um paninho em sua roupa especial, limpou o rosto mas ainda podia sentir o forte odor do sangue na região.- Merda, precisamos achar mais água. Não quero gastar o resto que economizamos.
- Tudo bem. Vamos logo, estamos quase chegando nas coordenadas do lugar.
Arturo segurava em sua mão direita uma bússola cartográfica, indicando uma região hà 60 graus leste que parecia ser o lugar desejado mas o mesmo não esperava que algo bem peculiar atrapalharia seus planos de forma tão medonha. Ao posicionar a bússola um zumbido fraco e irritante estava sendo transmitido por ela, sem saber o que era aquele som o homem curioso levou o objeto até o ouvido para escutar melhor. Em questão de segundos o zumbido aumentou de maneira insuportável, o som era tão forte que inesperadamente o objeto explodiu em sua mão como uma bala saindo de uma arma. O vidro que antes protegia o conteúdo dentro da bússola atingiu em cheio o canal auditivo de Arturo, que logo caiu no chão ao sentir o impacto da explosão. Emi bebia o resto de sua água quando tudo aconteceu, o rosto assustado de seu marido caído a assombrava cada vez que chegava mais perto da cena. Ela sentiu o ápice quando seguiu o rastro de sangue do marido e encontrou sua orelha, largada no chão e completamente detonada como se fosse massinha de modelar.
Angustiada Emi tentou fazer alguma coisa, pegou uma blusa reserva e rasgou o tecido para estancar o sangue que jorrava para fora do canal auditivo. Arturo parecia estar em transe, como se não entendesse o motivo de estar caído no chão, a dor surgiu quando passou a mão no local e viu com seus próprios olhos o sangue derramado.
- O QUE É ISSO?- Desesperado com o sangue, ele tentou levantar mas foi impedido pela esposa.- É ALGUM ATAQUE TERRORISTA?
A sugestão de seu marido apavorou ainda mais as emoções de Emi, ela procurou desesperadamente por algum culpado dentre as árvores silenciosas e o ar que lhe sufocavam. O silêncio ensurdecedor se tornou frio como gelo, os ruídos da floresta aumentaram como se provocassem os visitantes indesejáveis. Ainda sem respostas Emi ajudou seu marido a levantar, ambos se encaravam com um certo desconforto no rosto. Ela disse:
- Precisamos encontrar um lugar para ficar rápido, já está anoitecendo e pode ficar perigoso demais para aguentarmos passar a noite.- Uma pausa para continuar o raciocínio.- Ah eu trouxe um mapa, não confio muito nesses aparelhos movidos a magnetismo.
Ela verificou o machucado do marido mas não entrou em pânico, a blusa rasgada impediu o sangue de jorrar para fora. Com muita cautela, questionou preocupada:
- Como está aí? Consegue me ouvir?
Arturo bufou ao ouvir sua pergunta, até o momento a dor estava suportável mas temia que piorasse ou até pior... infeccionasse. Ele balançou a cabeça concordando, mesmo sabendo que sua audição do lado direito havia se perdido completamente ao notar o vácuo no local.
- Sim. Vamos logo, para de perder tempo com preocupação inútil Emi.
Seu comentário maldoso doeu em Emi, aquele momento foi o estopim que despertou uma carga de arrependimento em seu relacionamento. A viagem só serviu para mostrar que aquele era um caminho sem volta para ambos, e talvez para suas vidas.
Emi largou o corpo do marido e pegou na mochila o mapa com muita raiva e uma enxurrada de decepção que ardia por dentro, tentou se localizar procurando locais de referência por onde passaram (como riachos, cavernas etc). Por fim se localizaram, como o inesperado precisavam seguir em frente até um certo ponto da montanha. Arturo percebeu o comportamento estranho e repentino da esposa, mas não se arrependia de ser agir dessa maneira, no fim tudo iria acabar bem. Ou não.
Emi suspeitava de que seu marido tivesse algum transtorno psicológico, suas mudanças de humor causavam um grande efeito negativo no relacionamento e comprometimento entre o casal. Por mais que detestasse esses momentos, ela não se permitia odiá-lo pois sabia que na sua vida só existia ele para ocupar sua mente desgastada, sem contar o fato de que Arturo foi o único homem que declarou seu amor. Ambos acorrentados uns aos outros, cegos de inseguranças e presos por suas escolhas, unidos por uma aliança dourada que pesa o dedo.
Faltava pouco para chegarem ao local mas Emi se viu sem saída, o cansaço tomou conta do seu corpo, era hora de montar a barraca e descansar. Arturo não reclamou quando viu a esposa afastar as folhas e sujeira do chão, o esforço que ambos faziam para chegar em um lugar “seguro” era cansativo, seu ferimento na orelha precisava ser examinado. Com a barraca montada Emi retirou a caixinha de primeiro socorros e limpou o ferimento, observou de perto todo o estrago que a explosão causou, a região estava avermelhada e o buraco no meio era preocupante.
- Amanhã de manhã vamos voltar, você não pode ficar com esse ferimento desse jeito.- A preocupação da mulher era tanta que as lágrimas não demoraram para surgir.- Por quê isso foi acontecer? E-u eu não entendo.
Com o rosto cansado e sério, Art reagiu aos lamentos e choros da esposa e segurou sua mão, olhou no fundo de seus olhos e disse com a calma de um médico atencioso:
- Eu estou bem, meu amor.- Sorriu a observando.- Não chore, você fica mais bonita quando está brava. Deite um pouco, daqui a pouco você precisa tomar seus remédios e por isso...
Ele levanta e pega uma bolsa dentro da mochila, olha de novo para ela e diz palavras bonitas, causando novamente uma ilusão para seus sentimentos:
- Vou fazer um pouco de chá, descanse.- Pisca um olho para ela.- Você vai ficar bem.
Em algum lugar em sua mente, Emi desejou que suas palavras fossem reais assim como seus sentimentos são por ele, mas a realidade tende a ser mais cruel que sua ingênua imaginação. Ela não resistiu e fechou olhos, em poucos segundos adormeceu.
Do outro lado da barraca Arturo utilizava uma lanterna para enxergar a água borbulhando no bule, o sol já havia sumido entre as árvores e sua única alternativa foi fazer uma fogueira e se manter aquecido. Pensamentos ruins de culpa tentavam mantê-lo ocupado e se esquecer de seu próximo passo, mas Arturo não podia perder a oportunidade perfeita de conquistar a vida que sempre desejou: uma vida sem Emi.
Despejou a água quente em uma garrafa e logo colocou o sachê dentro, esperou 2 minutos para terminar de batizar o chá da esposa. Por fim tirou de dentro da bolsa o ingrediente final, um frasco pequeno com um líquido preto dentro. Sentia arrepios ao segurar o frasco nas mãos, precisava despejar todo o líquido rápido para não perder a coragem e todo seu esforço ir por água a baixo. Após misturar o chá com o veneno de rato, Arturo foi se encontrar com a esposa. Mesmo dormindo ele sentia ódio de Emi, ódio de sua respiração, ódio de seu modo de falar, ódio de como agia perto de seus vizinhos enxeridos. Tudo a respeito de Emi era visto como algo repugnante por Arturo, nunca existiu amor e sim encenação por sua parte.
Já ele sempre se orgulhou por saber mentir tão bem, suas mentiras renderam por anos e Emi nunca descobriu seu lado podre, mas era hora de encerrar o show.
Arturo se aproximou da esposa e lhe acordou com um beijo na bochecha, ligou sua lanterna e disse calmamente:
- O chá está pronto, beba tudo ok? Vou fumar e já volto.
Não era mentira, de fato o maço de cigarro estava guardado em sua blusa pronto para ser aceso. Com a lanterna ligada em mãos ele andou em linha reta, tentando ao máximo se distanciar da barraca e de Emi. Os panos de sinalização já estavam posicionados nos galhos das árvores, o plano corria bem mas não era perfeito. Contudo Arturo encontrou um bom lugar para fumar, sentou-se ao pé de uma árvore com um cheiro bom e acendeu um cigarro de maconha que comprou com seu colega de trabalho Yoshi. Sentiu seus pulmões relaxarem com a fumaça, uma sensação enorme de prazer que se espalhava como o veneno em um copo de chá quente. De bom humor, ele disse observando seus dedos mudarem de cor:
- Yoshi seu desgraçado, essa erva é da boa...
As diversas formas encantavam os olhos de Arturo que os seguia, por um momento seus problemas eram tão insignificantes que sumiram de sua mente. O brilho da lua cintilava em uma cor cinzenta, que derreteu em um fechar de olhos como uma cascata de líquido metálico caindo no chão. Parecia tão real que por um impulso Arturo ergueu sua mão, e logo houve o contato com a lua derretida. Pegajoso como gosma mas precioso como metal derretido, o líquido se espalhava como água por seu corpo, braços, tronco, pescoço e por fim o rosto.
No momento em que Arturo desviou o foco de suas mãos algo de estranho o encarava ao seu lado, escuro como a floresta que o espiava. Todas as cores e formas bonitas sumiram, a lua derretida em suas mãos era na verdade seu próprio sangue escorrendo das garras da coisa. O pavor se alastrou como fogo na medida em que a coisa se aproximava, com as pernas longas e unhas cortantes o braço de Arturo queimava com os cortes fatais do monstro. Ele gritou como nunca havia gritado antes, rezou por misericórdia mas o rosto sem vida da entidade brincava com seus sentimentos, ela dizia:
- Grite! – A coisa ria se divertindo com o sofrimento do homem caído.- GRITE GRITE GRITE GRITE GRITE GRITE GRITE GRITE GRITE!
Os berros da entidade alertaram a floresta, ursos que caminhavam a procura de suas presas escondiam na mesma velocidade que de suas mordidas, a natureza e seus componentes se protegiam do desastre que estava por vir.
Arturo não tinha mais forças para gritar, com os braços e pernas cortados o sangue fluía em direção ao solo marcando ali o fim de sua vida. A bruxa tinha concluído seu trabalho mas precisava dar um fim no corpo inútil do humano, então usou o seu poder cedido pela montanha para camuflar o corpo do mundo físico. Aos poucos Arturo se transformava em uma árvore velha e morta, seu sangue ruim não tinha vitaminas o suficiente para se tornar um benefício a floresta. Mais um rejeitado por Shin’em e morto sem misericórdia por Zih’rrar a bruxa protetora dos mortos, em seu leito de morte Arturo questionou:
- Quem...- Suspira profundamente.- É você?
Zih’rrar revela sua verdadeira face para o homem quase morto, se alimentando lentamente de sua vida que esvaía a cada gota de sangue a pingar, o relógio natural da vida ganhou mais um minuto.
- Eu sou a luz no fim do túnel.- Ela aproxima rapidamente seu rosto coberto por insetos, como se estivesse em decomposição.- Talvez eu seja a escuridão... você vai saber daqui a 1 minuto.
Os segundos se passaram e Arturo desistiu de lutar por sua vida, apesar de que seus planos na terra não tiveram muito sucesso ele se permitiu sorrir, ao lembrar que não estaria sozinho nessa caminhada para o desconhecido. Suas últimas palavras foram:
- Vá para o inferno.
Emi abriu seus olhos ainda cansada, mas podia sentir uma dor pontiaguda na cabeça pois ao adormecer um terrível pesadelo a atormentou. No pesadelo Emi corria ao ser perseguida por alguma coisa, a tensão era tanta que a mulher acordou encharcada de suor e ofegante.
Ainda perturbada com a situação, ela encontra a garrafa térmica com o chá preparado por seu marido que estava a poucos centímetros de distância do travesseiro, ela considerou aquilo como uma desculpa por seu comportamento esquisito no caminho. Suspirou profundamente e procurou por seus remédios tranquilizantes na bolsa, talvez assim ela conseguiria dormir bem e esquecer seus problemas. Ela pegou três pílulas colocou na boca, podia sentir o calor abafado do chá através da garrafa. No momento em que o líquido caía uma inseto nojento saiu de dentro da garrafa, automaticamente Emi derrubou a garrafa longe quando viu o bicho. As pílulas que estavam em sua boca caíram em algum lugar na garrafa, ela disse:
- Mas que diabos! O que é isso?- Ela pegou a lanterna e apontou na direção do inseto.- Uma salamandra preta?
Por conta do susto Emi foi obrigada a sair da cabana ao perder de vista o inseto, os cobertores se misturavam entre si causando uma grande confusão. Por fim ela decidiu chamar o marido.
- Querido?- Emi usa a lanterna para procurar seu marido, mas não encontra nada nos arredores.- QUERIDO?! Onde será que ele foi?
Sem saber por onde o procurar, Emi puxou a bolsa do marido e vasculhou tudo lá dentro. Com a lanterna em mãos ela começou a tremer, com medo de ter acontecido alguma coisa ruim. Dentre todas as tralhas ela encontrou um caderninho, logo se lembrou de ver Arturo o utilizando para anotar questão importantes de seu trabalho no escritório. Em uma das páginas havia um marcador peculiar, uma pequena flor morta disfarçando as palavras cruéis deixadas por seu marido. Dizia:
“A vaca vai morrer, não, ela PRECISA morrer. Tatsuo finalmente fez algo de útil e me vendeu o veneno de rato, ela vai se engasgar com o próprio sangue corroído pela substância tóxica, a espera valeu a pena. Espere por mim Hari, quando toda essa merda acabar o dinheiro será nosso e apenas NOSSO.”
O impacto causado por palavras tão sórdidas enfraqueceu os joelhos de Emi, que parecia refletir se o recado se referia a ela. Mas no fim estava óbvio demais para ignorar, esse era o seu plano desde o início quando ambos se conheceram no hospital de seu pai, Emi ficou encarregada de administrar o patrimônio deixado por seu pai amado. Entretanto seu amor pela educação a impediu de seguir essa vida, como não bastasse sua família guardou grande parte da venda do hospital em seu seguro de vida, no fim seu valor se tratava apenas do dinheiro deixado por seu pai.
20 milhões de dólares que seriam dividos e doados para diversas instituições de caridade por todo o mundo, esse era o plano de Emi quando o câncer levasse sua vida, mas descobrir a verdadeira intenção de seu marido a magoou profundamente. Como um teatro ela foi muito bem enganada por sua atuação, achou que de fato encontrou alguém que a amasse na riqueza e na pobreza, saúde e na doença. Por mais que as lágrimas caíssem sem aviso a raiva se mostrou presente, o ódio e indignação controlavam os movimentos de Emi que procurava por Arturo entre as árvores robustas. Ela gritava por seu nome mas apenas ouvia a floresta se sacudir, os ventos da manhã e o sol que surgia dentre as ladeiras da montanha. Aos berros, Emi disse:
- EU VOU TE ENCONTRAR, NEM QUE EU TENHA QUE TE MATAR NO CAMINHO SEU CANALHA!
Mas para a sua surpresa, Arturo já estava morto. Com seus braços e pernas presos por raízes de uma árvore, seu corpo parecia se fundir às cascas da madeira. Uma cena tão terrível que Emi sentiu-se derrubada ao presenciar, ver seu marido naquele estado era lamentável. Por um momento ela se esqueceu da tentativa de assassinato planejada por ele, mas seu lado sentimental se ativou ao relembrar de seu passado. Ela disse:
- O-o que aconteceu com você, querido?
Ela se aproximou do cadáver preso e o observou por inteiro, o sangue ainda estava fresco. Porém ela reparou alguns detalhes intrigantes presentes em seu corpo, suas mãos estavam completamente pretas como se tivessem as queimado, e por dentro de sua boca e olhos folhas secas brotavam de dentro. Ao visualizar todas as bizarrices envolvendo sua morte, ela se afastou repentinamente da cena, suas mãos tremiam tanto quanto vara verde.
- Você está se transformando em uma árvore... uma árvore morta.
Não dava mais para ela, a pressão era tanta que a dor de cabeça voltou a martelar causando-lhe dores extremamente fortes. Mas Emi reuniu sua coragem e quando percebeu algo se mexer dentre o silêncio impiedoso, ela correu. Com muito medo, não ousou olhar para trás e tentou seguir seu caminho até a barraca onde guardava um Walkie Talkie na mochila. Seu momento de agonia terminou quando ela caiu de cara com o chão, a dor do impacto a deixou ofegante e sem ar, por fim desmaiou. Mas antes fechar os olhos, ela viu todas árvores bonitas morrerem em um piscar de olhos, lembrou de seu falecido marido que também se transformou em uma.
O som de gotas de’água acordou Emi que estava presa entre as raízes de alguma árvore, seu olhar agora lúcido examinava atentamente cada detalhe do local em que fora deixada. Com certeza era algum tipo de gruta ou caverna, os paredões de pedra assustavam com o reflexo da água. Ela sentia seus pés tocarem algo frio, quando olhou para baixo sua curiosidade rapidamente se transformou em pânico, a água estava subindo. Tentando se livrar das fortes raízes que a agarravam, Emi se debatia em agonia mas sua melhor alternativa era pedir por socorro. Ela disse:
- OLÁ?! TEM ALGUÉM AÍ?! SOCORRO!!- A água continuava a subir.- EU ESTOU PRESA!!!
Sem resposta Emi transbordava em lágrimas sentindo a água subir suas canelas, o frio que antes a perseguia na montanha agora estava abaixo dela. Pensamentos confusos de como ela foi parar lá intrigavam seu coração acelerado, mas felizmente (mais para infelizmente) a resposta surgiu entre a escuridão. A figura do monstro gelou a espinha de Emi, seu rosto distorcido junto às mãos pretas com unhas gigantes era de se arrepiar. Ela nunca tinha visto algo do tipo, quando criança seus pais a levaram a um circo de aberrações mas nada se comparava aquilo. Nada se comparava a Zih’rrar.
A bruxa arrastava seus braços largos no chão, o som de sua pele dura como casca de árvore ecoava entre as pedras da caverna, Emi logo percebeu que não havia escapatória para ela. Um dos olhos da criatura se virou para ela, seu rosto perturbador fisgou Emi que a tentava ignorar sua presença. Com rápidos movimentos a bruxa segurou o rosto dela, obrigando assim observar seu rosto. Ela disse:
- Não gosta do que vê? Então POR QUÊ INVADIU A MINHA MONTANHA?
Sua voz carregada de ódio estremeceu o corpo enfraquecido da mulher, que rezava em silêncio para que a luz no fim do túnel viesse até ela, quanto mais rápido melhor. Completamente sem esperanças e com lágrimas asquerosas caindo por seu rosto, Emi não sentiu medo ao encarar a bruxa em sua frente. Ela disse:
- Me mate de uma vez.- A falta da medicação adequada estava afetando seus sentidos, Emi começou a delirar no momento em que planejava tentar escapar.- Vamos doutor, tire isso de mim EU IMPLORO!
Zih’rrar não entendeu mas logo encontrou a razão por suas estranhas palavras, olhando em seu seio direito a morte sugava a vida de sua mais nova presa.
- Como ousa trazer a mais suja morte para a MINHA montanha??
O desgosto em sua voz estremeceu a floresta logo acima delas, Emi delirava palavras com seu suposto médico desconhecido, seu fim estava mais próximo do que nunca. Sem mais delongas Zih’rrar permitiu que a raiva tomasse conta de seu corpo, e com uma extrema rapidez enfiou suas garras no peito de Emi que agonizava com seu próprio sangue. O câncer em seu estágio avançado parecia pulsar nas mãos da bruxa, que o observava com extrema luxúria nós olhos. Já Emi não resistiu ao ataque fatal da criatura misteriosa, sendo assim a montanha Shin’en ganhou mais uma árvore morta para sua coleção de memórias horripilantes, mas dessa vez a árvore estava podre.